Entrevista a Maria Dulcídia de Almeida Pereira Ferreira (Dulcí Ferreira)

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

• Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: Maria Dulcídia de Almeida Pereira Ferreira (Dulcí Ferreira)

Idade: 57

Profissão: Administrativa.

Livro preferido: Todos, com especial destaque para o “Livro do Desassossego”, (Fernando Pessoa no mini heterónimo Bernardo Soares), porque “A minha pátria é a língua portuguesa”; e “A Vida Num Sopro” (uma das mais emocionantes obras de José Rodrigues dos Santos).

Destino de sonho: Os lugares possíveis com raríssimas exceções. Neste momento, tão peculiar, talvez os Açores (que ainda não visitei).

Personalidade que admira: Pedro Abrunhosa pela música e pela poesia. Pela sensibilidade, irreverência, inteligência e humanidade.

 

 

Paula Jorge (PJ) – Muito obrigada, Dulci Ferreira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.

Pode descrever o seu percurso académico?

Dulcí Ferreira (DF) – Com certeza! Entrei para a escola aos 7 anos de idade. Frequentei os quatro primeiros anos do ensino básico na Escola Primária de São Joaninho, concelho de Castro Daire. Fiz o 1º e 2º Anos do Ciclo Preparatório na Escola João Rodrigues Cabrilho, em Castro Daire, atualmente Escola Profissional Mariana Seixas. Até aqui tudo correu lindamente. Era boa aluna, curiosa e com sede de aprender. Transitei depois para o antigo liceu de Castro Daire, que se situava no lugar onde hoje funciona o Mercado Municipal. Aí frequentei os, já denominados, 7º e 8º Anos de Escolaridade com alguns chumbos pelo meio por não me enquadrar no sistema e também devido a alguma irreverência. Abandonei a escola aos 16 anos sem terminar o liceu. Em 2009 (31 anos depois) por influência da minha filha mais velha inscrevi-me no Programa Novas Oportunidades, concretizando o 9º e o 12º Anos através do Processo de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) que frequentei na Escola Secundária de Castro Daire. Pelo meio, fiz um curso básico de inglês e outro de Word e Excel para melhor compreender e usar as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação). Em setembro de 2010 ingressei no primeiro CQES (Curso de Qualificação para o Ensino Superior) da Universidade, Aberta com a duração de 6 meses e a creditação de 3 unidades curriculares: uma obrigatária (Português), e duas opcionais (História e Filosofia), curso que realizei com sucesso e que me deu entrada direta no Ensino Superior. Em setembro de 2011 dava início à Licenciatura em Estudos Artísticos, através da plataforma de E-Learning da Universidade Aberta (Ensino à Distância), com a creditação de 30 unidades curriculares (5 por semestre, 10 por ano letivo). As provas eram realizadas presencialmente na Escola Superior de Educação em Viseu. Concluí a Licenciatura com sucesso nos três anos propostos, apesar de alguns contratempos pelo meio, inclusive uma doença oncológica.

 

PJ – Pode partilhar connosco o seu percurso profissional?

DF – Enquanto adolescente fui pastora. O meu trabalho era ir à escola de manhã e de tarde pastorear o gado. Não era uma profissão, mas uma condição. Enquanto estudante, cheguei a ir às vindimas, ao Douro e dois anos consecutivos às de Silgueiros, no distrito de Viseu. Isto entre os 13 e os 15 anos, nas férias grandes e antes do início do novo ano letivo. Aos 16 anos (1980) tive o meu primeiro emprego numa Serração de Madeiras como Indiferenciada. Fazia de tudo um pouco. Empilhava madeira; carregava pequenos rolos e colocava-os em cima do tampo da serra para o serrador serrar; fazia contagem de tabuinhas para enfardar e amarrar. Eram tábuas de madeira seca aplainada para caixa França (assim designada porque era para fazer caixas para a apanha da fruta em França). Mais tarde fazia malotes de madeira para paletes, esta para exportar para Inglaterra e Espanha. Referenciava manualmente toda a madeira enviada para fora com a identificação do destinatário, número de peças, data de fabricação e identificação do fabricante; entre outras atividades do mesmo âmbito. Ali trabalhei até ter a minha segunda filha. Aos 31 anos (1994) criei a minha própria empresa no sector dos Materiais de Construção, mais virada para os acabamentos e decoração. Primeiro, em sociedade com uma senhora espanhola, madrinha da minha filha mais nova; depois, sozinha, devido ao falecimento do marido daquela. Percebendo as dificuldades de continuar com a sociedade, devido à distância que nos separava e a empresa situar-se em Portugal, fiz-lhe uma proposta razoável e adquiri a parte dela. Nessa altura, comprava e vendia os materiais, realizava o trabalho de escritório; fazia entregas; visitava obras; frequentava as Feiras de Materiais de Construção nacionais e internacionais; lidava diretamente com Empreiteiros, Engenheiros e Arquitetos e vendia essencialmente para os emigrantes. Devido à crise económica que se fez sentir no país e por toda a Europa na primeira década do ano 2000, atingindo profundamente a área da construção civil, em março de 2008 decidi encerrar a Empresa por um tempo, até que a crise passasse e tudo voltasse à normalidade. Mas a crise acentuou-se nos anos seguintes e não voltei a reabrir.

