Quando uma história de amor levou um poeta de Orpheu a visitar Lafões

Ernestina com o pai, Armando Côrtes-Rodrigues, à saída do Teatro Micaelense.

• Pedro Soares

O poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues nunca poderia imaginar que aquela vinda a Lisboa para almoçar com Almada Negreiros e Alfredo Guisado no renovado restaurante “Irmãos Unidos” – onde os três tantas vezes tinham almoçado com Fernando Pessoa nos idos anos 10 do século XX – haveria de marcar para sempre o futuro da sua filha, Maria Ernestina Botelho de Gusmão Côrtes-Rodrigues, 32 anos de esmerada educação e distinção, que insistia em “dar para trás nos pretendentes” (conta a própria à Gazeta da Beira), talvez por nunca ter encontrado o homem certo, talvez por não estar disposta a trocar a liberdade de viajar para Lisboa, Paris e outras cidades, pelas obrigações de um casamento na conservadora sociedade micaelense de então.

A poetisa brasileira Cecília Meireles é recebida no aeroporto de Ponta Delgada por Ernestina e Armando Côrtes-Rodrigues em 1951.

Foi nessa altura, anos 50, que Ernestina chegada a Lisboa para gozo de uma temporada de férias que incluía idas ao teatro, compras e passeios, se sentiu fraca e decidiu consultar um médico amigo da família que lhe diagnosticou tuberculose, essa maldita praga respiratória que anda a ceifar vidas por esse mundo desde o tempo dos faraós e ainda hoje faz estragos nos países em desenvolvimento. Como acontece com muitas doenças respiratórias – Covid-19 incluída – transmite-se por gotículas que permanecem suspensas no ar e que são um perigo para quem as inala, sendo por isso recomendável o isolamento dos doentes.

 

De táxi até ao Caramulo

A dedicação do pai Armando sobrepôs-se à do intelectual da elite literária de então, que tantas cartas trocara com Fernando Pessoa e com a poeta brasileira Cecília Meireles, e fê-lo agir com rapidez. Contratou um carro de praça para percorrer os 300 quilómetros que separam Lisboa do Caramulo e dar à filha o melhor que havia na época para enfrentar a terrível doença. Ernestina tinha de ser tratada com todo o conforto e garantias de cura porque, apesar do seu espírito independente e de ter já dobrado os trinta, continuava a ser a menina de seu pai, a sua querida “Repipixa” como carinhosamente a tratava, a única rapariga dos três filhos que tivera com a sua mulher Laura Sofia Botelho de Gusmão, neta do primeiro visconde de Botelho, com quem casara em 24 de julho de 1912 na Igreja Matriz de Vila Franca do Campo, terra de queijadas famosas e primeira capital dos Açores. Armando teve posteriormente um quarto filho, fruto da sua ligação com Hortense Pacheco.

Ernestina (2ª a contar da direita em baixo) com outras utentes do Sanatório do Caramulo

A menina Ernestina fez a longa viagem de táxi que terminou com a subida sinuosa que liga Tondela ao Caramulo e, ali chegados, o poeta da Orpheu amigo de Fernando Pessoa instalou a filha no Grande Sanatório, que hoje é uma ruina que mete dó, mas na altura rivalizava em cómodos com qualquer hotel de categoria: “Estava como queria, com criada, um quarto grande com casa de banho privativa, não me faltava nada”, conta, à Gazeta da Beira, Ernestina que mantém uma jovialidade pouco comum na sua idade.

Cada tempo lida com a sua peste pulmonar e a tísica nunca escolheu género nem classes sociais, contagiando quem respira as gotículas que circulam em suspensão. As possibilidades de tratamento é que eram diferentes. Ar puro e quartos arejados ajudavam a evitar o contágio e os da Serra do Caramulo contribuíam para fortalecer os pulmões dos doentes. A fama da Estância Sanatorial do Caramulo, fundada pelo médico Jerónimo Lacerda, era tanta que atravessara fronteiras.

