Carlos Vieira e Castro*
A normalização do Racismo já chegou ao Primeiro-Ministro

Ingenuamente havia quem pensasse que em Portugal nunca seria possível eleger-se alguém como Trump, Bolsonaro, Órban, Le Pen ou Salvini. Mas o vírus do racismo e da xenofobia já andava por aí a fazer vítimas, por vezes de forma institucionalizada, como tem sido denunciado por relatórios da Amnistia Internacional e do Alto-Comissário de Direitos Humanos da ONU. Até que chegou ao Parlamento um comentador televisivo de futebol, encarnando o papel de populista racista e xenófobo, apoiado por salazaristas e neonazis.
Não surpreendeu a normalização da extrema-direita feita por Rui Rio com o acordo nos Açores, já que André Ventura (AV) iniciara a carreira política no PSD. Estranho e inadmissível foi ouvir António Costa dizer que AV e Mamadou Ba (MB) se emulavam um ao outro. Como é que o primeiro ministro pode por no mesmo plano um deputado racista e um activista anti-racista que até foi recentemente convidado pelo Governo para integrar o Grupo de Trabalho para a Prevenção e Combate à Discriminação Racial?
Costa reproduziu a propaganda da extrema-direita que tem personalizado em Mamadou Ba os ataques ao anti-racismo. Menos de trinta fascistas do PNR chegaram a fazer uma mini-manifestação com uma faixa a mandar MB de volta para o Senegal (MB tem nacionalidade portuguesa e um filho português). O pretexto foi este comentário de MB as reacções de alguns polícias nas redes sociais de apoio à violência policial no Bairro da Jamaica: “A bosta da bófia!” Ora, um polícia racista é, de facto, à luz da Constituição da República, uma excrescência da corporação que só pode ser expulsa. Outra lenda negra contra MB é que ele terá desejado “a morte do homem branco”. Numa videoconferência com outras três intelectuais afro-descendentes, MB citou Franz Fanon, neurocirurgião e psiquiatra, que na sua obra “Pele Negra Máscaras Brancas”, desmonta os mecanismos sociais, económicos e psicológicos do colonialismo que levam o negro a sentir-se mal na sua pele, inferior ao branco, e citou o poeta Césaire: “(…) uma vez descoberto o branco nele, mata-o”. Ou seja mata o seu sentimento de inferioridade. Que racistas sejam ignorantes e incentivem ao ódio, não admira, mas António Costa, também ele vítima de racismo, francamente!…
*Activista do Núcleo de Viseu da Associação Olho Vivo
15/04/2021

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