Entrevista a João Cerveira

Escritor

Vivemos tempos em que não basta dizer e repetir A esperança é a última a morrer. Urge fazê-la, edificá-la, concretizá-la, obrigatoriamente, à escala mundial. Responsabilidade minha, sua, dos homens e mulheres.

Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

• Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: João António Martins da Silva Cerveira

Idade: nascido a 3 de fevereiro de 1960

Profissão: Docente

Livro preferido: muitos aqueles que, na verdade, me surpreencantam. Refiro, como exemplos, CAPITÃES DA AREIA, Jorge Amado / 100 ANOS DE SOLIDÃO, Gabriel Garcia Márquez / CUS DE JUDAS, A. Lobo Antunes / DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes / A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, Milan Kundera / LIVRO DO DESASSOSSEGO, Fernando Pessoa / O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO, Mia Couto / ROMANCE DA RAPOSA, Aquilino Ribeiro / O PRÍNCIPEZINHO, A. De Saint-Exupéry / ELOGIO DO SILÊNCIO, Marc de Smedt / A DIVINA COMÉDIA, Dante Alighieri, etc, etc.

Destino de sonho: algures na Terra, em 2060

Personalidade que admira: sem conto, de facto, todas aquelas que admiro. Sublinho, a título exemplificativo, GRETA THUNBERG / ARISTIDES SOUSA MENDES / AGOSTINHO DA SILVA / ANTÓNIO LOBO ANTUNES / SALGUEIRO MAIA / NELSON MANDELA / JORGE MÁRIO BERGOGLIO / DALAI LAMA / RUI NABEIRO / JOÃO GARCIA / MÁRIO VIEGAS / DULCE PONTES / JOÃO DOS SANTOS, etc, etc.

 

Muito obrigada, João Cerveira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio.

Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

João Cerveira (JC) – Nasci e cresci na cidade secular do Lobito, conhecida por sala-de-visitas de Angola. Viria para Viseu, onde frequentei o Liceu, hoje, Escola Secundária Alves Martins. Indeciso entre Arquitetura, Psicologia e Educação, optaria por esta, iniciando estudos na ENEIV, e concluindo-os na UA, Lisboa. Paralelamente, aprofundaria, em particular, estudos da Língua Francesa e na área das Expressões, de que é formador. Por força de visitas várias aos trabalhos arqueológicos no castro da Cárcoda, junto a Carvalhais, avidamente descobriria a Serra da Arada e limítrofes. Enamoramento, paixão, foi o que foi, é o que é. Esta a primeira das razões de haver decidido, em 1984, residir e laborar em São Pedro do Sul. Ora aposentado, rente a quatro décadas ao serviço da prática pedagógica, da Formação de docentes dos concelhos de Lafões, do apoio técnico-pedagógico, e da Direção e gestão de Jardins de infância e escolas de São Pedro do Sul. Co-fundador do Executivo distrital de Viseu, do Sindicato dos Professores da Região Centro, foi seu Dirigente e Delegado enquanto no ativo.

 

PJ – O João Cerveira tem já uma obra feita. Como começou esta paixão pela escrita?

JC O colo, o amor, a atenção e a perseverança permanentes de minha mãe Judite alimentariam em mim, desde miúdo muito miúdo, o gosto pela escrita. Pela escrita, pela leitura, pelo desenho. Pela procura, pelo exercício entranhado, revisto sem canso, pela descoberta, pela redescoberta, pelo curvar de sorrir de prazer e de espanto, da lua presente, confidente, de um sol nascente, de um sol além-horizonte… Ah, e do mar Atlântico, esse tal todo-poderoso que me traria, me sacia sem condição, esse mesmíssimo que me reencaminhará, vigoroso, sereno e companheiro.

Desde a Instrução primária, hoje, 1º ciclo do Ensino básico, ao Ensino liceal, hoje, Ensino secundário, eu tive professores e professoras que, mais do que levarem-me (nos) às estrelas, não, sumariariam incessantes estratégias apaixonadas, apaixonantes, em busca de caminhos até elas. Caminhar, caminhar, caminhando… Grato, portanto, e por tanto, a minha mãe e a esses meus professores, a essas minhas professoras. Abreijos para o sempre.

 

PJ – Pode falar-nos do seu percurso ao nível da escrita, enunciando os seus livros?