Ironias do destino e das pestes respiratórias, o centenário da Sociedade do Caramulo coincide com o ano em que Portugal e muitos outros países enfrentam confinamentos por causa da pandemia da Covid-19, para a qual ainda não existe vacina nem foi encontrado nenhum medicamento com eficácia garantida. O Grande Hotel do Caramulo, mais tarde batizado de Grande Sanatório do Caramulo – onde Ernestina passou mais de um ano da sua vida – foi inaugurado a 8 de Junho de 1922. A estância cresce e ganha fama na década de 20, época em que a tuberculose dizimava muitos portugueses. “Uma nação não é verdadeiramente civilizada enquanto deixar morrer tuberculosos um número considerável dos seus filhos”, advertia o tisiologista Lopo de Carvalho em 1923.

A campanha do trigo, na década seguinte, contribuiu para uma diminuição da tuberculose em Portugal mas, o racionamento da II Guerra Mundial fez rarear alimentos e a tuberculose provocaria mais de dez mil mortos por ano, mais do que na década anterior. Em 1950, registou-se um recorde de 12069 mortos, números que vão descendo graças à introdução da estreptomicina no tratamento da doença, e ao trabalho das unidades móveis de rastreio do então Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos que circulavam por todo o país. Ainda haverá leitores deste jornal com memória das micro que fizeram anualmente nos tempos em que frequentaram a escola.

 

Um 1959 de muitas mudanças

Ernestina instalou-se no Caramulo na primavera de 1958, pela mesma altura em que o oposicionista Francisco da Cunha Leal decidiu não se candidatar à Presidência da República por motivos de saúde, Humberto Delgado que todos conhecem como o ‘general sem medo’ registava a sua candidatura no Supremo Tribunal, contando com o apoio de Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Azevedo Gomes, Cunha Leal e Rolão Preto, o homem que começa por estar à direita de Salazar nos anos 30, alinhado com a oposição depois de ter estado exilado.

O advogado e pintor Arlindo Vicente também anunciou a sua candidatura, apoiada pelo Partido Comunista Português que funcionava na clandestinidade, mas, algum tempo depois, desistiu a favor de Humberto Delgado. Do lado do Estado Novo, a Comissão Central da União Nacional, o partido do regime, rejeitou a recandidatura do Marechal Craveiro Lopes, apoiando a do Almirante Américo Tomaz. A nível internacional, o mundo estava de olhos postos no Caribe, onde Che Guevara, Fidel de Castro e muitos outros inauguravam uma nova era política em Cuba e desafiavam os Estados Unidos.

Na família Côrtes-Rodrigues, a revolução não foi menor. Armando, que já fizera 68 anos, casou-se em segundas núpcias com Margarida Vitória Borges de Sousa Jácome Correia, Marquesa de Jácome Correia, A Marquesinha, para os populares da Ilha de São Miguel.

É provável que os filhos do poeta Côrtes-Rodrigues tenham ficado desconcertados com o casamento do pai, que durou pouco.

Ernestina na inauguração da Casa-Museu Armando Côrtes-Rodrigues na Ilha de S. Miguel

Os mais velhos recordar-se-ão do programa da TV “Se bem me lembro” e das saborosas conversas/monólogos que Vitorino Nemésio, grande vulto das letras portuguesas e excelente comunicador tinha na RTP quando só existia um canal e a televisão era a preto e branco. Margarida, a excêntrica e empreendedora aristocrata que desassossegou o coração de dois vultos importantes nas letras portuguesas,  acabaria mais tarde por se apaixonar por Nemésio que lhe dedica um livro intitulado “Cadernos de Caligraphia e outros poemas a Marga”.

No Caramulo, longe das letras e do atribulado casamento do pai com a marquesa de Jácome Correia, a aristocrata Ernestina deixa-se encantar por um jovem de Lafões, da aldeia de Paços de Vilharigues, doze anos mais novo do que ela, que ali chegara para tratar a tuberculose que lhe fora diagnosticada pelo médico da Força Aérea, na sequência de um grave acidente de aviação quando frequentava o curso de piloto aviador.

 

O encontro com o rapaz de Paços de Vilharigues

António ainda estudante liceal, antes de ingressar no curso de piloto aviador da Força Aérea

Não sabemos o que encantou a elegante, sofisticada e cosmopolita Ernestina e fez com que o seu encantamento pelos vinte verdes anos de António se transformasse numa paixão que se prolonga numa relação de amor e cumplicidade nos mais de 60 anos seguintes. O contrário é mais fácil de adivinhar, o rapaz “era tímido, quase cismado”, recorda uma das primas de António que nesses anos se cruzara com ele nalguns bailaricos lá na terra, apesar dessa prima já só sonhar voar mundo fora como voou, e de o rapaz se contentar com os galões da Força Aérea.