Atualmente estou como administrativa numa empresa familiar ligada ao ramo imobiliário, embora me dedique quase exclusivamente à escrita.

PJ – A Dulci Ferreira tem já uma obra feita. Como começou esta paixão pela escrita?

DF – A minha paixão pela escrita advém essencialmente da minha paixão pela leitura. Desde que comecei a juntar as primeiras letras que lia tudo o que encontrasse pela frente. Posso mesmo dizer que aprendi a escrever porque li muito ao longo da minha infância e adolescência, e durante a vida toda.

A escrita começou na escola com as redações que fazia, muito bonitas e bem estruturadas, as primeiras cartas aos namoraditos, já bastante poéticas; os desabafos com a folha de papel quando alguma coisa não corria bem. Eu era diferente dos jovens da minha geração… pragmática, corajosa, forte e decidida. Fui, desde muito cedo, chefe de grupo coral, catequista e chefe do grupo de catequistas; chefiei o grupo de jovens da aldeia dando sempre o melhor de mim para dinamizar culturalmente o lugar. Porém, ao invés de ver o meu esforço reconhecido, ainda era criticada e apelidada de vaidosa, armante e manienta. Frustrada, escrevia. Quando relia o escrito jogava fora porque me parecia estúpido e bizarro. Depois, que pensariam as pessoas se lessem o que escrevia? Que interpretação fariam? Saberiam ler nas entrelinhas ou limitar-se-iam a fazer juízos de valor?

 

PJ – Pode falar-nos do seu percurso ao nível da escrita enunciando os seus livros?

DF – Na verdade, tal como jamais imaginei vir a passar por uma crise pandémica e sanitária, como esta da Covid 19 que atinge o mundo inteiro, também nunca pensei vir a escrever e a publicar livros. Tudo começou no CQES (Curso de Qualificação para o Ensino Superior), onde a maioria dos meus colegas estava ligada às artes, com algum destaque para os escritores/poetas. Havia na plataforma um “Café Virtual” onde os alunos interagiam e falavam dos seus projetos e aspirações e também das suas aptidões nas mais variadas vertentes artísticas, e onde, aos fins-de-semana, se criavam temas para que todos participassem, mostrando suas valias. A dada altura criei um sarau poético e muitos dos colegas foram colocando seus poemas ou textos em prosa poética. Em dado momento partilhei um poema que despertou a curiosidade de um colega escritor que me falou ter gostado muito e me perguntou o que fazia com os meus escritos. Respondi que os jogava fora. Ele disse-me que não fizesse isso, que guardasse os textos que escrevia e que os publicasse em livro. Falou-me ainda da possibilidade de eu editar os meus próprios livros. Em setembro de 2011 publiquei o meu primeiro livro de poesia misto, intitulado “NA COMPANHIA DAS LETRAS”, com edição de António J. F. Almas. Digo “misto” porque contém poemas, pensamentos e textos em prosa poética. Este livrinho foi constituído por escritos que são autênticos desabafos da alma numa altura em que o mundo vivia uma crise económica sem fim à vista. Neste peculiar momento, as letras foram realmente a minha melhor companhia. O registo de pensamentos e sentimentos inquietos valeu para impedir que caísse numa depressão.

