A Educação em Pequenas Histórias

Vamos falar sobre gaguez

No passado sábado, dia 22 de outubro, celebrou-se o Dia Internacional da Gaguez, data estabelecida em 1998 com o objetivo de sensibilizar a população para as dificuldades, traumas e receios enfrentados diariamente pelas pessoas com gaguez, quando tentam comunicar com os outros.

Possivelmente, muitos se lembrarão de uma deputada eleita que gerou alguma controvérsia pela inconsistência da sua gaguez, aquando das eleições legislativas de 2019.

Por desconhecimento da perturbação, ou por suscitar uma natural curiosidade, a deputada foi acusada por muitos de fingir a sua gaguez ou a sua severidade (especialmente nos debates), como forma de ganhar a simpatia (e votos) dos portugueses.

De facto, a duração e a intensidade dos momentos de gaguez pode variar consoante o interlocutor, o momento do dia, o contexto (formal ou informal), o nível de responsabilidade de determinada comunicação, etc. Por outro lado, a pessoa com gaguez pode experienciar momentos, dias ou semanas de fluência dita ‘normal’.

Quem nunca sentiu pensamentos e palavras a “tropeçar” numa apresentação, perante um auditório repleto? Ao apresentar a sua tese de mestrado? Quando queremos falar com alguém especial?

Não existe fluência total e as pausas, bloqueios e interrupções fazem naturalmente parte do nosso discurso. Não significa isto que somos pessoas ansiosas ou nervosas, mas sim que experienciamos este tipo de sensação quando nos encontramos em momentos de maior pressão comunicativa.

A gaguez (ou disfluência) é uma perturbação da fluência que afeta cerca de 100 mil pessoas em Portugal, sendo quatro vezes mais comum no sexo masculino. Podemos encontrar, no discurso da pessoa que gagueja, repetições de sílabas ou palavras, prolongamentos ou bloqueios, onde a passagem do ar chega mesmo a ser interrompida nos articuladores. Normalmente estas interrupções são acompanhadas de evitamento e/ou esforço e do sentimento de perda de controlo. A pessoa com gaguez pode-se confrontar com sentimentos de tristeza, frustração ou incompreensão.

A gaguez surge, mais frequentemente, entre os 2 e os 4 anos, coincidindo com um desenvolvimento exponencial da linguagem. Esta gaguez poderá ser ou não transitória, pelo que cada situação deverá ser avaliada por um terapeuta da fala.

Existem estratégias que poderão ser úteis para pais e educadores, que poderão ser aplicadas desde o primeiro momento que que a criança evidencia momentos de disfluência e que poderão levar a um melhor prognóstico de evolução:

– Abrandar o ritmo comunicativo: falar devagar, fazendo pausas frequentes;

– Praticar a escuta total: criar momentos em que possa estar totalmente focado no conteúdo do que a criança diz e não na forma como o diz;

– Evitar dizer à criança para ter calma ou para respirar;

– Evitar terminar as frases da criança;

– Fazer perguntas curtas e dar tempo à criança para responder;

– Esperar a vez: todos os elementos deverão ter tempo suficiente para falar no seu turno comunicativo.

(Adaptado de Stuttering Foundation of America, 2014)

27/10/2022


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