José Lopes e Silva

O ‘gritarrista’ que voou de Lafões para a Bienal de Veneza

Caricatura de José Lopes e Silva por Paulo Quintela

Texto de Inês Ramos

Era um homem empático e gentil que “me ofereceu a primeira guitarra quando comecei a estudar música. Na altura, eu tinha 12 anos e o tio Zeca experimentou várias guitarras para me dar uma. Escolheu uma de um fabricante espanhol de guitarras [artesanais] chamado Prudencio Saez, de Valência”, recorda João Afonso Santos, neto de uma das irmãs do compositor José Lopes e Silva que gostava de se apresentar como manipulador de sons e ‘gritarrista’ – de sentir o gritar da guitarra.

Tal como João Afonso, a autora deste texto também é sobrinha neta do compositor José Lopes e Silva. E também recorda o tio que em parceria com o cineasta Ernesto de Sousa e a soprano Maria João Serrão realizou a leitura «musical-vídeo» das obras dos artistas plásticos portugueses que representaram Portugal na Bienal de Veneza, em 1980, como um homem gentil e fora da caixa. Estas características também foram destacadas por alunos e colegas, mas nunca o tolheram na descoberta de novos caminhos musicais que fazem com que seja recordado como “pioneiro da música contemporânea no nosso país”, como se lê na nota publicada do site da Presidência da República a 25 de janeiro de 2019, dia em que partiu, depois de um inesperado agravamento do seu estado de saúde.

“Encontrei o Zeca e a complexidade dos seus sons depois de ter visionado as gravações não editadas do documentário de Paulo Lemos Quintela”, diz a Manuela Goucha Soares que – por ser minha prima e do João Afonso – conviveu com o Zeca: “A gravação em vídeo do Paulo Quintela merece ser editada. É um testemunho que transmite a plasticidade vanguardista do compositor ao mesmo tempo que o mergulha nos sons e nos cheiros da quinta onde cresceu, como se os pássaros, as abelhas e o som do vento nas ramagens fossem a orquestra que ele dirigiu em criança e o acompanhou vida fora”.

 

Espólio doado à Biblioteca Nacional

 

“Para mim, era uma espécie de menino Jesus que nasceu no dia de Natal do ano anterior àquele em que foi registado e que é a sua data oficial de nascimento. Naquela altura era assim, a data do registo nem sempre coincidia com a data do nascimento”, recorda a irmã Maria Ludovina, 94 anos, avó de João Afonso: “Ajudei a criar este meu irmão que tinha quase menos 10 anos do que eu e tentei estar sempre presente quando ele precisou de mim. Éramos 12, seis raparigas e seis rapazes. O Élio era o mais velho, depois nasceu a Alda, a Teresa que ainda foi professora primária nas Benfeitas, em Macieira do Sul e no Candal, depois o Baudilío que é o mais velho dos cinco que estamos vivos, depois o Maximino que morreu com 29 anos, o Quim que morreu com 35, em Belém do Pará, no Brasil. O Quim tinha ido ter com o meu avô, pai da minha mãe, ao Brasil e morreu ainda novo”.

“Esse meu avô chamava-se Maximino Lopes Ferreira, era da Lavandeira, mas viveu grande parte da vida no Brasil. Acabou por constituir uma segunda família lá porque a minha avó, que se chamava Maria Ludovina como eu, nunca quis ir ter com ele. Voltando aos meus pais e irmãos, a minha mãe nasceu em 1900 e chamava-se Maria Augusta. O meu pai chamava-se Manuel de Oliveira e Silva e sobreviveu à minha mãe, gostava de fazer caminhadas a pé. Eu fui a sétima a nascer, em março de 1927. Depois veio a minha irmã Manuela que está no Canadá e o Fernando que vive em Santa Cruz de Vila Chã. Os meus pais tiveram estes primeiros nove filhos em Antelas. A Quina que trabalhou em investigação na área farmacêutica, o Zeca e a Lena que é a mais nova e vive no Algarve já nasceram na Quinta do Calvel”.

