Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Nunca mais te darei o tempo puro

Que em dias demorados eu teci

Pois o tempo já não regressa a ti

E assim eu não regresso e não procuro

O deus que sem esperança te pedi.

 

Esta quintilha de Sophia de Mello Breyner Andresen foi publicada em imediata sucessão ao mais famoso poema “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”, no volume Mar Novo de 1958. Tão afim do precedente, no ritmo e na respiração, no tema e até na repetição anafórica desse «nunca mais» lamentoso, sobre o cadáver da Imperatriz filha de D. Manuel, que por vezes tem sido erroneamente acoplado à composição anterior.

Isabel de Portugal por Tiziano, 1548 (Madrid, Museu do Prado)

Pelo contrário, os cinco versos vão ao arrepio dos rebates místicos, magistralmente postos por Sophia na boca desse Grande de Espanha, descendente dos Borgia de Roma e dos reis de Aragão, que se viria a tornar naquele que hoje melhor recordamos como São Francisco de Borja. Que “deus” é esse – um deus com minúscula – que se esconde no «tempo puro», nos dias que se demoram entre um eu e um tu, que se entretece em idas e regressos de alma? Será um amor tão alto e tão desprendido da memória histórica que permanece lenda e se transforma em vocação religiosa? Eis a penúltima estrofe da “Meditação”:

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

A cena passar-se-ia em maio de 1539 quando, depois de uma dezena de dias de agonia seguidos ao parto de um nado morto, Isabel de Portugal, mulher de Carlos V, Rei de Espanha e Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, morre, aos 36 anos incompletos, em Toledo. De La Mancha até ao sul da península, à cidade de Granada, onde se encontrava o soberano, foi incumbido de acompanhar o féretro o Duque de Gandia, então casado com Leonor de Castro Melo e Menezes, dama da Imperatriz, que integrara o séquito vindo com ela de Portugal, 14 anos antes.

Reza a lenda que, antes da tumulação, ao abrir-se o esquife e perante a hórrida imagem da decomposição em que se achava já o corpo de Isabel, Francisco de Borja e Aragão teria jurado «não mais servir Senhor que pudesse morrer». Por isso, sete anos mais tarde, ao enviuvar da nobre portuguesa, terá decidido ingressar na Ordem fundada apenas 6 anos antes por Santo Inácio de Loyola. Eleito Geral da Companhia de Jesus em 1565, tornar-se-ia um grande promotor das missões jesuíticas na América do Sul e, 99 anos depois da sua morte, viria a ser canonizado. Servira, enfim, um Senhor que não morreria nunca: Deus, com maiúscula.

A “Meditação” da poeta portuguesa sobre a derrocada da vida humana nos destroços da morte física, inicia com os versos «Nunca mais / a tua face será pura limpa e viva». Memória mesma de uma beleza desaparecida havia mais de quatro séculos, esta poesia constrói-se na contradição, que é a da Arte ter encontrado o atalho escondido entre o aquém e o além da vida e ter, por isso, cedido à perecível humanidade o seu quinhão de eternidade. Contraprova desta asserção, em diálogo entre códigos estéticos, é o retrato realizado 9 anos depois da morte de Isabel, hoje conservado no Museu do Prado de Madrid, da autoria de Tiziano Vecellio.

Tão eficaz como efetiva representação da Imperatriz, quanto como emblema da arte desse grande pintor veneziano, então em plena maturidade artística, aos quase 60 anos de idade, o imponente quadro aparenta-se com outros “retratos de corte” de Tiziano. A meia figura de Isabel, desenhada a três quartos, está a simbolizar o poder que ela encarna, mais que preocupar-se com uma análise psicológica da personagem. A brancura da pele é exaltada pela riqueza do ambiente, do vestido, das joias – através de um uso magistral da cor. E o olhar do fruidor é relançado através da visão do artista em três direções distintas: a do livro, elemento simbólico, que lhe pende da mão esquerda; a da paisagem que se expande, ao fundo, através do vão da janela aberta; enfim, o do olhar da Soberana, perdido numa distância pensativa, saudoso talvez, já dos confins da Eternidade. Afinal, a sua face conseguia ainda ser «pura limpa e viva» – e para sempre.

Tiziano, que nunca vira ao vivo a Imperatriz, aceitou a encomenda de Carlos V baseando-se num outro retrato, de autoria controversa e qualidade depreciada por fontes contemporâneas, entretanto desaparecido num incêndio no Palácio Real em 1604. Consta, porém, que essa outra figuração estaria muito próxima da real beleza de Isabel e que esse fora o motivo para se mandar fazer, a partir dele, um novo quadro ao grande Maestro, todos aqueles anos volvidos. A obra, num tenso equilíbrio entre zonas contrastantes, de tonalidades de cor quentes e frias atravessadas por uma luz diáfana, dá ao retrato uma aura de religioso silêncio e devoção. Aquele que traria o Soberano, eterno viúvo, suspenso da memória dessa mulher, durante os dezanove anos de vida que lhe sobreviveu, sempre vestido de negro, num perpétuo luto.

Recordada pelas Crónicas como a mulher mais bela de seu tempo, com seus olhos e cabelos claros e a pele muito branca, Isabel de Portugal era uma perfeita Princesa do Renascimento: culta, instruída na doutrina cristã e na cultura clássica e cavaleiresca, possuía uma importante biblioteca. Era, para além disso, rica, levando no contrato nupcial, 900 mil cruzados portugueses como dote. O esposo, quando finalmente a encontrou ao vivo em Sevilha, em março de 1526, identificou-a com a rosa, a murta e o carvalho, símbolos da beleza, do amor e da fecundidade, que lhe viriam a servir de brasão. Dos 5 filhos que lhe sobreviveram havia de nascer, a 21 de maio de 1527, Filipe II de Espanha – o mesmo que haveria de inaugurar, mais tarde, sessenta anos de “união das coroas ibéricas”.

27/01/2022


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