Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Teresa Sobrinho

Teresa Sobrinho é o rosto feminino, o rosto belo e simpático – e sempre sorridente, mesmo debaixo da máscara obrigatória – da Câmara Municipal de São Pedro do Sul. Ocupa-se da Cultura, da Educação e da Ação Social, três áreas para as quais se sentiu vocacionada desde que se lembra de si, tanto pela sua sensibilidade pessoal, quanto pelo exemplo e formação que recebeu em casa. É, por tudo isto, o interlocutor natural, quando caminha pelas ruas da nossa cidade, de todos aqueles que precisam de esclarecer uma dúvida ou que a desejam felicitar, em representação do Executivo, por alguma iniciativa camarária que lhes tenha dado particular satisfação. Com a afabilidade e o rigor que são próprias da professora que é, ei-la com coração e inteligência para todos, a todos dando atenção e um pedaço do seu tempo.

Tempo que, desde a deflagração oficial da pandemia em Portugal, em março deste ano, tem sido redobrado de trabalhos. Da Câmara Municipal tudo se espera, mas nem a tudo a Câmara pode dar as respostas que esperam dela, até por uma simples questão de respeito de hierarquias. Tem acontecido ter sido Teresa Sobrinho interpelada a respeito de temas cuja tutela a ultrapassam largamente, sendo competências dos vários Ministérios ou da Administração Regional de Saúde. Se o setor da Cultura viu forçosamente reduzidas ao mínimo as suas iniciativas – os concertos programados para 1 e 8 de dezembro próximos tiveram de ser cancelados, mantendo-se, porém, a popular iniciativa do “Mercado de Natal”, cuja realização ao ar livre facilita a manutenção das normas de segurança – o pleno funcionamento do setor da Educação, regulado pelas diretivas ministeriais, e as prementes necessidades da Ação Social têm-na empenhado grandemente.

Este último, sem dúvida, um setor essencial no combate à crise em que a COVID-19 veio lançar muitas populações do Concelho, notando-se um aumento exponencial do número de pessoas necessitadas de apoio – mormente nos âmbitos da assistência a idosos, da alimentação e do apoio psicológico (o isolamento e a solidão são quase tão mortíferos como os vírus). Para tanto conta com a preciosa colaboração de uma rede social, que inclui a participação de vários parceiros, e cujos bons resultados presentes espera prolongar no futuro, que se sabe incerto. Nesse sentido a Câmara está também a ativar-se desde já, dentro daquela filosofia, tão cara à Vereadora, de que “mais importante que dar o peixe, é ensinar a pescar”…

ENSINAR é, aliás, um dos verbos da vida de Teresa Sobrinho: dar aulas é mesmo uma vocação, uma prática de que sente saudades, dos dezasseis em que o fez de terra em terra, quilómetros e quilómetros de estrada ao sabor das várias colocações, desde o estágio académico na Escola Secundária Latino Coelho em Lamego e do contacto que aí teve, essencial para a sua formação profissional e humana, com a Dra. Palmira Garrido Santos, sua orientadora: o professor é como um pai para os alunos, tem de ser um exemplo de vida, para além de uma fonte de cultura, tem de impor as regras e fazê-las respeitar, sendo portanto respeitável. Foi sempre isso que fez com os seus próprios filhos, Beatriz e Joaquim, hoje com 21 e 17 anos respetivamente, que soube educar entre tomadas de decisão, nem sempre fáceis, e alguns sacrifícios de vária natureza.

Com os filhos

Nascida em Santa Cruz da Trapa, envolta na memória do seu avô paterno, vêm em boa parte da sua família as suas precoces preocupações políticas e, ainda mais que políticas, sociais: Joaquim Ferreira d’Almeida Sobrinho foi reconhecido e muito amado por se ter notabilizado pela sua ação pelo desenvolvimento local (lá está a estátua a recordá-lo, na praça principal da Vila). Esse carisma, essa verticalidade de conduta, foram-lhe transmitidos pelo seu pai, que, conjuntamente com o jornal, que a obrigava a ler diariamente, e com os livros, que lhe oferecia pelos anos e pelo Natal, em lugar das almejadas bonecas, a ensinou de pequenina o respeito que todos merecem e a igualdade de oportunidades de que todos, idealmente, deveriam usufruir. E, quando foi convidada para assumir a vereação na Câmara Municipal de São Pedro do Sul, não deixou de lhe dizer, comovido, o orgulho que Teresa Sobrinho teria sido do seu avô, do mesmo apelido – avô que, tudo levava a crer, teria vindo a ser Presidente da Câmara, não fosse ter sido vítima mortal de um acidente de automóvel em 1948.