O Zeca partiu de forma relativamente inesperada há dois anos. Não tinha filhos e a família decidiu doar o espólio das suas obras à Biblioteca Nacional: “Fomos contactados pela Universidade Nova de Lisboa que tem neste momento boa parte da sua obra para tratar e digitalizar, de forma a ficar disponível para estudantes de mestrado. O processo já deveria estar concluído mas atrasou com a pandemia”, conta Teresa Azevedo, uma das sobrinhas de José Lopes e Silva que acompanhou este processo: “Queremos entregar a obra dele, tudo o que está relacionado com a ligação dele ao grupo de Música Contemporânea, e ao estudo da guitarra clássica no Escola de Música do Conservatório Nacional”. A biblioteca musical dele e alguns instrumentos foram doados à Escola de Música do Conservatório de Castelo Branco.

 

Município quer homenagear músico e compositor nascido em Lafões

• Texto de Luís Pinheiro de Almeida com Inês Ramos

A Câmara Municipal de Oliveira de Frades está a preparar uma homenagem ao violista, professor e compositor José António Lopes e Silva nascido a 15 de Fevereiro de 1937 (há 84 anos) e falecido em Lisboa a 24 de Janeiro de 2019.

Quando Lopes e Silva faleceu, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa publicou no site oficial de Belém uma nota de lamento, considerando-o um dos mais destacados ativistas da música nova, com obras instrumentais, vocais e electroacústicas felizmente preservadas em diversas gravações.

Pioneiro da Música Contemporânea em Portugal, José Lopes e Silva nasceu na Quinta de Calvel, freguesia de Pinheiro, e estudou viola com o pedagogo catalão Emilio Pujol no Conservatório Nacional de Lisboa nos anos 40/50 do século XX. Foi também discípulo de Fernanda Chichorro e no início da década de 60 frequentou os cursos de Andrés Segovia, em Santiago de Compostela.

Fixou-se no Brasil em 1962, onde fez carreira no violão, foi responsável pela Escola de Isaías Sávio e ensinou no Conservatório de São Paulo. Era conhecido como “Professor Lopes, o português.”

Regressou no início da década de 70 a Portugal, dedicando-se ao estudo da música contemporânea e das novas correntes musicais, com Jorge Peixinho, Álvaro Salazar, Luís de Pablo e Filipe Pires, completando a sua formação em Darmstadt (Alemanha), em 1976, com cursos sobre música antiga e contemporânea orientados por compositores como Ligeti, Kagel e Cristóbal Halfter.

Em 1973, era professor no Conser-vatório, onde leccionou até ao ano 2000. Com Clotilde Rosa, Maria João Serrão e Carlos Franco Integrou o Grupo de Música Contemporânea, fundado por Jorge Peixinho. Com Clotilde Rosa, Maria João Serrão e Carlos Franco, fundou o quarteto Quadrifonia que estreou em Portugal obras como as “Folksongs”, de Igor Stravinsky.

Entre as obras de Lopes e Silva destacam-se “Tensão e Distensão” (1972), “Epígono” (1978), “Submemória” (1981), “Nocturnal” (1984), “Silhueta” (1988), “No Jardim das Delícias” (1991) e “Canticum Joviale” (1993).

As obras encontram-se parcialmente editadas em disco na colecção Discoteca Básica Nacional da PortugalSom (1995).

A sua obra oscila entre o carácter intimista e uma forte componente cénica que utiliza jogos de luzes e elementos extramusicais, como bolas em ricochete sobre os instrumentos de percussão (Catarina Latino, “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, 2010).

Numa entrevista ao blogue “Glosas”, em 2012, José Lopes e Silva confessou que o seu gosto pela música apareceu com os pássaros no Calvel, na região de Lafões.

Por todo o lado havia animais: patos, galinhas, pintassilgos, rouxinóis, cucos, rolas, vinte e quatro horas por dia, em todas as estações, quer eu quisesse, quer não. Nasci no meio disso tudo (…) à noite era outra sinfonia com os grilos, as corujas, mochos, cães e as vacas com fome e com sede. Havia sempre som à minha volta, cânticos de toda a espécie: o vento, a chuva, as trovoadas de Maio. A minha educação musical era a água, a luz, o som.

Quanto à guitarra, Lopes e Silva disse que ela entrou na sua vida aos 14 anos, quando foi trabalhar para Lisboa na leitaria “A Baronesa” – no Largo do Conde Barão – propriedade do seu irmão mais velho, Élio, e da sua cunhada Rosa.