Continuei a escrever, levando a par com a universidade, a poesia e a criação de um romance. Em abril de 2013 lançava o meu segundo livro de poesia, intitulado “ENVOLVÊNCIA”, edição do autor, e na senda do primeiro. O romance, que intitulei “ROSAS BRANCAS”, com edição da Chiado Editora, foi lançado ao público a 3 de dezembro de 2016. Esta obra, para além de romance, é também um livro pedagógico, onde destaquei inúmeras problemáticas da atualidade, inclusive, o meu ponto de vista relativamente à crise económica que assolava o país, e também na vertente artística, filosófica e reflexiva. Vencia nessa altura a doença oncológica que me levou a encarar a vida com um outro olhar…

Um amante das letras, depois de publicar um livro, deseja continuar a fazê-lo. Como tal, a 1 de dezembro de 2018 apresentava ao público, não uma, mas duas obras, de novo na senda da poesia e que intitulei “UTOPIAS DO PENSAMENTO” Volume 1 com o subtítulo “Este Poema tão Nosso” – (só poemas) e volume 2 com o subtítulo “Entre o Sonho e a Realidade” (pequenos textos em prosa poética), também com edição da Chiado Editora.

Para além destas obras, sou ainda coautora em mais de meia centena de antologias e coletâneas, de várias Editoras.

PJ – Quais os temas que mais gosta de abordar quando escreve e quais os géneros literários que mais gosta de escrever?

DF – Quanto aos temas… Não querendo destacar nenhum em particular, o tema do amor sempre prevalece: o amor pela vida, pelas pessoas, pela família, o amor sublimado, o amor paixão, algum erotismo, o amor pela natureza, pela arte, pela serra e pelo rio… Também pelas tradições: antropologia e etnografia. E vale a denúncia, a contestação, o descontentamento, a oração. Temas da atualidade contextualizados, como este da pandemia por Coronavírus. A morte, a violência doméstica, as tradições… Em suma, na poesia ou em outros escritos cabe toda a vida quotidiana; vivida e/ou observada.

Quanto aos géneros literários que mais me apaixonam… Na verdade, tenho vindo a fazer experiências, escrevendo em praticamente todos os géneros: Poesia, Romance, Conto, Crónica jornalística, Peça teatral, Literatura infantojuvenil, Documentário, entre outros.

 

PJ – Gosta de ler? Considera importante ler para se escrever bem?

DF – Já li de tudo um pouco, desde os clássicos nacionais e estrangeiros aos escritores contemporâneos, e a partir do momento em que comecei a juntar as primeiras letras. Porém, a ler mesmo, foi desde que frequentei o ensino preparatório, com a possibilidade de requisição de livros nas bibliotecas escolar e municipal e mais tarde nas itinerantes da Gulbenkian. Quando criança não tinha acesso a muitos livros e os que me apareciam pela frente devorava-os em pouquíssimo tempo. Lia tudo: pedaços de jornal que algum viandante comprasse na vila e que, ao passar pela aldeia, jogasse fora; as indicações gravadas nos pacotes de arroz, açúcar ou massa, ou mesmo nas latas de conserva; os almanaques; os panfletos ou santinhos que o pároco da aldeia distribuísse num domingo qualquer; as revistas que chegavam de África com notícias dos missionários que por lá andavam a evangelizar; os livros escolares que passavam de irmãos para irmãos…

Adoro ler. Amo livros. A leitura ajuda-nos a conhecer o Outro, o seu pensamento, a sua visão das coisas e do mundo, a sua cultura. Ler é saber, é expandir o conhecimento através da intrusão, análise e entendimento das novidades que cada obra nos traz. É dar largas à imaginação, viver as mais extraordinárias aventuras e escrever mentalmente a própria história. Ler é conhecer. Quem não lê torna-se muito limitado no desenvolvimento cognitivo. E sonha menos, porque ler é alargar os horizontes por uma infinidade de universos que geralmente se perspetivam durante a leitura. E não há dúvida de que ler muito ajuda a desenvolver a capacidade de escrita. Não era eu uma simples pastora que depois foi trabalhar numa serração de madeiras, que virou empresária, mas que já tem várias obras publicadas? Não tenho a menor dúvida de que a minha desenvoltura na escrita se deve, reitero, às muitas leituras que fiz ao longo da minha existência. Por isso, leiam. Ler é importante e faz falta.

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida, ao nível da escrita. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?