António ficou fascinado com aquela mulher que apesar de muito culta tinha uma simplicidade e simpatia desarmantes, e um ar frágil e desprotegido. Tudo isto são suposições, peças de um puzzle de comentários ouvidos aqui e acolá, porque nenhum dos dois fala sobre o que lhes fez estremecer o coração. António Pereira Bica – que foi diretor da Gazeta da Beira – era filho de lavradores de Paços de Vilharigues, bisneto de Rosália Gonçalves e António Afonso, proprietários da Casa do Cimo em Cambarinho e por essa época ainda não se tinha matriculado no curso de Direito que haveria de tirar, nem se tinha metido em atividades que o levariam a ser preso pela PIDE em março de 1964.

Por essa época Armando Côrtes-Rodrigues estava a par dos amores da filha. Terá tido algumas preocupações pela brusca mudança de vida com que Ernestina poderia ser confrontada, mas representou o genro no papel de noivo quando Ernestina e António casaram em 1965, por procuração, ela em Ponta Delgada, ele em Coimbra às voltas com os exames na Faculdade de Direito.

 

O verão em que o poeta visitou Lafões

“Nunca levei muito a sério os namoros, mas quando conheci o António foi diferente. Gostei do António e gosto dele, costumo dizer que ele é o meu anjo na terra”, conta Ernestina: “Se não fosse ele eu não estaria aqui a ver fotografias e a falar desta história, num dos dias em que [ele] ia estudar para o meu quarto [no sanatório], que era muito grande e tinha uma camilha, percebeu que eu estava muito mal, quase a morrer, e andou por aqueles corredores até encontrar quem lá fosse socorrer-me. Quando saí dali fui para Coimbra, ainda fui operada na Casa de Saúde da Sofia, depois fui para os Açores, casei por procuração.

O poeta de Orpheu Armando Côrtes-Rodrigues com 20 anos de idade.

Vivemos em Paços de Vilharigues, Oliveira de Frades, Vouzela , Vale de Cambra (…) sou franca, tinha grandes dúvidas sobre a ideia de ir viver para Paços de Vilharigues, eu quando não gostava [mandava] tudo pelo ar. Paços era uma aldeia deserta, pensava onde é que eu me vim meter, mas eu gosto dele… Desse tempo tenho saudades do cheiro do feno, aquele cheirinho acabado de apanhar da terra, cheirava tão bem …”.

Ernestina manteve um contacto regular com o pai por carta como era uso nessa época.

Em agosto de 1970 o poeta vai a Lafões para conhecer a neta, Laura Sofia, como a mãe de Ernestina, que tinha nascido em Coimbra no ano anterior. Ernestina e o marido estavam de férias na Suíça porque agosto era o mês das férias judiciais. A pequena Laura Sofia ficara entregue aos cuidados da avó paterna, Carolina Pereira, que se encontra com o poeta amigo de Fernando Pessoa para lhe apresentar a neta de ambos.

Pouco depois, Armando escreveu à filha, partilhando com esta as impressões da viagem às terras de Lafões: “Gostei muito da tua sogra, é uma mulher inteligente”.

Armando Côrtes-Rodrigues por entre as tertúlias lisboetas, encontros dos salões literários, palestras e visitas a capitais europeias, viaja até ao rural profundo, longe das rotas dos intelectuais da época, visita Lafões para conhecer a neta fruto de uma improvável história de amor e deixar-se surpreender com a inteligência da matriarca de uma família rural que agora também é a da sua filha.

Verso do postal/foto de Côrtes-Rodrigues enviada à noiva Laura Sofia, com quem casa em 1912, durante uma estadia em Lisboa.

Ernestina não voltaria a ver o pai que faleceu a 14 de outubro de 1971. Em 1998, seria publicado o livro “A Lição do Poema: Cartas de Cecília Meireles a Armando Côrtes-Rodrigues”, pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada. Nesta cidade há uma Casa-Museu com o nome do poeta, inaugurada com a presença de Ernestina entre várias personalidades açoreanas.

