Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Há um espaço de luz que se acende
Quando a voz se ilumina e alcança
Uma estrela na noite acordada
Que desce para um passo de dança
São as vozes abrindo na noite
Os postigos que dão para a praça
Onde o canto acorda a lembrança
Do tempo que passa

Era com estes versos, entoados num crescendo de emoção por Lena d’Água, Helena Vieira e Rita Guerra, que iniciava o inesquecível espetáculo As Canções do Século. Estreado em novembro de 1993 no Casino do Estoril, depois de uma antestreia no Festival RTP da Canção desse mesmo ano, estaria destinado a um imenso sucesso, que cobriu esses anos mágicos de reconstrução nacional, entre 1994, quando Lisboa foi capital europeia da cultura, e 1998, com a Exposição Universal que festejou Vasco da Gama e voltou a pôr Portugal nas rotas do mundo.
A ideia partira Maestro Pedro Osório (1939-2012), que ao cabo de «dez meses de trabalho de uma das mais fascinantes equipas com que me foi dado colaborar ao longo da minha carreira», nas suas palavras, levantou um espetáculo magistral: a história do século XX contada através dos grandes sucessos musicais que lhe serviram de coluna sonora. O sucesso foi de tal ordem que dele, entre 6 e 7 de novembro, se gravou um álbum ao vivo, publicado no ano imediato pela Polygram, e durante os cinco anos seguintes dele se fizeram numerosas performances em tournée por todo o país.
O álbum venceu um disco de prata, com milhares de cópias vendidas, e o espetáculo um lugar de ouro no panorama musical português, pela originalidade da sua conceção geral e pela felicidade dos arranjos que uniram quase 100 anos de hits mundiais – arranjados pelo Maestro, que também dirigiu a orquestra – mas evidentemente também pelas fantásticas interpretações de três cantoras. Provindas de gerações diferentes, com diferentes backgrounds culturais, mas unidas por uma profunda compreensão e respeito mútuos, conseguiram construir mais de uma hora de concerto com absoluta coerência estética e ainda numa grande amizade, várias vezes atestadas por todas as três.
Em diferentes entrevistas e ocasiões, são unânimes a recordar esse como um dos momentos altos das suas carreiras, um espetáculo de que sentem saudades, uma experiência que teriam gostado de repetir, atualizando o repertório, de modo a incluir os quase trinta anos que passaram desde a estreia. É mesmo avançada por Lena d’Água, entrevistada por Eládio Clímaco em maio de 2010, a notícia de que esse projeto já estaria em vias de ser concretizado, mas sobrevindo, entretanto, a morte de Pedro Osório, a ideia parece ter sido posta de parte definitivamente. Arrumado, enfim, entre as boas recordações, a ele se referirá Rita Guerra na autobiografia No meu canto (Leya, 2015).
A cantora lírica do trio é Helena Vieira, que havia deixado a Companhia do Teatro Nacional de São Carlos pouco antes, em 1992, na sequência de um intrincado processo de mudança de direções, o que lhe tinha valido, aliás, um período de dificuldades. A sua vocação lírica, descoberta aos 16 anos, quando integrara o Pequeno Grupo Coral do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, prosseguira ao abandonar Filologia Germânica pelo Conservatório de Lisboa, onde fora aluna de Joana Silva. Durante os verões, frequentava os cursos lecionados pela soprano alemã Elisabeth Grümmer em Lucerna, mestra que voltou a encontrar em Paris, quando aí estudou ao abrigo de uma bolsa de estudo. À sua estreia em 1977, em A Vingança da Cigana, de Leal Moreira, compositor português do século XVIII, seguiram-se grandes sucessos, entre os quais aqueles que recorda como as melhores experiências: a interpretação, em 1985, de Octavian no Der Rosenkavalier de Strauss, e, quatro anos mais tarde, a oportunidade de contracenar com um dos seus ídolos, Plácido Domingo, como Emília no verdiano Otello.
Apenas três anos mais nova, mas vinda de uma experiência diametralmente oposta, eis Lena d’Água, a primogénita do benfiquista José Águas. Aparece em frente do grande público como vocalista dos Beatnicks, banda de Rock Progressivo, que integra de 1976 a 1978. Pouco depois será corista dos Gemini no Festival RTP da Canção (Dai Li Dou, 1978) e integrará como atriz e diretora musical a Oficina de Teatro e Comunicação. Em 1980 é uma das fundadoras de Salada de Frutas, que em maio do ano seguinte lança o single Robot/Armagedom, logo vencedor do 1º lugar do TOP de vendas em Portugal, mas poucos meses volvidos abandona a banda para formar Atlântida, cujo disco Vígaro Cá Vígaro Lá será editado pela Valentim de Carvalho. Seguir-se-ão três álbuns dos quais Lusitânia (1984), ficará famoso pela sua interpretação de Sempre Que o Amor Me Quiser. Já na editora CBS, irá gravar o famoso single Dou-te um doce e alguns álbuns em que se incluem temas de António Variações. Tinha acabado de gravar, em dueto com Paulo de Carvalho, a canção do Vitinho (com que as crianças eram mandadas para a cama, nesse início dos anos 90) quando é convidada por Pedro Osório para As Canções do Século.
Cerca de 10 anos mais nova que as duas companheiras, Rita Guerra tinha em comum com ambas (para além de terem as três nascido em Lisboa) uma vocação precocemente intuída e um ambiente familiar pautado pela presença da música. Frequenta desde os 10 anos a Academia de Amadores de Música e o Instituto Gregoriano, até que parte aos 16 para os Açores, onde o pai fora colocado na Base das Lages; será ali que irá atuar pela primeira vez em público. No regresso à capital começa a cantar em alguns bares e é por graça que é convidada para atuar numa festa da Rádio GEST, onde então trabalhava. Quando pisa, nessa ocasião, o palco do Casino do Estoril, está longe de imaginar que este virá a ser o cenário onde se irá exibir regularmente nos vinte anos seguintes… Em 1990 grava o seu primeiro LP, Pormenores Sem a Mínima Importância, com dois temas de Rui Veloso. É também por esta altura que começa a ser conhecida pelo grande público, através dos programas televisivos de Júlio Isidro em que participa, ganhando o segundo lugar no Festival RTP da Canção de 1992.
Entre os 86 temas interpretados n’As Canções do Século, as cantoras entremeiam o repertório português (do fado e do folclore, à música de intervenção e ao rock) com os grandes sucessos em inglês, francês e italiano, que conseguiram vencer o geográfico periferismo e o crónico isolamento português, para fazer parte da nossa afetividade coletiva. Espetáculo sobre o melhor do passado, sobre aquilo que a memória escolhe recordar consolatoriamente, é saudosista por natureza e direito próprios, e deixou no público, tantos e tantos anos volvidos, uma gostosa saudade.
São as vozes as vozes despertas na noite
A acordarem em tons de luar
Os instantes que deixam lembranças
Em nós a cantar
Nota: este texto foi escrito em saudosa memória da melhor amiga que alguém poderia ter, FILIPA MARIA CORREIA SANTOS (1980-2011), que sabia de cor, da primeira a última, todas as Canções do Século… quantas vezes as cantámos juntos!
28/10/2021

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