A alternativa consensual existe mesmo

Manuel Silva

Desde que tomou posse o actual governo tem afirmado não haver alternativa à sua política de empobrecimento para superar a ameaça de bancarrota. Em nome dessa política, Passos Coelho, Paulo Portas e os seus partidos mostraram grande insensibilidade social e humana jamais vista no nosso país, apenas se interessando por números. Para estes políticos profissionais, criados em laboratório, com fraca formação intelectual e desconhecimento da realidade social de Portugal, as pessoas e as suas dificuldades nada contam.

No entanto, o défice, que deveria estar em 3% no final do ano transacto, regista 5% do PIB. A dívida não parou de aumentar.

No prefácio do seu próximo livro, o Presidente da República afirma que a supervisão externa sobre Portugal  – o protectorado, como diz Paulo Portas – só terminará em 2035, data na qual deverá ter sido devolvida a quantia relativa a 75% do dinheiro emprestado. Mais diz que para nesse mesmo ano a dívida atingir 60% do PIB, máximo permitido pelos acordos europeus, a economia terá de crescer 4%/ano e o saldo orçamental primário ser positivo, na casa dos 3%/ano. Alguém acredita nessa hipótese?

O primeiro-ministro não acredita. Em resposta ao chamado Manifesto dos 70, disse ser a dívida sustentável, desde que controlada. Expressão idêntica foi proferida por José Sócrates há mais de um ano. Para o governo, caiu o Carmo e a Trindade! Passos Coelho apresentou uns números justificativos da sua tese. Em notícia publicada no caderno de Economia do “Expresso”, na sua edição de 15/3/2014, era afirmado que com aqueles números a dívida só equivaleria a 60% do PIB daqui por 145 anos!…

A saida da troika do país no próximo mês de Maio não tem, pois, qualquer significado. Continuaremos sob observação estrangeira com ou sem programa cautelar.

Perante estes factos, é escusado o governo lançar as gerações “dos direitos adquiridos” contra as gerações futuras, pois a crise e o empobrecimento irão prolongar-se por longo prazo e para várias gerações. E, como dizia o economista americano Keynes, “a longo prazo estamos todos mortos”.

A alternativa a esta política existe e está plasmada no Manifesto dos 70. O Presidente da República tem referido a necessidade de um amplo consenso nacional. Aquele documento reúne um consenso que inclui personalidades de esquerda, centro e direita, líderes patronais e sindicais, em torno de políticas que visam a criação e melhor distribuição de riqueza. Tal manifesto propõe a negociação do alargamento do prazo de pagamento da dívida e respectivos juros, para libertar recursos para o investimento público e privado, pondo fim a esta economia que mata, como diz o papa Francisco, criando uma economia nova, como meio de melhorar a vida dos cidadãos e defender o Estado Social.

Há alguns meses, o ex-ministro da economia do actual governo, Álvaro Santos Pereira, disse que a dívida deveria ser paga ao longo de 40 anos. Os seus antigos colegas de governo calaram a “afronta”.

Sobre o perdão de dívidas à Alemanha no pós II guerra mundial, já se pronunciou suficientemente Maria do Carmo Bica num excelente artigo publicado no número anterior de “Gazeta da Beira”.

Na América Latina, nos anos 70, 80 e mesmo 90 do século passado, o peso das dívidas determinou elevadas subidas da inflação, do desemprego, da pobreza e da miséria. Após o reescalonamento e perdão daquelas, a inflação tornou-se baixa,  diminuiu o desemprego, o poder de compra aumentou e em vários países daquela zona do globo surgiram novamente classes médias maioritárias, o que não se verificava há 50 ou mais anos.

O governo Coelho-Portas e os escribas ao seu serviço repudiam, com veemência e mesmo vioência verbal, o Manifesto dos 70, porque se provou haver uma alternativa à sua política destruidora da economia e da vida dos cidadãos, como bom seguidor do neo-liberalismo que se preza de ser.Redação Gazeta da Beira

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