A arte, uma arma contra a Violência Doméstica
Custódio Almeida usa a escultura para transmitir mensagens
Custódio Almeida é um artista lafonense, mais concretamente da freguesia de Santa Cruz da Trapa, S. Pedro do Sul. Dedicado à arte há já 23 anos, são centenas os trabalhos que protagonizou. Atualmente está desenvolver dois projetos com o mesmo objetivo. Alertar as pessoas para um dos crimes em Portugal que continua a matar em silêncio: A violência doméstica.
A violência doméstica é um crime que continua a matar em Portugal. Ciente disso, Custódio Almeida quis colocar os seus dons em prol desta causa. Como lamenta, “a violência doméstica parece estar na moda, muitas pessoas chegam mesmo a pensar que isto é normal e aceitam”. Perante este cenário o artista, numa tentativa de sensibilizar os cidadãos, pôs, literalmente, mãos à obra e lançou dois projetos, “O homem da máscara de Barro” e “100 sem violência”. Dois projetos distintos o mesmo objetivo, passar uma mensagem: Violência não. A Gazeta da Beira dá a conhecer a obra do artista e a mensagem que quer transmitir.
O homem da máscara de barro está percorrer o país
Tinha a ideia há muito na cabeça, no passado mês de julho tornou o sonho realidade. O objetivo é, em diferentes locais, esculpir no meio de multidões. Esculpir que é o mesmo que contar histórias. Histórias diferentes, tristemente ligadas pela violência doméstica. Em barro ou em mármore, Custódio Almeida faz esculturas de mulheres, “inspiradas em histórias que já ouviu falar”. Mulheres sem rosto que tantas vezes se escondem entre quatro paredes. “Optei por não colocar a identidade, colocá-las sem rosto porque quero que estes trabalhos possam simbolizar todas as mulheres que não dão a cara. Por vezes, com medo das represálias, a mulher esconde-se”. Em toda a obra, o corpo da mulher é o elemento constante. Todas são representações de cenas de violência doméstica. Uma homenagem às vítimas, um alerta para o futuro.
Depois de Lisboa, Tondela e S. Pedro do Sul, o seu último trabalho foi feito em Viseu. Transformar obra-prima em arte, um processo bastante longo na qual o próprio escultor se transforma numa personagem.
Uma grande viagem onde a arte se cruza com a realidade. Durante inúmeras horas que Custódio trabalha a pedra, sempre com uma máscara de barro, também por ele elaborada. “Acabo a escultura completamente exausto, não é fácil para mim estar 3 a 4 horas com a máscara, ainda mais, com o sofrimento que estou a ter na pele, como homem da máscara de barro”. Tudo isto, em prol de uma mensagem. Como explica o artista, a máscara representa “todos os homens que andam na rua e usam uma “máscara” tão bem maquiada que, muitas vezes, não conseguimos identificar quem é o agressor. O agressor pode ser qualquer um que anda na rua, tão bem disfarçado que ninguém o consegue identificar.”
Até agora foram elaboradas quatro esculturas, as duas em mármore, “derivado ao material, aquando da execução estar em contacto direto com o ar quente” não conseguiram ser preservadas. Custódio Almeida tem contudo a ambição de as recriar. O futuro deste trabalho ainda não está decidido, mas há algo que é certo. “Caso venha a vender este trabalho, é óbvio que vou dar uma percentagem ao apoio à vítima isso é certo”.
Custódio Almeida vai continuar a percorrer o país com este trabalho. Uma campanha de sensibilização sem data para acabar. “Não tem dia, nem hora para acabar, este trabalho pode prolongar-se por cinco, dez, quinze anos, infelizmente este é um assunto que estará sempre atual”.
Uma história entre muitas
Cada escultura uma história. A Gazeta da Beira pediu para que Custódio Almeida contasse a história por detrás de uma das esculturas. Escolhemos a que foi elaborada em S. Pedro do Sul, em agosto no Musidanças. “Aqui esculpi uma mulher que depois de vários meses de sofrimentos acabou por abortar”. Mensagens duras transcritas em cada curva. Casos de vida que não deixam de ser reais, mesmo que haja quem prefira ignorar.
