Entrevista a Celeste Almeida

Escritora

“Há longos anos, que aprendi, que quanto mais árduo for o caminho que temos para percorrer, mais valorizada será a colheita da nossa sementeira.”

A entrevista que se segue é a uma grande senhora que já, há umas edições atrás, tive o gosto de entrevistar. No entanto, o seu currículo é tão rico e imponente que senti urgente voltar a entrevistar alguém que tanto dá, faz e produz pela região, tradições e cultura. A senhora que se segue chama-se Celeste Almeida, vive em Castro Daire e é oriunda de Mangualde. Foi professora, é escritora e poetisa com uma vasta obra publicada. É uma apaixonada pelas gentes das serras e dá voz àqueles que não têm voz.

Paula Jorge (PJ) – O seu último livro “A Grande Viagem pelas Canadas de Viriato” está a ter uma grande aceitação. Pode falar-nos sobre este seu livro?

Celeste Almeida (CA) – Mais que um privilégio, é uma honra partilhar com a Gazeta da Beira muitos dos meus dias tão cheios de emoções, tão cheios de boas oportunidades, mas também, muito do meu esforço e trabalho que a aceitação da obra “A Grande Viagem Pelas Canadas de Viriato” exige.

Falar deste meu último livro, é falar de alguns anos de dedicação e empenho. É falar de silêncios que passaram a ter voz, graças à prestimosa ajuda que tive vinda de “homens com pau e manta”. Sem a parceria destes Homens, a transumância da Estrela para o Montemuro não seria narrada com este assinalável êxito traduzido, não só pelo número de vendas do livro, mas também pelos convites que me têm feito para fazer palestras sobre esta temática, nos mais diversos espaços.

Posso constatar, que o sucesso deste livro, começou na tarde do dia 26 de junho do ano 2022, aquando do seu lançamento. Foi um dia inigualável, inexcedível, pois tenho a certeza, que este evento, este marco da minha vida, nunca será ultrapassado noutro certame similar, por mim realizado.  Ver o Auditório do Centro Municipal da Cultura de Castro Daire com os lugares sentados todos ocupados e com muita gente de pé, superou todas as minhas expetativas. No entanto, estava longe de pensar que a obra alcançaria este sucesso, tampouco com este impacto tão positivo.   E qual será o segredo? Porque desperta este livro, tanto interesse nos leitores de toda a estratificação social, ou seja, de todos os grupos sociais?

No meu entender e não encontrando outra explicação, o interesse desta obra acontece pelo seu conteúdo.  Ao longo das páginas, narro histórias vivenciadas, narro ações que aconteceram, narro contextos pessoalmente vividos por aqueles que se propuseram a partilhá-los tão detalhadamente comigo.  São relatos contados, são fragmentos de vidas postas a nu de um universo transumante, feitos por pastores que ao longo de décadas tiveram que se deslocar desde o sopé da serra da Estrela até à serra do Montemuro.   Pastores, muitos deles, hoje envelhecidos pelo árduo tempo, deixaram-me a essência desta tradição secular que faz parte da   cultura identitária do povo da região da Beira Alta.

É fundamental, para sabermos de onde viemos, quem somos e para onde vamos, preservar os nossos costumes e as nossas tradições, e o livro “A Grande Viagem pelas Canadas de Viriato” é um livro recheado de memórias e saberes   narrados pela comunidade pastoril, que o tempo nunca irá apagar.

 

PJ – Quais as maiores dificuldades com que se foi deparando enquanto fazia a pesquisa para a concretização deste projeto/livro?

CA – Não foi fácil levar a cabo este projeto literário.   Posso afirmar que este desafio foi uma jornada difícil e morosa, mas ao mesmo tempo muito prazerosa.   Enfrentei a pandemia, percorri longas distâncias, calcorreei montes e vales, apanhei frio, chuva e calor, contudo a recompensa foi enorme e fez-me sentir que todo o esforço valeu a pena.   São as dificuldades da vida, são as pedras que encontramos no nosso caminho que fazem tudo valer a pena. Há longos anos, que aprendi, que quanto mais árduo for o caminho que temos para percorrer, mais valorizada será a colheita da nossa sementeira.