O compositor chegou a ser sócio minoritário do irmão neste pequeno negócio tão típico da cidade de Lisboa nesses tempos: havia lá muitos clientes que gostavam muito de fado e de cantar. E iam para o escritório tocar e cantar. O José Nunes, o Castro Bota. Eu comecei também a ir e comecei por aí.

Fonte municipal disse à Gazeta da Beira que 2021 poderá ser, finalmente, o ano de homenagem a esta figura da terra, que está sepultada no cemitério de Arcozelo das Maias. Este tributo póstumo tem sido atrasado  também pela pandemia e poderá incluir um concerto com obras do compositor, estando a ser pensada a atribuição do seu nome a um arruamento da vila, só agora possível. <

 

Uma parte de mim partiu com ele

• Texto de Luísa Amaro*

Luísa Amaro

Pela sua mão aprendi guitarra clássica, aprendi a interpretar, a desconstruir para depois construir uma obra musical. Nunca nos obrigava a trabalhar, mas fazia-nos ver as consequências da preguiça ou da desatenção. Desconstruía a obra musical que estávamos a estudar para nos “incentivar” a criar, a sermos nós e não meros robots que repetem o que lhes ensinam; aliás, tinha horror a uma partitura “papagueada”. Antes de uma prova musical, levava-nos a um café que havia ali perto do Conservatório para que conseguíssemos descomprimir e ria-se do nosso sentido do dever!

Para ele, era mais importante estruturar um aluno para ser um Músico (aquele que ama a música) do que preparar um aluno para ser um virtuoso de velocidade estonteante.

Com alunos incluindo Luisa Amaro

Sobretudo ensinou-nos a ASSUMIR o que fazíamos quando nos queixávamos de uma crítica mais injusta. Já sofri com algumas dessas críticas que mais não são do que invejas encapotadas e vem-me sempre à memória as suas palavras sábias: “bem sabes no que te meteste, agora aguenta-te, ou pensavas que ia ser fácil??” (e ria-se…) “Salvaram-me” muitos destes seus ensinamentos que mais pareciam frases sem sentido mas que por isso mesmo faziam TODO O SENTIDO! Devo-lhe muito, tanto que nem sei!

Foi um excelente pedagogo, desconcertantemente louco e sempre solidário. Felizmente que lhe prestei a minha mais modesta homenagem no meu CD “Mar Magalhães”. Ele soube-o e sei que ficou satisfeito. Uma parte de mim, a miúda que entrou na aula de guitarra bem novinha, partiu com ele. Há professores excelentes, mas depois há os Mestres. Para mim foi um Mestre porque um Mestre abre-nos caminhos para sermos livres.

Deixa-me saudades e muito muito respeito pela sua obra musical e pedagógica. <

*Música

 

O Artista e o Amigo

Com Maria João Serrão

• Texto de Maria João Serrão*

José Lopes e Silva é um compositor e um guitarrista português de reconhecido mérito cuja biografia está disponível na Internet e, por esse facto, dispenso-me neste curto testemunho de os referir na sua ampla dimensão e fixar-me nas memórias que me deixou através do nosso convívio profissional e da grande amizade que nos acompanhou durante um largo período da sua vida. Conhecemo-nos no Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, 1978 onde executámos, em Portugal e no estrangeiro, várias obras de sua autoria – Cânticos Noturnos (1980), A Voz (1981) que me foi dedicada com estreia no Festival Gulbenkian de Música Contemporânea, ao vivo gravada em simultâneo, e de outros compositores da sua preferência – Hosrt Hornung O Dream, o Dreaming (1980), voz e guitarra; Clotilde Rosa, 3 Canções Breves que nos foram dedicadas; B.Britten, Songs from the Chinese; Lopes Graça Dois Romances Tradicionais Portugueses, e ainda de Frederico de Freitas, M.Giuliani, John Dowland, Castelnuovo Tedesco, Manuel de Falla, Tomas Marco, Ruiz Pipó, entre outros.