100 sem violência prometem mobilizar Portugal
Já em carteira, Custódio Almeida tem já outro projeto que está já a preparar e que quer lançar em 2015. Para isso está a elaborar 100 máscaras de barro, todas originais, o objetivo é que, depois, “sejam usadas por 100 mulheres e que estas desfilem pelas cidades mais importantes do país”.
O artista tem já 60 concluídas e continua o seu trabalho. “Tomara eu tê-las já todas prontas, para poder arrancar com mais esta campanha de sensibilização, mas é um trabalho muito demorado, todas as máscara são originais, as peças são todas trabalhadas uma a uma”.
Para já a iniciativa parece ser bem acolhida há muitas mulheres interessadas em participar. “Há mulheres que me dizem que por esta causa não se importavam de percorrer centenas de quilómetros”.
A ideia em que cada cidade participem mulheres diferentes. Todas com a máscara, todas cobertas com lençóis brancos, todas por uma causa. Os pormenores ainda não estão afinados, mas Custódio pondera fazer várias convocatórias, através do Facebook.
A mensagem por detrás da obra
Mais importante que a obra é a mensagem que Custódio quer passar. Como defende, “o meu principal objetivo é sensibilizar as pessoas sobre uma realidade que existe muitas vezes tão perto de nós, sem que nós nos consigamos aperceber, agora, eu não me importo se as pessoas vêm a pensar bem ou mal do meu trabalho, nunca tive esse preconceito”. Às vezes, contudo, como constata o artista, nem sempre é fácil passar a mensagem. “Muitas pessoas não estão preparadas para entender”, confessa. Falta uma aposta concreta na cultura para cultivar o gosto pela arte.
Ser artista em tempos de crise
O talento de Custódio Almeida não dá para sobreviver. Fá-lo pela necessidade de criar, não para pagar contas. “Viver da arte é um caminho prévio para a morte”, confessa o artista.
Nunca recebeu nenhum apoio público, nem do estado, nem do poder local. “A cultura não é fazer festas e servir porcos no espeto”, critica. Desde sempre foi assim, recorda, nada que o faça parar. Como adianta, “nunca procurei apoios sempre andei com as minhas próprias asas que são longas e ainda batem muito bem”.
O artista só conseguiu desenvolver este projeto graças a alguns mecenas seus amigos. “Tive muitas pessoas a ajudarem, só assim foi possível levar estes projetos para a frente, desde a pedra, ao design à fotografia, as próprias viagens a Lisboa tudo isto sem me cobrarem um único tostão”.
O lema é “com pouco fazer muito”, até porque, a arte é antes de mais uma necessidade. “Há sempre a necessidade de criar, independentemente da saúde e do nível financeiro. Criar, cria-se com qualquer coisa, podemos criar com tudo o que nos tropeça nos pés… os meus trabalhos são todos feitos com pedras que vou encontrando ou que me dão”.
“Não sou artista para ganhar prémios”
Há 23 anos a criar, são muitos e variados os trabalhos. Destaque para o “Grito da Pedra”; e a “Dança das Nuas”. Dois trabalhos que podem ser visitados em Santa Cruz da Trapa, num espaço aprazível em contacto direto com a natureza.
Ao longo da vida Custódio acredita ter feito “centenas de trabalhos” com a única pretensa de criar. “Não sou artista para ganhar prémios ou protagonismo, faço que faço porque tenho mensagens que quero passar e porque gosto muito de criar”.
Casos de violência doméstica têm aumentado em Lafões
A Gazeta da Beira contactou o Destacamento Territorial de Viseu que nos forneceu os dados relativos à violência doméstica nos concelhos de Lafões. Comparando-se os dois anos, verifica-se que em 2014 há 61 casos, um a mais do que em 2013. Analisando concelho a concelho, verificamos um aumento dos casos em Oliveira de Frades e Castro Daire. Contrariamente em S. Pedro Sul e Vouzela verificou-se uma diminuição dos casos.
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2013
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2014
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| CASTRO DAIRE |
10
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11
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| OL. DE FRADES |
13
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22
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| S. P. DO SUL |
17
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13
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| VOUZELA |
20
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15
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Nota: Os dados de 2014 apresentados são até ao mês de agosto. Os de 2013 referem-se a um período homologo.Redação Gazeta da Beira
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