42 anos depois

Mário Pereira

Crónicas do Olheirão

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A constituição da República já fez 40 anos e o 25 de abril 42. É tempo suficiente para deixar e dizer que os problemas do país são consequência da pesada herança do fascismo.

A propósito dos 40 anos da Constituição ouvi e li várias entrevistas de deputados da Assembleia Constituinte e não consegui deixar de ficar surpreendido com a idade de muitos dos proeminentes deputados de então. Marcelo Rebelo de Sousa ou Jerónimos de Sousa tinham 26 e 28 anos.

Nos anos que se seguiram ao 25 de abril aconteceram muitas coisas e uma delas foi a tomada do poder pela geração que então tinha entre os 25 e os 40 anos.

Tivemos então muitos ministros e generais com a idade dos jovens precários de hoje.

Não haveria nenhum problema nisso se essa geração tivesse conseguido deixar à geração seguinte um país melhor do que aquele em que têm vivido, mas a verdade é que o rendimento dos jovens está a cair desde há 20 anos.

Semanas atrás estive com um grupo de professores e fiquei espantado com o facto da larga maioria deles, com idades entre os 35 e 45 anos, estar a trabalhar com vínculos precários. Este é um exemplo de como a malta mais velha, muitos já reformados, usou os mais novos para apoiarem as suas reivindicações mas não cuidou de assegurar a situação destes.

Ser precário 2 ou 3 anos parece-me aceitável, mas precário 20 anos é uma vida perdida.

Fiquei contente por o Ministro Vieira da Silva, no passado dia 16 de abril nas Termas de S. Pedro do Sul, a propósito da sugestão de criar mais creches para aumentar a natalidade, ter respondido que a verdadeira causa da quebra da natalidade é precariedade e não a falta de creches.

A Troika e o anterior governo tinham como solução para os problemas do país o aumento da precariedade, pois é bom que se comece a avaliar o efeito dessas medidas no decréscimo da natalidade.

As políticas dos últimos anos conseguiram reduzir ao número de crianças nascidas em cada ano em quase 20% e obrigaram mais de duzentos mil jovens a emigrar. Se alguém imaginasse um plano para acabar com esta raça, à beira mar plantada, não conseguiria fazer melhor.

A cultura da precariedade está tão instalada que hoje é um achado uma empresa, uma autarquia, um serviço público ou uma entidade do setor social que proponha a um jovem um contrato de trabalho sem termo.

A mão de obra hoje é negociada como as cabeças de gado, toros de madeira, chapas de ferro, parafusos ou qualquer outro produto necessário à produção.

Existem empresas especializadas em fornecer mão de obra, do mesmo modo que há outras especializadas em fornecerem carne aos supermercados e aos talhos.

De acordo com a associação de empresas de trabalho temporário, cujo negócio é fornecer mão de obra de acordo com as encomendas, elas fornecem 800 000 trabalhadores aos seus clientes.

Falando com jovens – à volta dos trinta – assusta-me a sua postura resignada e a sua crença de  que será a geração dos seus pais que vai resolver os seus problemas .

Não sei como – nem tenho que saber – mas gostava de ver os jovens a tomarem as coisas na sua mão e a não se deixarem ir nessa conversa do bom senso.

Quarenta e dois anos depois do 25 e abril é tempo da malta, que já nasceu depois de 1974, tomar o destino deles  e o nosso nas suas mãos.

A geração que tem governado o país e a Europa deve ser substituída, por outra com uma nova visão do mundo.

É certo que há alguns deputados com cerca de 30 anos de idade, mas quando os ouvimos falar não se nota ou pura e simplesmente não falam, limitado-se a ter o devido respeitinho pelos mais velhos.

Há alguns dias um amigo perguntava-me, porque deviam os jovens protestar se têm tudo.

Eu limitei-a dizer que os jovens não precisam de motivo para protestar, mas hoje em Portugal têm bué motivos. Aturar a geração que detém o poder é motivo suficiente para protestar todos os dias.

Agora que começam a Queimas das Fitas gostaria muito de ver os estudantes a beber menos e protestar mais.

Mário Pereira – Abril de 2016Redação Gazeta da Beira

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