JC – Cada letra, seu som, cada letra, seu desenho. Altas, baixinhas, gorduchas, magricelas, esguias e marrecas, fáceis e difíceis, intrigantes, insinuantes, distantes, assim o alfabeto todinho, seis, sete, anitos de catraio, o branco do giz arrepiando (me) adiante, subindo, descendo, ora descendo, ora subi… Sílaba perfazendo palavra, palavrinha parindo frase, frase curta, tiritante, toda-todinha ao negro quadro ali, ai, tão quedo, ai, tão calado, assim o Cristo cruxificado por riba! Estrado acima, estrado abaixo, cada qual e seu parceiro em sua carteira, hoje, mesa e cadeira, livro escancarado à leitura, cadernito alinhado à esquerda e à direita, e o lápis encarnado, ora riscado a amarelo e preto (Viarco, a memória me não atraiçoe.), ah, e a borracha, vulgo safa, sumindo a grafite num esfregar de mão! O erro mais o receio, corrijo. E tive o senhor professor Zéquinha (Quantos não houve, não haverá!) reiterando “não faz mal, continua…, vês como conseguiste!”, vezes tantas ele mesmo safando-me (nos) de “cozer a roupa / coser as couves / a boula de carne / o açado delissioso”… É, o mestre lá sabia, e bem, que o erro leva ao acerto, que o teimar dá em achar, que o saber é ganho, que a conquista é indutora de motivação e prazer. A receita das receitas, arrisco, para as aprendizagens, para o tão necessário desenvolvimento pessoal e social. Vivemos, miúdos e graúdos, inexoravelmente à procura de fontes de prazer, de prazeres. Escrever (Escrevinhandar, gosto mais assim!) é-me prazenteiro, desafiante, provocatório, até! Todavia, raro a caneta me corre adiante. Então, ai, ai, aqui vou eu, na cola, e a magia acontece! Palpito será um dos meus mais elevados estados de ser.

QUEDOS e CALADOS, publicado, em 2010, pela Hm Editora, Porto, inicia de reluzir um tanto do que ora lhe conto, lhe trespasso, de mim. Já agora: escreverá quem de si não seja? Há jeitos, trejeitos, competências, técnicas, estilos, géneros e o mais, e toda a obra é, visceralmente, do(a) obreiro(a). Publicá-la, editá-la, expô-la, é partilha, e é neste propósito que a(s) sua(s) leitura(s) multiplica, multiplicam, ou não, momentos empáticos de descoberta, de conhecimento e de surpreencantamento. Expressão, desenvolvimento da Inteligência sensorial, Arte, Comunicação, pois então! Só, ninguém Vive.

AMOR, AQUI NÃO, SIM?, 2012, Hm Editora, Porto, na senda, volvidos dois anos, de reluzir de dentro de mim, dessas incontáveis  pequeninas gotas de água e de amor perfazendo-me, perfazendo-nos, e ao mar, e aos mares. Amores amarados. Marados, alguns!

ROMENSAIO, 2014, Chiado Editora, Lisboa, me ensaio novo romance, parceira além Tejo, longe, tão lá! Pois, e os toques por tocar, e as mensagens e os mails e as promessas e os acordos e os avanços, todos-todos, à distância de um clique, um só! E o trato e a troca acontecem. Acontecerão? Contrato, pois então. Já agora: e viver, o que é, o que será?

NUM VIROTE, 2016, Chiado Editora, Lisboa, senha de viver: vin-ci-tu-ro. Caminho(s) adiante, desencontra(m)-se, só, quanto(s) se encontra(m). Há andares, valas, valetas, lombas, g(r)avetos, calhaus e outros vastos degraus bastantes ao tropeção e à queda e a consequente(s) desencontro(s). Importante, isso sim, que (No falar dos figurantes principais aqui de roda.) na’ seja nadinha cá connosco, na’ é coisa cá da minha ralação.

TENDA MÃE, 2020, Chiado Editora, Lisboa, nado concebido, indesejado, ansiado, sofrido, parido à força maior de Mulher, de Mãe. De graça Tenda, que nunca vi, nunca escutei, nunca li, por umazinha só vez, que, no Circo, se baleassem, de morte matada, mulheres e crianças; que, no Circo, (se) mandassem à merda, as árvores e os rios e os mares; que, no Circo, (se) violassem corpos e almas… Obra (não) acabada em dezembro de 2019, por apresentar, olhos nos olhos, boca a boca, tocada, abraçada! Consumida em abreijos, gosto tanto de dizê-lo, mais, ainda, de trocá-los! Até breve.

 

PJ – Quais os temas que mais gosta de abordar quando escreve e quais os géneros literários que mais gosta de escrever?

JC – Pergunta tão difícil!… Brincando, jogando, ao que for, assim a criança apreende, cresce e se desenvolve. Digamos que é desejo e necessidade. E por isso, note, por isso ela não precisa que se lhe peça que brinque, que jogue. E porquê? Porque gosta, porque lhe dá prazer, porque só assim crescerá. Comigo, igual, dê em romance, ensaio, conto, crónica, o que for. Raro o dia, a noite, aliás, em que não escreva, em que não escrevinhande. Por vezes, também amuo, também faço birra, também adoeço, também sou privado desse exercício, dessa liberdade maior!

 

PJ – Gosta de ler? Considera importante ler para se escrever bem?

