A arte que cria boa disposição

Amigas de longa data lançam projecto em comum

Logo_farrapeirasTrês professoras naturais de Cambra, amigas de longa data, lançaram um projecto em comum. Tudo começou, há poucos meses, no verão passado, quando as três decidiram recriar o património da região em quadros, usando, para isso, farrapos. Um artesanato invulgar que procura conciliar a tradição à modernidade. No passado dia 1 de Dezembro abriram uma loja, no Largo da Palmeira, em Cambra e a Gazeta da Beira foi conhecer a arte e as histórias da Farrapeira.

Graça, Filomena e Glória partilham o mesmo sobrenome: Carvalho, mas, entre estas três amigas que já se conhecem há mais de 30 anos, há muito mais em comum. Todas professoras, todas naturais da freguesia de Cambra, todas com vontade de criar, inventar, divulgar a terra, mas, sobretudo, conviver e partilhar serões, onde a arte nasce intercalada com gargalhadas e muito boa disposição.

A ideia nasceu no verão passado, num dos muitos encontros das três amigas, conversas de café, na esplanada de Cambra em que a vontade de criar algo, a pouco e pouco, foi crescendo, até se realizar. Depois de muitas pesquisas e dissertações, escolheram os farrapos como personagem principal do seu artesanato. Meses depois o entusiasmo continua o mesmo de sempre como conta Graça Carvalho “é muito estimulante, mal acabamos um quadro, queremos logo começar outro”.

Os objetivos traçados pelas três amigas estão a ser claramente cumpridos, até porque, o negócio é um objetivo secundário. Como refere Glória Carvalho, a execução desta arte premi-te às três  professoras, desencantadas com estado actual do ensino em Portugal, “ter um escape, para nos libertarmos do stress, da tensão do dia à dia. Se outra mais valia não houver, ficam os serões que passamos juntas”. Sempre que lhes é possível, as três reúnem, debatem temas, escolhem minuciosamente os tecidos e criam. Como acrescenta Glória Carvalho, “recriamos o serão tradicional, que já se tinha perdido, as pessoas estão cada vez mais individualistas e se juntarem, as ideias vão surgindo”.

A farrapeira e uma arte com identidade

Farrapeira-Cambra_IMG_9385Desde que a Farrapeira foi pensada pela primeira vez, as três professoras tinham uma determinação que norteava este projecto, dar ao artesanato que criavam a identidade de uma terra cheia de potencialidades. O objectivo, como explica Filomena Carvalho, é “transpor para esta técnica o que temos de património geográfico, monumental e cultural”. A região de Lafões é, então, o pano de fundo assente nessa arte que procura colmatar uma falha a nível nacional. Como conta Glória Carvalho, “As pessoas que vem de Lisboa, do Porto, da França, do Luxemburgo… e chegam aqui, ou a outro qualquer ponto do país, e encontram artesanato de muito boa qualidade, mas um pouco incaracterístico, não está directamente relacionado com a localidade. Encontramos Galos de Barcelos de Norte a Sul do país.”

 

 

O artesanato em tempos de apertar o cinto

A necessidade aguça o engenho e é sem grande investimentos que a Farrapeira cria. Pelas contas de Graça Carvalho, “o custo é sobretudo o tempo do trabalho, que é muito, não usamos grandes instrumentos técnicos nem grandes materiais, usamos aquilo que temos à mão”. Até porque, como reforça Glória Carvalho, o artesanato é sobretudo isso, “ saber aproveitar aquilo que temos, recolhermos tecidos que já não usamos e dar-lhe uma nova roupagem, dar-lhe utilidade”. Uma nova vida para os tecidos que, com a criatividade e a minúcia das artesãs, que veem em cada pormenor uma prioridade, se transformam em quadros que refletem o valor do património e a alma das artistas.

A loja, que abriu no passado dia 1 de Dezembro, está aberta aos fins de semana e em pouco tempo, já há quadros vendidos, encomendas e muitos elogios a uma arte que combina na perfeição a tradição e a modernidade. Como relata Graça Carvalho: as pessoas gostam imenso, muitas não compram porque não têm, nesta época como, o dinheiro é muito pouco.” A pensar nisso, as três professoras já tem uma ideia em mente, em breve, os quadros originais vão ser adaptados e reproduzidos em almofadas e t-shirts, uma forma de alargar a arte às pessoas com menos recursos. Como refere Graça Carvalho, “é uma forma das pessoas que não podem levar os quadros, possam levar uma recordação da região”.

A arte das farrapeiras promete continuar , há muitos quadros pensados, muitas ideias no ar. Os serões das três professoras vão continuar a tradição e a serem bastante férteis, na concepção deste artesanato invulgar que, para além de quadros, cria muito boa disposição.

• Patrícia Fernandes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.