COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré Oliveira
AS PROCISSÕES (III e IV)
AS PROCISSÕES
Rua Direita
III
PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS
A PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS, para além de manifestação religiosa, tinha carcterísticas de acto cívico nacional ligado à tradição municipalista. Conta-se que, numa Procissão do Corpo de Deus da Lisboa quinhentista, foi preso Luís de Camões. Dada a escassez de fontes históricas sobre a vida do Poeta, não sabemos se esse facto foi real ou se faz parte do imaginário popular. A cinematografia explorou este episódio que ganhou foros de real, se é que o não foi mesmo. Certo é que, para mim, à Procissão do Corpo de Deus ficou sempre ligada a ideia da prisão de Camões.
São Pedro do Sul não fugia à tradição. Todos os anos se realizava a Procissão, com pompa e solenidade. As minhas reminiscências levam-me a finais dos anos 30. Frequentava eu a Escola Primária. Naquele dia não havia aulas. Era dia santo e feriado nacional. O meu avô levava-me a vir a procissão. Gostava de ver, sobretudo os anjinhos e o Senhor Vigário — eu já lidava com ele na catequese — alto e solene, debaixo daquela cobertura sustentada por varas empunhadas por vários homens. Só mais tarde vim a saber que se chamava o Pálio.
Depois, fui estudar para Viseu como aluno interno no Colégio da Via Sacra. Íamos ver passar a procissão ao Rossio e comecei a compreender melhor o significado simultaneamente religioso e cívico da Procissão do Corpo de Deus, nomeadamente a sua relação com o municipalismo. Nela ia integrada toda a edilidade viseense com a bandeira do Município.
Acabado o curso liceal, voltei às procissões da minha terra. Da parte da manhã, era a Missa solene. No coro da Igreja, como de costume em dias grandes, o Grupo Coral Sacro. No altar, o Cónego Isidro proferia a sua brilhante homilia. A meio da tarde, saía da Igreja Matriz a Procissão. Descia a pequena rampa em direcção à estrada, contornava o Adro, frente ao Café Edgard e seguia, Rua Serpa Pinto acima, entre colgaduras vistosas nas janelas e sacadas. A Procissão tinha os moldes habituais, com uma diferença que a tomava única: a presença da edilidade.
A abrir, a Cruz com o Cristo supliciado, alçada ao alto por um irmão do Santíssimo, ladeada pelas duas irmandades; no meio, os tradicionais anjinhos na maioria “fabricados” pela Liberata que lá estava na varanda do Clube, extasiada, a vê-los passar; sob o Pálio, o Cónego Isidro com paramentos de gala, erguendo a Custódia com a Hóstia Consagrada; ao lado, o Mário Batata, oscilando o turíbulo como um pêndulo; às varas do Pálio, as pessoas gradas da terra: o primeiro turno era geralmente constituído pelo Marquês de Reriz, Barão de Palme, Visconde, Magistrados e Dr. José Augusto (o Pedra Azul); tudo homens, à boa maneira discriminatória da época, com a desculpa de que as mulheres não tinham pulso para isso; atrás do Pálio, o Cabral, todo ancho, com a Bandeira do Município e a Edilidade: o Dr. Sales Loureiro, Presidente da Câmara, e toda a Vereação: o Prof. Manuel Tavares (por Carvalhais), João Fernandes Cruz (por Sul), Armando Soares (pela Vila) e Arnaldo Lino (por Várzea/Termas); seguia-se a Filarmónica Harmonia, dirigida pelo meu tio António Nazaré; por último, a multidão dos fiéis, com predomínio das mulheres e as beatas a rezarem o terço, misturando padre-nossos e avé Marias com os acorde da Banda. Lá entendiam que Deus ouviria melhor a sua conversa com Ele se fosse acompanhada de música. E, ao ritmo compassado da marcha tocada pela Filarmónica, a Procissão lá seguia rua acima até à Igreja do Convento, de visita à Imaculada Conceição, que ali se venera. Após uma curta cerimónia com uma oração de apelo à Virgem, prosseguia, Rua Direita abaixo, e recolhia à Igreja Matriz, onde se procedia à Bênção do Santíssimo.
O Cónego Isidro introduziu na Procissão do Corpo de Deus algumas alterações que, depois, se estenderam a outras procissões. Uma das alterações foi chamar às varas do Pálio os jovens católicos. Mas só rapazes! Era ainda cedo para se ir mais longe! Fiz parte do primeiro grupo, juntamente com o João Paiva, o Custódio Rodrigues e outros. Não vou dizer que, no início, não sentimos uma certa vaidade na alternância com as gerações mais velhas, que, aliás, receberam muito bem a renovação juvenil.
IV
A PROCISSÃO DE SANTA EUFÉMIA
A CAPELA DE SANTA EUFÉMIA situa-se em Arcozelo, povoação pertencente à freguesia de São Pedro do Sul. Em 1635, esta povoação entrou na História, com o célebre “Levantamento Popular de Arcozelo”, contra Espanhóis, que então dominavam Portugal.
Mas deixemos este assunto — que já aqui tratei — e vamos à Santa Eufémia e à sua festa que se celebrava em meados de Setembro, com a tradicional procissão que, ao começo da manhã saía da Igreja Matriz para onde o andor com a imagem da Santa tinha sido levado na véspera. O percurso era longo, todo fora das ruas da Vila, pela estrada nacional que mantinha o trânsito nos dois sentidos e constantemente esfrangalhava a procissão, sobretudo quando os automóveis se cruzavam. Da Igreja Matriz, seguia em direcção ao bairro da Ponte, atravessava os rios Sul e Vouga, respectivamente através da Ponte Velha e da Ponte Nova; estrada acima frente ao Campo da Pedreira, flectia à esquerda junto ao Mirante, mais um pedaço de estrada até à placa que, à esquerda, indicava ARCOZELO e subia a rampa que levava a um largo onde ficava a capela.
Esta procissão tinha uma particularidade: era a PROCISSÃO DAS FOGAÇAS, grandes bolos confeccionados em altura, às vezes em forma de pirâmide ou de cone, ornamentados com fitas de várias cores, transportados em açafates ou bandejas à cabeça de mulheres — as fogaceiras. As fogaças eram oferecidas à Santa, para serem leiloadas depois da Missa, onde não faltava o Sermão em que a vida e as virtudes da Santa Eufémia eram narradas ao pormenor. O leilão das fogaças, feito num palanque pelos mordomos, era parte mais significativa da festa. E não faltava foguetório e música.
Só uma vez participei nesta procissão que era muito longa e maçadora. E devo confessar que não o fiz por motivos de fé, mas por curiosidade e sobretudo à maneira de passeio com a minha namorada. E, como nós, outros pares de jovens. Ficávamos na cauda da procissão; longe das beatas que olhavam para nós de esguelha.
Depois do leilão das fogaças, que tinha o seu interesse, iniciávamos o regresso, agora por um caminho mais curto: calcorreávamos as lajes da velha estrada romana que vinha até á Ponte Nova, mais um pouco e estávamos em casa. E a gente de Arcozelo lá ficava a curtir a sua festa e venerar a sua Santa!
Continua
14/10/2021

Comentários recentes