COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por Nazaré Oliveira

O LENTEIRO DO RIO (II)

O LENTEIRO DO RIO (II)

Na minha crónica anterior, escrevi que a tradicional festa de São Bartolomeu, nos finais dos anos 40 do século passado, pelo menos no que respeita ao arraial, se deslocou para o Lenteiro do Rio, que tinha melhores condições do que a calçada da Feira Velha. A descrição que fiz do ano de 1948 pode servir de modelo, mais coisa menos coisa, para outros anos, com excepção do ano de 1953 que se revestiu de características diferentes e especiais.

Domingo, 23 de Agosto de 1953. Véspera de São Bartolomeu. Estava anunciada a vinda de OS COMPANHEIROS DA ALEGRIA. Era um espectáculo de variedades que percorria várias terras do país e era transmitido na rádio, com grande audiência, organizado e apresentado por Igrejas Caeiro e sua mulher Irene Velez. Igrejas Caeiro, artista de cinema, de teatro, locutor da rádio, era um profissional eclético. Irene Velez era também artista de teatro, talento que herdara de sua mãe, Elvira Velez.

O Lenteiro do Rio estava profusamente iluminado e com a tradicional barraca dos comes e bebes, que a festa não era a seco. No meio do recinto, um palco com bancadas à volta. O Lenteiro estava vedado e a entrada era paga: uma bilheteira ao cimo da rampa da ponte do rio Sul e outra junto à Nora; o resto da vedação era natural: os rios. Estava cortado o acesso e, sem bilhete, só a nado. Ao fim da tarde, uns foguetes a anunciar a festa. O espectáculo estava marcado para as 21:30h. As bancadas depressa ficaram repletas. Muita gente de pé. Vila e Ponte estavam em peso. Gente de outros pontos do Concelho e até de Vouzela. Poucas vezes, ou talvez nunca, o Lenteiro do Rio tenha alcançado tal enchente. Os Companheiros da Alegria traziam orquestra privativa e um lote de artistas de que Rui de Mascarenhas era vedeta principal. O espectáculo começou com o hino d’Os Companheiros da Alegria. Era um espectáculo variado, ligeiro, participativo, ao gosto do público que Igrejas Caeiro, com mestria, dominava e tinha na mão. Música, canções, propaganda — desde a Tinta Robialac às Conservas La Rose — concursos: “Tem um minuto para mostrar o que vale”, “A dança da batata”, “O casal com mais filhos”, “Onde está o gato?” Havia prémios pecuniários, anunciados pelo slogan “uma nota de 500 não se pode deitar fora”. Os concorrentes eram sorteados pelos bilhetes de entrada. O Júri era o público. Também havia prémio para os espectadores que completassem aniversário naquele dia.

Calhou que o meu bilhete fosse sorteado para o concurso “Tem um minuto para mostrar o que vale”. E eu lá fui sujeitar-me às perguntas. A primeira era falar sobre o 1º de Dezembro de I640. O tema, para mim, estudante de História, era fácil. Lá atirei com o Miguel de Vasconcelos pela janela fora, prendi a Duquesa de Mântua e pus os conjurados a gritar da varanda “Liberdade, Liberdade, Viva El-Rei D. Joao IV”. E, como não me engasguei, passei à segunda prova. Igrejas Caeiro leu um pequeno poema intitulado “Esta poesia não chega a anjos” e perguntou-me quem era o autor. Aí, eu encravei. À sorte, ainda atirei com D. Francisco Manuel de Melo. Não era. O autor era Jaime Cortesão, que eu conhecia razoavelmente como historiador mas ignorava como poeta, já que a grandeza do historiador abafara o poeta. Já não passei à terceira pergunta. Se bem me lembro — como dizia Nemésio — recebi como prémio da primeira resposta uma nota de 100 escudos e um frasco de perfume. Perfumei todas as meninas do meu grupo. E o espectáculo continuou; mais música, mais canções, mais concorrentes, mais propaganda, mais uma rábulas interpretadas por Igrejas Caeiro e Irene Velez, mais intervenções do público. Antes de começar o espectáculo, tinha aparecido no recinto uma tocata de Pouves: quatro ou cinco homens, com guitarra, bandolim, gaita de beijos e pandeireta. Traziam uma tabuleta com o nome da tuna: “Tuna dos…” e não havia mais palavras; suspensos da tabuleta, um par de grandes e vermelhos tomates. Uma moça mais ingénua do nosso grupo, que não tinha ligado as palavras aos apêndices, leu a tabuleta e disse: “esqueceram-se de escrever o nome da tuna”. E logo o Zé Dias: “olha para o que está dependurado”. Pois, durante o espectáculo, Igrejas Caeiro convidou a Tuna dos Tomates a subir ao palco. Explorou e tirou partido do nome com trocadilhos humorísticos. Os de Pouves lá esgalharam as suas músicas e cantaram as suas cantigas com letras mais ou menos brejeiras, estilo Quim Barreiros antecipado.

Durante o espectáculo, quem estava de pé ia compondo o estômago e molhando a goela, na barraca dos comes e bebes. No intervalo, ali foi oferecido um beberete aos Companheiros da Alegria: umas bifanas e um caldinho verde com chouriço e broa, regados com vinho de Lafões. Depois, o espectáculo continuou pela noite dentro.

Foi uma noite de São Bartolomeu diferente. Perto de 70 anos vão passados. Eu, por razões profissionais, ausentei-me de São Pedro do Sul e nunca mais voltei ao LENTEIRO DO RIO da minha mocidade e hoje da minha saudade. Não posso revisitá-lo. Resta-me recordá-lo pelo pensamento e pela escrita.

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