A negação das evidências

Mario Pereira

Os tempos que correm não são muito propícios a que os políticos pensem com lucidez e ainda menos a que nos tratem como concidadãos com um mínimo de capacidade crítica.

Isto faz com que quando alguém diz uma coisa óbvia se levantem estranhas ondas de consternação

Há dias aconteceu um secretário de estado, aparentemente sem que ninguém lhe tenha encomendado o sermão, dizer que no futuro as pensões de reforma dependerão da economia e da demografia.

Levantou-se logo um alarido imenso, os ministros e até o primeiro-ministro apressaram-se a dizerem que o homem tinha dito uma coisa idiota que só passou pela cabeça dele e de mais ninguém.

Do lado da oposição houve um coro generalizado a gritar que era uma enormidade e uma ofensa dizer que as pensões poderiam depender da demografia e da economia.

Acontece que aquilo que o secretário de estado disse é uma evidência elementar.

Obviamente, no futuro só haverá pensões de reforma se houver economia e se houver pessoas.

Se por alguma desgraça a economia tiver um colapso ainda maior ou se a população se reduzir excessivamente é certo que as pensões de reforma serão afetadas.

A discussão em torno das pensões está, tanto quanto eu consigo ver, desfocada. Discute-se em função do passado e não em função do presente e do futuro.

As reformas não dependem, na verdade, daquilo que as pessoas fizeram no passado mas da riqueza que conseguirmos produzir no presente e no futuro.

O sistema não funciona como um cofre onde cada um de nós guarda o dinheiro que vai descontando e que retira quando se reforma.

O dinheiro que eu desconto, sendo ativo, está a ser gasto com as reformas daqueles que agora recebem reformas e não está a ser guardado à espera da minha.

Há uns tempos já tinha acontecido outra comoção extraordinária quando um elemento do PS disse que se ganhar as eleições e formar governo o PS não vai repor os salários e pensões nos níveis de 2011.

Logo, alguns dos seus camaradas, se apressaram a dizer que essa não era a posição do Partido Socialista e os outros partidos de esquerda viram nisso a demonstração de que o o PS é igual ao PSD.

Seria preciso alguém ter chegado de Marte ou que tenha estado em coma desde de 2011 para não considerar essa afirmação a coisa mais evidente. Quer se goste ou não.

Já dói ouvir o líder do PS exigir ao primeiro-ministro que diga se os cortes nas pensões e salários vão ser permanentes.

Nas circunstâncias que vivemos a única solução para dizer que os cortes são transitórios é dizer que espera poder repor os cortes ao longo dos próximos dez anos e que se não o faz já é culpa do anterior governo. Assim declara que não são definitivos e não se compromete

A única possibilidade de os cortes nos salários e nas pensões serem repostos num futuro próximo é acontecer algo como aconteceu na Crimeia.

Seria necessário que Portugal fosse anexado pela Alemanha e que a chanceler Merkel resolvesse fazer como fez Putin quando a Rússia anexou a Crimeia. Foi logo lá prometer que pagaria na Crimeia salários e pensões iguais aos que são pagos na Rússia.

No movimento dos defensores da renegociação da dívida há quem defenda que os custos com uma redução da dívida devem ser assumidos pela Europa.

Parece evidente que esta solução faria sentido num quadro de desenvolvimento do federalismo europeu.

Não vejo como queremos reforçar posições nacionalistas e, simultaneamente, querer uma solução europeia para o maior d

Se nos considerassem pessoas inteligentes e capazes, seria esta a discussão que todos os partidos nos estariam a propor em vésperas de eleições europeias.Redação Gazeta da Beira

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