Bem-aventurados os que despem

Notícias de Rompecilha por Carlos Paiva

Bem-aventurados os que despem

• Carlos Paiva

De quantas coisas no mundo a nu se põem, despindo-as do que as envolve, tem o milho o seu quê de sedutor. Não é exagero dizê-lo. Para começar, tem a cor que tem o ouro. Um amarelo profundo, intenso, que é, também ele, uma riqueza – porque o pão, o pão nosso de cada dia, em sentido literal ou figurado, tem origem nesse grão e no trabalho a ele associado. E mesmo quando a espiga nos surpreende, saindo milho-rei, o vermelho que a distingue evoca, de algum modo, a cor do sangue, a cor do vinho, dois elementos que, poderosamente, nos irmanam, a nós, seres humanos.

A cascada (ou desfolhada, segundo outras sentenças) que, de há uns anos a esta parte, se tem vindo a realizar na aldeia de Rompecilha, por iniciativa da ACDR (Associação Cultural e Desportiva da Rompecilha), tem contribuído para que se irmanem não só as gentes da própria aldeia, mas também estas com as vindas de outras aldeias vizinhas (especialmente, por esta ocasião, as de Covelinhas e Mosteirô). O grão é comunhão. E não são só as espigas a serem descascadas: pela força do convívio, há histórias de outros tempos que, despindo-se a memória das vestes do esquecimento, vão, de igual modo, sendo trazidas ao presente. Há conversas, há risos, há música, há cantilenas, há comes & bebes, e assim, unidos em convívio, a nu se vai pondo o que há de melhor na nossa humana natureza.

A cascada da ACDR foi no passado 24 de Setembro, pelas 20h30, e embora o milho não fosse muito, foi muita a vontade de participar e de despir o senhor milho. Palavras de especial gratidão vão para o casal Fátima e Isidro, que para além de cederem o cereal e de terem trazido uns quitutes para adoçar a boca, vieram ainda acompanhados de uma tocadora de concertina que deliciou os presentes. Estende-se ainda o agradecimento ao Restaurante Somos Aldeia, responsável pela confecção das carnes do repasto que sobreveio à desfolhada, e que, altruisticamente, ofereceu também as bebidas. Um bem-haja a todos, mas, particularmente, aos “descascadores”, ou “desfolhadores”, porque, neste mundo, quer queiramos quer não, bem-aventurados os que despem… o milho, claro está!

 

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