António Eloy

O Estado não tem alma, nem entranhas, é surdo à piedade*

“As histórias nacionais são invenções. (…) É o nacionalismo que engendra as nações e não o contrário”

David Mountain #Past Mistakes#

“Por “nacionalismo”, em primeiro lugar, entendo o hábito de assumir que humanos podem ser classificados como insetos e que grupos inteiros de milhões ou dezenas de milhões de pessoas podem com segurança ser rotulados como “bons” ou “maus””

George Orwell #Notas sobre o Nacionalismo#

 

1-Recordo com saudade uma grande discussão em Bruxelas com o meu amigo Roberto Cicciomessere, em 1984, era ele então deputado europeu, que durou horas. Ele tinha muito treino, tinha mantido um discurso no Parlamento italiano durante vários dias numa chamado posição de obstrução. A discussão foi sobre o que precedia o Estado ou a nação e já não recordo quem defendia o quê. Julgo que, hoje o tenho por evidente, que a nação é claramente uma invenção do século XIX (todas elas) e que, portanto, o Estado a precede, embora este assuma diversas formas, sendo básico ao sistema de impostos e a autoridade com ele articulada, e claro normalmente um quadro jurídico ou orgânico.

2-Temos vários Estados sem nação nos dias de hoje, ou constituídos por várias nações (estas muitas vezes com  especificidades como línguas e histórias, assim como determinantes socio-culturais, inventados), quase todos os Estados africanos (resultantes de uma arbitrária divisão de impérios coloniais) mas também asiáticos ou até na Europa (em 1918 menos 10% da população ucraniana se reconhecia como tal, a esmagadora maioria tinha-se por russa, menos grega ortodoxa, ou simplesmente identificavam-se como camponeses!).

O Estado surge juntamente com o estabelecimento do primado da produção agrícola sobre outras formas mais avançadas de vida e economia a ela anteriores e passa e regressa a diversos sistemas de obtenção de mais valias, da escravatura ao sistema servil ao, com a acumulação primitiva de capital e o estabelecimento de limites e posse apropriação das terras, ao salariato.

Com a revolução industrial surge a necessidade de uniformização e para essa inventa-se a nação, com o reforço do poder central a conscripção e o sistema educativo, e a uniformização cultural e linguística, e claro o estabelecimento de facto de fronteiras, até aí meramente indicativa.

3-Já aqui referi os mitos e invenções que fazem a nossa história, de Viriato (uma mentira total!) ou Aljubarrota (uma escaramuça numa poça!) ou a chamada Restauração (uma crise no sistema de gestão do Estado), e os heróis, ou personagens do nosso cardápio nacional que nenhum deles quereríamos ter à nossa mesa! Mas poderíamos falar de outras, muitas outras mistificações, das quais e não a menor é a língua em que supostamente nos entendemos (a nossa pátria não é a língua!).

Mas todas, todas as nações tiveram que inventar os seus mitos, baseiam-se em mentiras e falsificações, vitórias exageradas, realizações inflamadas, factos alterados para fazerem a pátria ou adulterados se não a servem.

É claro que não convém contar nada disto às criancinhas poderiam questionar-se sobre a autoridade, e até Deus, Pátria e a Família, mas mesmo aos grandes é problemático, quantos “apostatas” têm sido ameaçados ou mortos, quantas doses maciças de Hegemonia não são destiladas com os discursos dominantes?

Estamos habituados a não pensar, não problematizar, não investigar, não ler nem confrontar os supostos donos da verdade.

Hoje trago, também para terminar, uma citação de uma enorme mulher que quando dei um curso de formação a quadros da élite da sociedade francesa, sem contestação a nomearam personalidade do século, Simone Weil. E podem substituir partido por  pátria, religião, doutrina ou ideologia.

“Salvo raras excepções alguém que entra num partido adopta docilmente a sua atitude de espírito (…) Que é muito mais confortável! A de não pensar. Não há nada tão confortável como não pensar.”

P.S. Ninguém, ninguém mesmo, fala de cessar fogo, de negociações, de paz! Quase ninguém!

* o título é de um político conservador, Georges  Clemenceau

16/03/2023


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