Participámos igualmente durante vários anos seguidos no Festival de Verão de Lagos no Algarve, dirigindo workshops de canto e guitarra e apresentando sempre o nosso Duo num concerto final; simultaneamente, fazíamos uma leitura musical na Galeria de Arte de Lagos inspirada nos quadros da exposição plástica do momento. Foi nesta área da Improvisação que José Lopes e Silva desenvolveu inúmeras prestações em espaços mais ou menos tradicionais. Porém, parece-me uma das mais relevantes na área da Improvisação, as leituras musicais de voz e vários instrumentos gravadas em vídeo que realizámos os dois em colaboração da Exposição de obras dos artistas plásticos portugueses, tais como, Melo e Castro, Ana Hatherly, Almada Negreiros, António Sena, música criada em colaboração entre mim e o Lopes e Silva, a convite do artista plástico e curador Ernesto de Sousa, projetadas durante a Exposição de Artes Visuais da Bienal de Veneza de 1980.

Com os 5 dos 11 irmãos, Élio, Teresa, Baudílio, Bina, Zeca e Lena na década de 90

Os convívios com Lopes e Silva transportavam-me sempre para áreas de pensamento filosófico, que era o seu, tanto quando comentava os temas e/ou as formas das suas criações em preparação como nas suas análises acerca de músicas recentes ou ainda como quando abordava episódios da vida real. Estas reflexões ajudavam a encontrar o espírito das suas composições e dos desenhos que acompanhavam os poemas que escrevia em forma de partituras.

Termino realçando outra das suas vocações, as da pedagogia da música em que sempre foi tão apreciado pelos seus alunos no Conservatório Nacional de Lisboa e noutras Academias; uma das provas deste talento foi o seu desejo de criarmos com Clotilde Rosa e Carlos Franco um quarteto com Voz, Flauta, Harpa e Guitarra a que chamámos inicialmente de Música Nova e mais tarde de Quadrifonia o qual se destinava a dar a conhecer música mais atual de então. Porém cedo o Quadrifonia dedicou-se também a introduzir algumas dessas obras em concertos para crianças, executando-as após explicações breves atraindo o interesse e a concentração dos jovens ouvintes.

Só isto, sem dúvida, não justifica a amizade que nos unia, cada um preocupando-se com o bem-estar e o reconhecimento do outro; e, no presente, um sentimento de estima e admiração da minha parte que perdura, apesar da sua lamentável ausência. <

*Cantora de Música Clássica e Contemporânea – Investigadora Integrada no CESEM da UNL (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa)

 

“É a loucura saudável amigo Carvalhinho!”

• Texto de Miguel Carvalhinho*

A viagem que empreendo, na nave espacial das memórias, leva-me aos anos oitenta do século passado onde faço uma breve paragem no Conservatório Regional de Castelo Branco. Empenhado em descobrir se seria capaz de algum dia ser músico; um ser diferente, enigmático, simultaneamente extrovertido e introvertido, chocante, provocador, capaz de emocionar uma plateia com o som de um instrumento; passava os dias no conservatório a estudar guitarra clássica. Observava, sempre com uma admiração incontida, todas as personalidades que pudessem refletir a centelha divina que, no meu jovem entendimento, caracterizava os Músicos.

Com Miguel Carvalhinho

Um certo dia, cuja data não recordo, houve um concerto de música contemporânea no Conservatório pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa. Os Músicos que durante essa tarde iluminaram a escadaria e o salão do Conservatório, onde realizariam o concerto noturno, eram, ao meu embevecido e curioso olhar, personagens divinas.

Lembro-me particularmente de dois destes seres Extraterrestres: O maestro e compositor Jorge Peixinho e o guitarrista José Lopes e Silva. Espiei-os durante o ensaio da tarde e o concerto da noite, recolhendo informações sobre tudo o que me parecia digno da tal diferença que me fazia sonhar…

Sendo o Tempo uma abstração em que as circunstâncias da vida determinam se ele passa mais depressa ou devagar… dou por mim músico profissional e professor no Instituto Politécnico de Castelo Branco.

Cruzei-me então com o Luís Malha Valente, quando estudou comigo na Escola Superior de Artes Aplicadas, e voltei a encontrar o Professor Lopes e Silva. Primeiro pelas inúmeras conversas em que o Luís falava do seu Querido Amigo – “Que tinha tido um período difícil de recolhimento depressivo mas que estava melhor e com vontade de voltar à sua música…”. Depois numa conversa telefónica e num ousado convite para vir à nossa Escola.

