A Hecatombe: uma previsão para o próximo Inverno
Francisco Queirós
É verdade que os casos da Covid 19 também aumentarão. Como já se sabia e é de esperar. Mas não foi por aí que a Hecatombe aconteceu. Não!
A explosão acontecerá em Novembro. Mas será nessa altura que tudo terá a sua origem.
Meses antes, a Ordem dos Médicos e as autoridades de Saúde tinham ordenado a suspensão de toda a actividade médica, excepto aquela que fosse inadiável. Como nada é verdadeiramente “inadiável” (até respirar é adiável, mesmo que seja só por alguns minutos), os cuidados médicos foram todos suspensos. Todos sem excepção: consultas, cirurgias, exames. Parou tudo. Só se mantinham os cuidados aos doentes com Covid-19. E esses eram prioritários, com todos os recursos dedicados a eles. Tudo o resto parou. E quando, após longas semanas, tentaram reiniciar os cuidados aos outros doentes, já era tarde. Não só era muito difícil compensar tudo o que tinha ficado por fazer durante o tempo de paragem total, como as alterações impostas ao funcionamento das instituições de saúde o impediam. Porque os centros de saúde continuavam sem permitir consultas presenciais, era tudo feito por telefone, e mesmo assim bem difícil de conseguir.
Porque os hospitais tinham toda a sua actividade alterada, com circuitos, instalações e recursos materiais e humanos alocados exclusivamente para a Covid. E havia uma enorme escassez de tudo para as outras doenças e doentes. Outras doenças e doentes que, para além de não existirem na comunicação social e redes sociais, também não existiam nas cabeças dos governantes e decisores. Como se apenas a Covid fosse a única e exclusiva doença que afecta os portugueses.
Mesmo mo Verão, a estação em que é habitual uma menor actividade na saúde, já as enfermarias de Medicina Interna, limitadas em espaço e em pessoas que tinham sido desviadas para a Covid , estavam cheias e sem vagas para os outros.
A Explosão deve acontecer lá para Novembro, mas as causas são bem anteriores! A gripe e as outras doenças respiratórias habituais de todos os Invernos surgirão e a enchente de sempre acontecerá inevitavelmente.
Será a Hecatombe! Que verdadeiramente não será causada pela Covid!
Serão os doentes habituais, aqueles de sempre, os de todos os Invernos. Desta vez adicionados aos doentes das outras doenças, que tinham ficado sem cuidados durante tantos meses e que, finalmente, descompensaram e passaram a ser “inadiáveis”.
Os diabéticos, há muitos meses sem consultas nem exames. Os doentes cardíacos e respiratórios crónicos, sem vigilância nem ajuste de medicação há tanto tempo. Os doentes com cancros não diagnosticados atempadamente, por encerramento dos serviços e de exames. Cancros intestinais que surgiam já entupidos e a vomitar fezes. Cancros da mama, da próstata, de tudo e mais alguma coisa, em fase avançada, com complicações e tarde de mais para os tratamentos serem eficazes.
Juntamente com todos os outros doentes, abandonados e sem conseguirem ter os cuidados de que habitualmente dependiam.
Uma vez que as pessoas com determinados sintomas frequentes (febre, tosse, falta de ar) eram impedidas de entrar nos centros de saúde ou clínicas privadas, quando as coisas explodiram, lá para Novembro, os doentes começarão a invadir, a encher e a bloquear os serviços de urgência.
Os serviços de urgência arriscam-se a rebentar. Todos. Sem excepção. E não havia nenhum para onde se pudessem desviar os doentes, que continuavam a chegar, sempre mais, sempre mais. Doentes habituais, em maior número e sem locais onde serem observados, tratados ou até internados.
Os serviços telefónicos de apoio à saúde podem facilmente colapsar. As pessoas passarão a ter de ir às urgências pelos seus próprios meios, pois poderá não haver resposta suficiente dos serviços de transporte de doentes urgentes. Podem antever-se verdadeiros engarrafamentos de ambulâncias e de viaturas particulares à entrada dos serviços de urgência. Conflitos e agressões entre as pessoas, desesperadas por serem assistidas são expectáveis. Tal como a falta de macas e profissionais de saúde exaustos já sem condições de prestarem cuidados de saúde com o mínimo de segurança.
Era inevitável, impossível de prever, haverão de dizer os que nos (des)governam. A culpa foi dos médicos, esses cobardes que não fizeram o que lhes competia, acusarão outros. Não podíamos deixar de seguir as recomendações da OMS e da DGS… O que queriam que fizéssemos? Perguntarão!
Quando as mortes e as sequelas provocadas pelas doenças comuns em muito superarem as causadas pela Covid… a “Culpa, mais uma vez, não foi de ninguém”… Foi a Hecatombe!
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