DF – Quando publiquei o meu primeiro livro não fazia a mínima ideia de que precisaria de alguém mais ou menos entendido para me fazer a apresentação da obra no dia do lançamento. Estava preparada para fazer tudo sozinha quando alguém surgiu e me perguntou quem iria estar na mesa de honra? Era um mundo novo que desconhecia por completo, mas que me mostrou realmente que não é um mundo fácil de tragar. Falei que seria eu a falar da obra, que não sabia que tinha de ter alguém que a apresentasse por mim. Na verdade, tinha convidado muita gente da vila para o evento, contratei serviço de catering num restaurante luxuoso e de grande qualidade e convidei imensa gente da minha região, tal como os meus amigos e conhecidos e de meu marido também. Estava a oferecer um “vernissage” inédito nas redondezas e a expetativa de que os castrenses aderissem era grande. Na altura mal se ouvia falar de escritores na região, com exceção de um ou dois nomes a vigorar no panorama cultural e histórico castrense. Eu só conhecia um. Com tanta pompa e circunstância, da vila apenas meia dúzia de pessoas estiveram presentes. Isso deixou-me profundamente triste.

 

PJ – Que lições tirou desta marcante experiência?

DF – Tirei uma grande lição. Compreendi perfeitamente o significado da velha máxima: “Santos da porta não fazem milagres.” Se não fossem os amigos do meu marido, alguns familiares e amigos meus que se deslocaram de longe para estar comigo num dia tão especial e único, teria sido um fracasso. Felizmente correu tudo muito bem e no final ofereci o jantar a quem por ali se demorou. Ninguém faz ideia de quanto aprendi nesse dia!…

 

PJ – Quer falar-nos de algum projeto seu, ao nível de escrita, a curto e médio prazo?

DF – A cena da Covid-19 veio alterar muita coisa no panorama cultural português e na vida de muita gente. Tenho duas novas obras preparadas para lançar a curto prazo. Uma intitulada “PEQUENOS CONTOS – TRECHOS DE REALIDADES” com o subtítulo “Histórias de Ontem e de Hoje”, que nos fala de tradições antigas, mas também de problemáticas atuais. Uma segunda que é um livrinho de pensamentos que por vezes ocorrem no dia-a-dia e que eu quis guardar em livro. Tem como título “INQUIETUDES DO MEU PENSAR” e espero muito em breve partilhá-los com o público leitor. A edição é novamente da Chiado Editora e ambas estão primorosas (na minha opinião). Aguardam o momento certo para serem apresentadas ao público. A data que tinha predefinido antes de surgir esta situação de pandemia era fins de junho ou inícios de julho. Perante o cenário atual, seria ótimo se pudesse acontecer em finais de julho. Outros projetos esperam também pela sua oportunidade. Falarei sobre os mesmos no devido tempo.

 

PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?

DF – É preciso refletir sobre isto… O futebol é uma vertente cultural. Como se pôde constatar nos últimos tempos, é algo que não é vital na vida das pessoas. Vive-se muito bem sem futebol e, no entanto, move milhões. Na verdade, o futebol faz falta para quem o vive e dele sobrevive. O mesmo acontece com as outras vertentes culturais. São vitais para aqueles que se realizam através delas e nelas encontram o seu meio de subsistência. Logo, a Cultura é fundamental para a economia pela receita que gera. Não podemos esquecer que está diretamente ligada ao turismo, criando emprego direto e indireto. É também de crucial importância para o bem-estar dos indivíduos. Imagine-se um mundo sem música e sem a possibilidade das mais variadas manifestações artísticas? Não obstante, e dependendo do contexto (material ou imaterial), a cultura é também educação, entretenimento, sensibilidade, beleza, paixão. E é transversal a todas as áreas do conhecimento. É a identidade dos povos através das relações socioculturais: as festas e romarias tão importantes para as pessoas de cada lugar, onde o reencontro acontece e faz falta. Seríamos todos mais pobres e melancólicos num mundo sem a beleza das manifestações culturais: os grandes festivais etnográficos, exposições, museus, o teatro, o cinema, as artes plásticas… A cultura é também muito importante, para que cada um se defina a si próprio como membro de uma sociedade, que assim se entende e identifica perante outras sociedades.