Em 2015, ano em que se comemorou o primeiro centenário da revista Orpheu, a obra de Côrtes-Rodrigues esteve presente em várias exposições, nomeadamente na mostra Os Caminhos de Orpheu, apoiada pela Biblioteca Nacional, e Nós, os de Orpheu, apoiada pela Casa Fernando Pessoa e o Instituto Camões.

A correspondência de Pessoa e Côrtes-Rodrigues tem sido estudada por ‘pessoanos’ dos mais diversos pontos do mundo e pode ser consultada em arquivopessoa.net

 

 

 


Um agradecimento especial a alguns dos netos e bisnetos de Beatriz Carvalho, da Casa do Cimo (Lafões), pelas histórias que contaram, em especial à Manuela Goucha Soares, e a Ernestina Côrtes-Rodrigues Pereira Bica pela cedência de imagens.

 


CAIXA

Violante de Cysneiros e os gigantes de Orpheu

“Orpheu acabou. Orpheu continua”, escreveu o grande poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa, em 1935, num texto evocativo da revista que provocou “de imediato um escândalo literário de proporções significativas para um fenómeno literário, que se arrastou ao longo de vários meses na imprensa portuguesa, assegurando a sua reputação para além do momento da publicação”, lê-se no site modernismo.pt.

Orpheu durou pouco, mas o seu legado atravessou fronteiras e perdura até hoje. Foi um “furacão”, uma revista que “abanou Portugal”, lê-se num artigo assinado pela jornalista Manuela Goucha Soares, com ascendentes por via materna em Lafões, na edição online do Expresso, em março de 2015, por ocasião do centenário do primeiro número da Orpheu, que foi publicado no dia 24 de março de 1915, em plena Grande Guerra.

A revista era cara, custava 30 centavos no tempo em que um jornal diário custava 1 centavo, e só saíram dois números deste projeto literário que teve como principais mentores Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

O “fenómeno literário de Orpheu antecipou a modernidade numa Lisboa que se encontrava ainda em fase prematura de modernização, por outro, e no domínio internacional, é de notar a contemporaneidade da revista com algumas das primeiras expressões modernistas europeias. Esse aspeto é notório se considerarmos que as origens de Orpheu remontam a 1912, 1913, anos em que alguns dos seus primeiros colaboradores – nomeadamente Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Alfredo Pedro Guisado, Armando Côrtes-Rodrigues e Almada Negreiros – se aproximaram e os dois primeiros começaram a projetá-la. Salienta-se, igualmente, a vertente transnacional associada à revista, sobretudo em virtude das estadias prolongadas no estrangeiro de alguns dos seus colaboradores, como é o caso de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e José Pacheco, que tiveram, antes do Orpheu, experiências artísticas significativas em Paris”, como explica o site modernismo.pt.

O segundo e último número de Orpheu saiu do prelo a 28 de junho desse ano, apesar de Pessoa ter sonhado com uma revista trimestral. Falhou o dinheiro, mas nesse segundo e último número da revista que sintetizava todas as correntes modernas, surgiu um poema assinado com o nome de uma mulher: Violante de Cysneiros, personagem enigmática que ninguém conhecia.

Modernismo.pt explica que as nove composições regulares “dum anónimo ou anónima que diz chamar-se Violante de Cysneiros são precedidas da seguinte nota, assinada Orpheu: «Apareceram-nos na Redacção estes belos poemas, que um anónimo engenho doente realizou. Publicamo-los, porque disso são dignos, importando-nos pouco a personalidade vital de quem possam emanar. Toda a obra de arte é a justificação de si própria.»

Duas décadas depois, no texto “Nós os de Orpheu”, Fernando Pessoa revela que os poemas da “personalidade inventada, Violante de Cysneiros, são uma maravilha subtil de criação dramática”.

Mais tarde, o professor e crítico literário Óscar Lopes considera os poemas de Violante de Cysneiros “superiores aos de Côrtes-Rodrigues ele próprio, detectando algumas afinidades com a poesia ortónima de Pessoa e «uma riqueza implícita de problemas que o seu mestre não enjeitaria”.

Violante de Cysneiros escreveu para além dos dois números da Orpheu, porque viveu na pessoa do seu criador, Armando de Côrtes-Rodrigues, ligado pela filha Ernestina a uma família lafonense, de Paços de Vilharigues.

 

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