JC Já gostei mais, confesso-lhe. Nestes anos mais chegados, nem as lentes têm obstado. Canso-me rápido. Por vezes, a partida ainda ali, assento ajustado, duas e três vezes, luz a preceito, adrenalina a trepar, pudera, o mundo entre mãos, e, pronto, sinto-me cá tão apertado! Dá-me cá uma raiva!… Ler faz bem. Ler não é fácil. Para lá da descodificação simbólica, implica entendimento. Sucede muito, e por razão diversa, que a Comunicação se não dá. E porquê? Porque a mensagem do autor/emissor não chega, parcial ou integralmente, ao leitor/recetor. Ler requer esforço, treino, muito treino. E é exercitando que a coisa se nos torna fácil, apelativa, gostosa e enriquecedora. Tenho para mim que ler, enquanto ato e proveito disso, potenciará uma escrita mais escorreita, mais organizada, mais limpa, digamos. Não afianço, no entanto, que ler muito e bem, dê, consequentemente, em escrever-se bem. Escrever obedece a regras distintas, a jogos próprios. Escrever bem, então, é custoso, faz transpirar, requer muita autodisciplina, muito querer, doses e doses de procura, de persistência!…

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida, quer ao nível profissional, quer ao nível da escrita. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?

JC Minha avó Célinha, era eu menino, os dois de roda dos nossos trabalhos-de-casa, eram nossos porque os assumíamos, lado a lado, ora retirando dúvidas, ora, invariavelmente, que bem que ora estou daqui a escutá-la, procurando que eu repetisse, logo, logo, a resolução do problema. E eu, resoluto, já está! É, e nunca lho diria, é verdade, Avó, os avós são tão importantes!

 

PJ – Quer falar-nos de algum outro projeto, ao nível de escrita, que esteja para ver a luz do dia?

JC – Está, em boa verdade, por apresentar, mão na mão, olhos nos olhos, TENDA MÃE! As regras impostas e os cuidados devidos, por força da Covide-19, têm-no impedido, nomeadamente, aqui em São Pedro do Sul. E aproveito para daqui agradecer ao município, em particular, à senhora vereadora do pelouro da Educação, todo o entusiasmo e empenhamento depositados na organização física das sessões de lançamento dos meus livros, em especial, aquelas duas, primeiro, no Parque das Nogueiras, depois, no Cine Teatro Jaime Gralheiro, ambas anuladas pela dita força maior.

 

PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?

JC Nova pergunta difícil, complexa. Cultura o que é? rituais, hábitos, tradições, expressões, Língua, linguagens… de um grupo, de um povo, de uma nação? Pois sim, se aí couberem, por exemplo, o jogo da malha mais a patela ou o pião, o Fado, o Vira e a Desgarrada, o Senhor da Pedra, a Senhora da Guia e a de Fátima, o cozido, o escoado mais o rancho, os Jerónimos, os Clérigos ou a Capela dos Ossos, o casario da Pena e o do Piódão, o Solar de Reriz, a Casa da Douro, os Pauliteiros de Miranda … então, atrevo-me a dizer sim, grosso modo, os portugueses reconhecem, apreciam e valorizam o que é seu. Porém, admito, sem custo, que há um trilho longo a percorrer, sinuoso, até, de organização, de sensibilização, de Formação e de Educação, sobretudo. Por outro lado, e o caso muda muito de figura, se Cultura é vista, pensada e propalada, em última análise, por e para dada franja social, profissional ou outra, então, não, a adesão e o proveito disso, espartilham-se, diluem-se, dando em ausência(s)s, em virar-de-costas.

Não entendendo, raramente (nos) entusiasmamos, raramente dizemos Presente.

 

PJ – Para além da escrita, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

JC Conversar, partilhar, descobrir, ir ao mar e à serra, com os meus cães, registar, guardar, lembrar, de roda da família, dos amigos, estudar, semear, fotografar, brincar, comer, representar, desenhar e pintar…

 

JP – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

JC – Impossível.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

JC – Gostaria de, lá para 2060, poder escrever: continuo vivo, bem vivo, na Terra! Até lá, que os sofrimentos e as pobrezas sejam erradicados, de vez! Juro que serei grato, seremos gratos. Mais felizes, por(tanto).

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, João Cerveira! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!

Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

JC – Vivemos tempos em que não basta dizer e repetir A esperança é a última a morrer. Urge fazê-la, edificá-la, concretizá-la, obrigatoriamente, à escala mundial. Responsabilidade minha, sua, dos homens e mulheres. Corremos risco sério, latente e ameaçador de desaparecermos! Mais que urgente, É EMERGENTE unir, ponderar, agir e reclamar por mudanças estruturais de comportamento pessoal e social. Um por todos, e todos por um, combinado? É, e a Terra sobreviverá. Bem-haja pela atenção.

11/11/2021


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