 

PJ – Por outro lado, qual a grande motivação que encontrou para não desistir da concretização do projeto/livro?

CA – Tanta motivação para percorrer “as canadas” dos pastores transumantes. Durante três anos de recolhas feitas nos concelhos do sopé da serra da Estrela, além dos conhecimentos que obtive, valorizei com maior intensidade os sentimentos, as amizades, os sorrisos, os abraços que troquei com as pessoas mais genuínas e puras de coração. Construi relações estáveis, duradouras com a presença constante do respeito e verdade.  Ouvi tristezas, muitas tristezas, sequei algumas lágrimas, fui confidente e guardo segredos de quem, talvez, nunca antes contou as suas mágoas para ninguém.  Sim, também tive momentos de muita alegria!  Cantei, chorei de tanto rir, com as mesmas pessoas que tantas amarguras viveram. Hoje, somos uma família enorme. Continuo a ir ao encontro destas gentes que não têm dias diferentes. Continuo a dar abraços e ter os abraços mais ternos que conheço.

 

PJ – A Celeste Almeida tem uma relação muito estreita com as gentes das serras. Descreva-nos esta proximidade e modo de ser/estar.

CA – Os anos passam, os pastos renovam-se, os rios secam, as nascentes rebentam, os lameiros cobrem-se de flores, mas a rotina dos pastores é levantar de madrugada e seguir a sombra das horas até à noite calada. Sempre o mesmo ritual, sempre os seus rebanhos por companhia.  E eu, continuo a minha “peregrinação” que me dá tranquilidade, serenidade, paz   e amor.

A serra conquistou-me no primeiro dia que a pisei e respirei o cheiro da sua terra.   Apaixonei-me pela serra e suas gentes, no dia em que abri uma mala vermelha de cartão e tirei de dentro o sonho que vivia comigo desde criança. Finalmente, era professora, professora de crianças que nunca souberam o que era ser crianças, filhas de pais que nunca conheceram outra coisa, a não ser o trabalho que os matava por dentro a troco de tão pouco.   São estas gentes que fazem parte do meu mundo, um mundo feito de penedos, onde só elas conseguem plantar flores para colocarem nos altares de fé das suas vidas.  Eu tenho a sorte, de sentir a beleza e o perfume destas flores, porque amo e sou amada pelo Povo da “minha” serra.

 

PJ – Como tem sido recebida, com este seu novo livro, pela região e pelo país?

CA – Voltando ao livro “A Grande Viagem Pelas Canadas de Viriato” tenho tido muitas solicitações, algumas que me surpreenderam imenso. Alguma vez, eu sonhei ser convidada por Universidades para fazer palestras sobre a Transumância? Jamais! A Universidade de Lisboa, a Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Politécnico de Seia, a Escola Agrária de Viseu, superaram todas as minhas perspetivas.   Não menos relevantes, foram os convites para estar presente na Feira do Queijo de Seia, no   Mercado do Queijo de Gouveia, na Escola Secundária de Cinfães, em Associações, na Suíça, mais propriamente, em Genève…  enfim, este meu livro tem-me proporcionado muitas alegrias, tantas que o considero um arco de triunfo nos meus recentes dias.   Por tudo isto, eu curvo-me perante os pastores que me deram a sua sabedoria.   Eles são o sol, são a lua, são as estrelas que dão luz ao sucesso desta minha mais recente obra.

 

PJ – Fale-nos do seu novo projeto que anda aí já a desenhar-se.

CA – Projetos futuros, tenho, sim, porque nunca deixarei de sonhar. Tenho dois livros acabados, mas que permanecem numa pen, pois considero não ser o momento para verem a luz do dia.  Na minha cabeça, reina a certeza de que tudo tem o seu tempo e a sua hora, de que todas as madrugadas acordam cedo e têm um caminho para percorrer. Assim é a minha vida, pelo menos, assim eu a sinto.   Sou uma madrugada e “As Terras da Transumância “são o caminho que tenho para percorrer.  Este é o projeto que iniciei há relativamente pouco tempo. Novamente, a pastorícia a ser “rainha “, mas desta vez, vou conhecer novos pastores e novas terras dos concelhos de Fundão, Gouveia e Seia.  Deus é minha testemunha de como amo estas escolhas que faço, pois só Ele sabe o carinho que eu nutro por estas gentes tão cheias de bondade, dignidade e amor.