Os meus alunos ficaram entusiasmados e, curiosos mas a medo, perguntavam sobre a história e os protagonistas da guitarra do século vinte. O enciclopédico Lopes e Silva, com uma memória recheada de factos vividos na primeira pessoa, saciava curiosidades, desvendava mistérios e falava de uma entrega à arte e à música como se de oxigénio se tratasse. A sua história de vida misturava-se com eventos importantes da história contemporânea da música. Ao ouvi-lo tornávamo-nos íntimos do Isaías Sávio. A sua viagem épica montando uma Vespa em direção a Santiago de Compostela para ter aulas com Andres Segovia, era também nossa e podíamos repeti-la, na terceira pessoa, com um entusiasmo semelhante. Trouxe até nós o magnífico Carlos Barbosa Lima. Também ele uma personagem mítica do instrumento que nos apaixona e pudemos confirmar narrativas e ouvir a Guitarra Antiga e Imortal do Lorca num concerto memorável…

Foi Júri de exames, concertista e conferencista na minha escola e eu, que já tinha aprendido tanto desde o encontro no Conservatório de Castelo Branco, passei a ser seu amigo na partilha do que ainda tínhamos que aprender…

Um dia de manhã recebemos a notícia triste: O Lopes morreu!

Como pode morrer quem não acredita na morte?

Eu e o Luís Malha Valente no Ninho do Açor, em choque, tentávamos já ressuscitar o seu espírito e homenageá-lo para que a dor presente fosse diluída nos gestos futuros!

Só a morte inesperada de um jovem sobrinho meu, o António Maria, impediu a homenagem que estava sendo preparada pelo Conservatório Regional de Castelo Branco e a Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco, com uma obra composta pelo Paulo Vaz de Carvalho. A pandemia do Covid 19 encarregou-se de adiar este evento “sine die”!

“É a loucura saudável amigo Carvalhinho!”. Terminávamos assim conversas intermináveis ao telemóvel!

*Gritarrista [como dizia o Mestre] e professor de Guitarra Clássica na Escola Superior de  Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco

 

Carta de gratidão ao Professor que me iria marcar para sempre

Com Israel Costa Pereira

• Texto de Israel Costa Pereira*

A minha vida mudou quando conheci este Senhor. Estávamos em 1992, acabara eu de entrar no Conservatório Nacional de Lisboa. Recordo-me como se fosse hoje a minha primeira aula com o Mestre Lopes e Silva, acho que reproduziria na íntegra o conteúdo, quanto ao sentimento das suas palavras, esse senti-o no primeiro instante: pura e inata paixão pela arte. Achei que tinha de me esforçar a sério para merecer um pedagogo culturalmente tão elevado. Assim que terminou a lição número um não duvidei por um segundo sequer que era aquele o Professor que me iria marcar para sempre, com ele tive o privilégio de poder absorver a sua sapiência durante nove anos e a única vez que ouvi alguma frase ou palavra sua mais descontrolada foi um “bravo”. Não poupava elogios quando os alunos trabalhavam. Foi um início de uma linda amizade que durou até sua partida. Quanto ao impagável conhecimento que me transmitiu, esse, irá morrer comigo.

A sua paixão pela música e pelo ensino era de tal forma magnânima que raramente me dizia para trabalhar mais na semana seguinte. Não precisava, quanto mais soubesse mais ele me ensinava. Desculpem; transmitia. “Eu nunca te ensinei nada, apenas te dava várias possibilidades, depois escolhias a mais adequada para ti” – reiterava o Mestre invariavelmente nas nossas conversas. Apenas genial!

O Mestre Lopes e Silva elevou o seu (nosso) instrumento em Portugal, colocou-o no patamar erudito quando na década de 70 pouco ainda servia senão para acompanhar uns fados e umas canções. Quem diria poder ver este instrumento a tocar ao lado do incrível compositor Jorge Peixinho no Grupo de Música Contemporânea de Lisboa. Foi ele o responsável pela criação da Classe de viola dedilhada em 1970 no E.M.C.Nacional.

As nossas longas e interessantes presentes conversas telefónicas  permanecem na minha memória.

Mestre, por sua causa tenho uma profissão que exerço com enorme paixão e sobretudo sei que é o responsável por tentar todos os dias ser uma pessoa melhor.

Obrigado por tudo, amigo e Mestre Lopes e Silva. <

*Músico / Professor de Guitarra Clássica

 

Fotos cedidas pela família, amigos, e antigos alunos de José Lopes e Silva, e retiradas do site:

https://joselopesesilva.wixsite.com/joselopesesilva

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