Em meu entender, as pessoas já valorizam muito o papel da cultura nas suas vidas e existe por parte das entidades competentes a vontade de fazer mais e melhor em prol do setor. Porém, e em casos extremos, como o que se vive atualmente, será sempre um fator secundário, relativamente a outros considerados de primeira linha. O encerramento de quase todas as atividades ligadas à cultura e por tempo indeterminado vai causar aflição a muito boa gente…

 

PJ – Para além da escrita e da leitura, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

DF – A minha paixão primeira é a minha família e ainda mais agora que tenho a Laura, minha netinha. Depois, adoro música, preferencialmente, clássica, embora a aprecie em vários registos. No meu gosto pessoal, Mozart encima a lista dos grandes compositores clássicos, mas existem alguns contemporâneos que são também extraordinários. Outra das minhas paixões é a fotografia. Ainda não desisti de fazer um curso mais aprofundado para entender certas técnicas e aprender a tirar o máximo partido da máquina fotográfica, se bem que a arte está, acima de tudo, na sensibilidade e subjetividade do artista, tal como na ideia que ele faz das coisas. Há um clique que se sente, um apelo diferente que nos diz: é este o ângulo, o foco, é esta a posição, é aquela a profundidade ou perspetiva. É como na poesia… o baque no peito e a necessidade de extravasar o que nos aperta por dentro dita o momento propício em que nos devemos sentar para escrever o poema. Uma coisa que também me preenche bastante é construir novos espaços. Projetar e ver emergir, decidir e alterar, escolher e ver o resultado final. Penso que é ainda o efeito de ter lidado com muita gente ligada ao ramo da Construção Civil e de todo o aprendizado adquirido ao longo desses anos. A minha formação académica é virada para o estudo da História da Arte. Estudos Artísticos com Minor em Artes e Património. Estudei História do Teatro; da Fotografia; da Música; da Televisão; do Cinema; Estudos Literários Comparados; Arquitetura e design; Artes plásticas; Museologia e tantas outras que agora não me ocorrem. Estou a pensar seriamente em passar da teoria à prática e fazer um curso de pintura… Outra das minhas grandes paixões são as viagens… Conhecer outros povos, outras culturas. Intrusar-me no meio das suas gentes e compreender os seus usos e costumes, as suas tradições. E sempre muito grata a Deus Pai que me tem dado grandes oportunidades e vida para realizar alguns dos meus sonhos.

 

PJ – Imagine a sua vida sem a escrita, como seria?

DF – Diz quem lida comigo que tenho uma personalidade muito forte. Que ultrapasso tudo. Que venço qualquer obstáculo. Na verdade, já venci alguns e de grande complexidade, como aquele em que tantas vezes me questionei se haveria amanhã para mim… Venci-o na altura. Ainda estou aqui, com a graça de Deus. Todavia, esta rocha também tem momentos de extrema sensibilidade, instantes em que quase desaba. Já me senti muito só no meio da multidão. Já chorei muita lágrima escondida e sem motivo aparente. Tive muitas situações em que precisei de conversar, abordar certos temas, debatê-los, confrontar ideias para compreender melhor o mundo e a mim mesma, mas as pessoas que me acompanhavam no dia-a-dia tinham as suas prioridades. Era então na escrita que me refugiava. Com a folha de papel partilhava os desalentos e as frustrações, mas também momentos de grande alegria. A escrita e os livros são o meu universo paralelo. A clareira onde me refugio. A casa na floresta, o canto do rio, o voo das aves que carregam a minha imaginação. Não sei o que seria de mim se ficasse privada do mundo onde me vejo realmente feliz… Aquele onde sou exatamente quem desejo ser, sem máscaras e sem preconceitos.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

DF – Genuína.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

DF – O meu coração é um coração que ama imensuravelmente e onde cabe o mundo inteiro. Por vezes sofre de taquicardia, quando acorda de noite e percebe que o mundo que acolhe é muito imperfeito. Que bom seria se não existissem doenças, fome, guerras mesquinhas e se houvesse mais equilíbrio entre as nações e as classes sociais. Porque, apesar de se falar muito em “igualdade”, sempre haverá diferenças e hierarquias, lideres e liderados e classes sociais. Foi assim em todos os tempos e em todas as civilizações.

Mas o meu coração é também grato. E este é o momento de agradecer à Dr.ª Paula Jorge e à Gazeta da Beira, a oportunidade que me deram de, através deste meio, dar a conhecer um pouco mais de mim e do meu trabalho literário, esperando que esta entrevista chegue ao coração de todos.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dulci Ferreira! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!

Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

DF – Na impossibilidade de erradicar este mal que a todos traz apreensivos e receosos, gostaria de apelar a que leiam muito. Que acarinhem os autores portugueses e que apostem na literatura nacional. Temos excelentes autores que merecem ser lidos e esperam para ser lidos e reconhecidos. Sem falsas modéstias, e isso só o leitor pode dizer, também gostaria que se dessem uma oportunidade de conhecerem e lerem as minhas obras.

Esperando que assim seja, desde já um enorme BEM-HAJA!

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