Mas não cresceu somente entre memórias e leituras: Teresa Sobrinho teve o privilégio que os meninos da cidade não têm, o de ter convivido desde sempre com a natureza, com os animais da quinta, com os ritmos da atividade agrícola, com os mistérios da vida das plantas e dos seres. Terá isso estado na base da sua paixão pelas Ciências, que é, antes de mais, uma geral empatia pelo planeta terra, pelo misterioso milagre que interliga todas as coisas, mas também essa irresistível curiosidade que a define, esse seu desejo de tentar sempre perceber o porquê das coisas. Depois, associada à Física e à Química, veio a Matemática, que é a base de tudo, a ciência mais pura – e que aprendia em tardes esquecidas de verões da adolescência, com um Coronel amigo da família, que vinha passar férias a Santa Cruz. A escolha de se licenciar em Biologia e Geologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Utad) vem nessa linha e na influência decisiva que duas grandes professoras do Secundário tiveram sobre si: a Dra. Isabel Martins e a Dra. Adelaide Rolo.

Com os Cantares de Manhouce num programa televisivo

Foi nesse tempo de estudante, no Campus de Vila Real, que iniciou a sua atividade política, na Associação de Estudantes. Teresa Sobrinho foi rapidamente identificada, entre colegas e professores, como um elemento muito sociável e muito interventivo – para não dizer contestatário. Algo que lhe era absolutamente natural – em casa, à mesa da refeição, travavam-se sempre animadas discussões entre os membros da família, em que cada um tinha o direito de expressar a própria opinião e era respeitado por ela. Assim também, em prol dos direitos dos estudantes, ela ali estava, trabalhando, construindo a sua consciência de jovem mulher de centro-esquerda, de jovem socialista movida, sobretudo, pela defesa das pessoas. Nunca ambicionou os holofotes, sempre preferiu contribuir no backstage, e é exatamente assim que continua a fazer.

Os tempos livres gosta de os aproveitar para alargar horizontes. Para além das leituras que faz, desde os tempos de menina, em muito estimuladas por seu pai, vêm depois os filmes e as viagens. De entre todas, recorda uma em 2007 a Berlim, um dos palcos centro-europeus da Segunda Guerra Mundial, tema histórico que desperta, de sempre, o seu maior interesse. Um ou dois dias antes da sua chegada à capital alemã tinha-se descoberto uma bomba dos anos 40 ainda encastrada num prédio e isso transmitiu-lhe o primeiro arrepio. Maior teve-o, porém, dias depois, ao visitar o Museu Judaico, onde uma série de experiências sensoriais reproduziam, na museológica segurança do presente, o terrível desconforto do passado e do confronto com o horror do Holocausto. «Todas as pessoas deviam ir, pelo menos uma vez, a Auschwitz, para recordar» diz, preocupada com o branqueamento da memória recente, de que temos vindo a ser vítimas (ou obreiros?), e com o dramático aumento das extremas-direitas a que assistimos, na Europa e pelo mundo.

Ainda em Berlim, ao visitar um bunker, perguntou ao guia, que explicava as condições em que as pessoas ali se refugiavam ao tocar das sirenes do bombardeamento, o que é que elas traziam consigo. Tratava-se, obviamente, dos valores que se poderiam ser trocados por bens para a sobrevivência – mas eram também os livros e aquelas coisas que não poderiam ser substituídas, como fotografias e recordações pessoais. Foi lição que lhe serviu dez anos depois, quando os grandes incêndios que devastaram Portugal lhe chegaram à porta de casa, e Teresa Sobrinho disse aos filhos: «Meninos, vão aos vossos quartos e tragam só as coisas mais preciosas, aquelas que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar.» E, mais do que salvar as coisas insubstituíveis, dois meninos aprendiam nesse momento uma lição de vida insubstituível. Teresa Sobrinho continua a aprender e a ensinar, mãe de família e profissional competente à frente da Cultura, da Educação e da Ação Social de São Pedro do Sul.

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