 

PJ – Quem é a Celeste Almeida?

CA – Pergunta-me, quem é Celeste Almeida. Celeste Almeida, sozinha, é ninguém, mas com Deus na minha vida e com os Amigos sinceros, sou tudo, sou muito, sou Eu, uma pessoa que reza e fala com Deus e os Santos.  Ao acordar no dia a dia, minhas primeiras palavras são de gratidão.   Agradeço aos Céus o dom da vida e em silêncio digo: Meu Deus, coloco-me nas Tuas mãos.

 

PJ – Que conselhos aqui nos deixa para quem, no mundo das Letras, quer tentar a sua sorte?

CA – A minha experiência diz-me, que para se ter sucesso na escrita, não basta dominar a escrita e ser criativo. Claro que a habilidade de escrever é fundamental para quem quer singrar no mundo das letras, mas para se ter sucesso é preciso muita leitura, muita dedicação, muita concentração e sobretudo, muita humildade.  Uma das regras para o sucesso, é sermos nós próprios. Nunca devemos tentar imitar o estilo dos outros, porque cada pessoa tem os seus interesses, os seus sentimentos, as suas emoções,  ou seja, cada pessoa tem a sua alma.  E, se em algum instante, pensar que não tem capacidade para dar voz às letras, mergulhe nesta citação:

“Duvidar de sua capacidade de escrever é comum. Até Stephen King disse uma vez que era um escritor terrível.”

 

PJ – Há um tema que lhe é muito caro “Ser Professor”. Como vê a situação atual dos professores?

CA – Ser professor, missão tão difícil e apaixonante.  Quando iniciei a minha função de docente, muitos foram os desafios que tive que superar.  Hoje, as adversidades são outras, contudo com um grau maior de dificuldade.  As novas tecnologias mudaram o mundo e mudaram todo o processo escolar.  Os alunos trazem estas ferramentas   nas mãos desde o levantar até ao deitar e constata-se que alguns pais confiam cegamente nesta realidade mediática. Como se embalam hoje as crianças? Quem lhes conta histórias para adormecerem? Onde estão as diversões, como brincar na rua com uma bola, jogar à macaca e ao pião, correr, rasgar as calças, ferir os joelhos… tudo o que as crianças tempos atrás desfrutaram e os ajudou a crescer?

Ser Professor é a profissão mais bela e indispensável na sociedade, no entanto, considero ser uma das profissões menos reconhecidas da atualidade. Menos reconhecida no contexto político, social e económico, fatores que fazem com que os professores se sintam desmotivados e insatisfeitos. É urgente, valorizar esta nobre profissão e tratá-la com a dignidade que merece, porque são os professores a chave principal para o desenvolvimento da sociedade.

 

PJ – Em relação ao tema “Família”, como vê a família na sociedade atual?

CA – Se o professor, como disse anteriormente, tem um papel fundamental na construção da sociedade, a família é o fio condutor de toda essa construção.  É no seio familiar que se adquirem os valores éticos e humanitários. É no seio familiar que se aprofundam os afetos e se criam os laços de solidariedade. É no seio familiar que se aprende a respeitar, a conviver e a partilhar.  No seio de todas as famílias, “deveria surgir a paz, o amor e a união, como suprema virtude dos homens e como humana realização do princípio divino”, pilares de sustentação que levamos para a vida.

Deveria, escrevi eu, porque infelizmente, existem muitas famílias nos tempos que correm, que necessitam pensar e repensar o seu papel na história da sociedade.

Espero ter sido útil na forma como abordei os temas propostos nesta conversa colaborativa. A vida não é fácil, no entanto, devemos sempre procurar o seu lado bom, suas belezas e aprendizados.   É difícil? E quem diz, ser fácil?  Então, tenhamos coragem e façamos   a diferença nas nossas vidas.

Muito obrigada, ao jornal Gazeta da Beira, por esta oportunidade que me fez sentir ainda mais motivada para continuar os meus projetos.

Muito obrigada, Paula Jorge e os meus parabéns pelo rigor e profissionalismo que pões em tudo que fazes.

13/04/2023


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