Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré Oliveira
O meu Natal de 1949
O MEU NATAL DE 1949
Tinha eu 20 anos. Idade dos sonhos em que a nossa Vida balança entre o coração e a razão, na busca de um equilíbrio estável. Eu tinha concluído o ensino secundário e procurava rumos futuros. Mas o coração tinha as suas exigências. Dizia Pascal que “O coração tem razões que a razão desconhece”. Mas do meu coração sabia eu as razões: eu tinha uma namorada de quem gostava muito. Tudo começou nas tardes dançantes de fim de semana em casa da Tita Borges (ainda hei-de escrever uma crónica sobre a Tita Borges, que, nos finais dos anos 40, tanta influência teve no grupo juvenil que frequentava a sua casa). Foi aí que nasceu um sentimento que rapidamente passou de simpatia a amor profundo. Ambos o sabíamos sem que a palavra “namoro” fizesse parte do nosso vocabulário. Até que um dia escrevi-lhe uma carta. Eu já sabia qual seria a resposta. E assim começou formalmente um namoro que, como diz o rifão, “antes de o ser já o era”. Antigamente, era assim: o namoro tinha o seu ritual e os seus timings: pedir namoro, pedir autorização aos pais e pedir em casamento. Hoje já ninguém pede nada e o vocabulário é outro. Já não se pede namoro. Começa-se a curtir uma relação e logo se vê!

Cartas de amor também já ninguém escreve. O telemóvel e o computador acabaram com isso. Hoje Cartas de Amor só na famosa canção de Toni de Matos que às vezes vejo e ouço na televisão. E não é por acaso que só na TV Memória. Tudo isto traz ao meu espírito o belo texto de Júlio Dantas, A Ceia dos Cardeais, transposto para os tempos actuais: se perguntassem ao velho cardeal português: “Em que pensa, cardeal?”, ele, hoje, responderia: “Em como era diferente o amor em Portugal!”.
Mas voltemos ao Meu Natal de 1949, quando eu tinha 20 anos. Era o nosso primeiro Natal depois do namoro assumido. Naquele sábado (assim reza o meu calendário perpétuo) 24 de Dezembro, fomos dar um passeio. Passámos pela casa da Tita Borges, a desejar Boas-Festas, e ao fim da tarde, já ao lusco-fusco, separámo-nos, com um beijo à sorrelfa e o tradicional “Feliz Natal”. Ainda lhe disse que, no dia seguinte, lhe ofereceria uma prenda de Natal.
Recolhi a casa. Família reunida, foi a Consoada, nos moldes tradicionais: o bacalhau com batatas e couves da nossa horta, as rabanadas, o pires de leite-creme, o cálice de vinho do Porto, os pinhões, as nozes… tudo ao som da velha telefonia (ainda não havia televisão), música natalícia e o humor de um dos famosos diálogos entre o Zequinha e a Lelé (Vasco Santana e Elvira Velez). Era uma noite especial!
Depois da meia-noite, recolhemos aos nossos quartos. E, enquanto meus pais, minhas irmãs e meu irmão dormiam, eu, sozinho no meu quarto, pensava na minha namorada e poetava. E saiu o soneto PRESENTE DE NATAL que lhe ofereci no dia seguinte. Durante 43 Natais, foi o nosso talismã. Depois, infelizmente, o soneto ficou só comigo. De todas estas recordações — os meus pais, os meus irmãos, a minha mulher — resto eu, a saudade e o soneto, que só há pouco tempo dei a conhecer às minhas filhas.
Hesitei em publicar esta crónica. Acabei por me decidir, porque os mais velhos compreendê-la-ão. Quanto aos jovens, muito provavelmente, nem a lerão.
E vamos ao Soneto:
PRESENTE DE NATAL
É noite de Natal, noite feliz,
Noite de esperança e fé, noite de oferendas;
Fiel ao nosso amor eu também quis.
No sapatinho teu, pôr lindas prendas.
Pensei no que te havia de ofertar,
Nenhuma prenda achei digna de ti;
Nem pérolas brilhantes de encantar,
Nem jóias de safira ou de rubi.
Depois de muito procurar em vão,
Abri as portas do meu coração
E vi que a melhor prenda era afinal
Aquilo que melhor podia dar-te
Dizer-te em verso como é bom amar-te.
É este o meu presente de Natal!
Natal de 1949 (aos 20 anos)
30/12/2021

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