Nazaré Oliveira

Um convívio / patuscada de um grupo de amigos sampedrenses (parte III de III)

De pé e da esquerda para a direita: António Silva, Dr. António Tavares, Manuel Borges,
José Gamaliel, Dr. Abel Poças, Dr. José Inácio Coelho, Francisco Monteiro de Barros, Ferncisco
Portelo e António Teles.
Na 1ª fila, da esquerda para a direita: Dr. Pinho Bandeira, José Agostinho Barreto de Figueiredo,
António Santos Batista, Álvaro de Figueiredo, José Neto e Domingos Marques.

 

FRANCISCO PORTELO: Era o ferrador da Ponte. Catedrático da ferração, todos os cavalos e burros do Concelho lhe passavam pelas mãos. Na altura da fotografia, já estava jubilado e o seu filho MANUEL PORTELO tinha assumido a cátedra. Mas se o velho Francisco já não tinha pulso para aplicar uns sapatos de ferro a qualquer burro (salvo seja!), ainda tinha estômago para umas boas patuscadas com os amigos.

Quando lemos um romance, todos imaginamos personagens e cenários onde os acontecimentos se desenrolam. Aconteceu comigo, quando li o Amor de Perdição: logo a imagem de João da Cruz, o ferrador de Prime, se misturou com a do ferrador da Ponte. Nem outra associação eu poderia fazer, porque era a única vivência que eu tinha do cenário e de um ferrador.

Nos dias de Feira Velha, o bulício na oficina era maior. Só a estrada separava os ruídos da Feira do som dos malhos, do relinchar dos cavalos e do zurrar dos burros. Aumentava a clientela de quatro patas. E enquanto o Portelo calçava com um par de ferraduras as alimárias, os donos aproveitavam para dar um pulo à Feira a fazer as suas mercas; às vezes calçavam-se também com um par de botas ou de tamancos, comprados no António Matias ou no Rodrigo Serguilha, tamanqueiros encartados. Assim, todos regressavam calçados: homens e animais.

Mas os Portelos não se limitavam a ferrar. Sem terem estudado anatomia, sabiam muito de animais e os lavradores mais depressa consultavam os Portelos do que o veterinário. Eles sabiam da poda e tinham lá umas mezinhas que punham um cavalo sorumbático aos pinotes, um burro apaixonado a zurrar e uma vaca melancólica a mugir.

Família de ferradores, alguém tinha de ficar ligado aos animais. Dois netos de Francisco Portelo foram meus alunos: a Alcina Maria, hoje professora aposentada e João Miguel, médico veterinário.

ANTÓNIO TELES: Era o Homem do Bombo na Filarmónica. Juntamente com meu Tio António Nazaré (Regente), meu Pai e outros, fazia parte do velho naipe de músicos há cem anos saídos das mãos do Senhor Vigário, cujo perfil já tracei numa das minhas crónicas. Ninguém malhava no bombo com a arte do Teles. Parecia que a sua alma escorregava pelo braço, chegava à mão, entrava na maçaneta que parecia ganhar vida e zurzia a pele retesada do bombo. Todo ele vibrava. E até o dedo grande do pé direito, a espreitar pelo buraco da sandália, marcava o compasso, ao ritmo da maçaneta. Nunca me apercebi deste pormenor que me foi relatado pelos meus amigos Dr. Carlos Matias e Dr. Guimarães da Rocha, dois produtos genuínos da Ponte.

Mas o Teles não se limitava a tocar bombo na Filarmónica. Fazia parte do Grupo Coral Sacro, a que já me referi. Ali, não tocava bombo: cantava o latinório que nem um abade.

Era um homem simpático, monárquico convicto desde os tempos da Rainha D.  Amélia em S. Pedro do Sul em finais do século XIX. Nessa altura, os dois infantes travaram amizade com um rapazito a quem chamavam o “Caça-rãs” ou “Pescarão” que os acompanhava nas suas andanças pelo Lenteiro do Rio. O “Pescarão” acabou por ir com eles para Lisboa e foi feito criado do Paço. (No meu livro sobre a Rainha D. Amélia, publicado em 1996, documento estes factos.)

Ora, o Teles, que passava a vida a chapinar nas águas do Vouga, no Lenteiro do Rio, encontrou-se com os príncipes que a ele se afeiçoaram por os ter iniciado nos seus ensaios piscatórios. Vangloriava-se dessa amizade. Fazia-lhe bem ao ego e monárquico ficou.

 

NA 1ª FILA, DA ESQUERDA PARA A DIREITA:

PINHO BANDEIRA: Era um devotado sampedrense que na sua terra viveu toda a vida de médico. Durante toda a segunda metade do século XX e primeira década do século XXI, a vida de São Pedro do Sul ficou marcada pela sua acção, nos mais diversos sectores das suas actividades. Foi médico municipal, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, um dos fundadores do jornal Tribuna de Lafões de que foi editor e mais tarde director; desde 1949, médico do Hospital até que este foi convertido em Centro de Saúde, em 1976 com o Dr. Bandeira por Delegado.

Dotado de apurado sentido cívico, o seu espírito interventor fê-lo participante de em tudo o que dizia respeito à vida social sampedrense.

Com ele convivi de perto, o bastante para apreender os traços fundamentais da sua personalidade: era um homem inteligente e calmo: nunca o vi levantar a voz e nunca o vi alterar o seu ritmo pendular de caminhada.

Infelizmente, a vida não o poupou. A trágica perda da esposa, D. Maria da Conceição, num acidente rodoviário, foi o primeiro golpe. Ela era o seu arrimo e mulher superior, mentora da vida social feminina sampedrense. Pouco tempo depois, o segundo golpe: a perda da filha — a Maria da Luz, que foi minha aluna — também num desastre rodoviário. A dor abalou-o, mas não o derrubou. A sua força de alma manteve-o sempre igual a si próprio: o mesmo homem sereno, calmo e solidário. Não diferenciava credos políticos ou crenças religiosas. Para ele só havia homens, mulheres e crianças que precisavam de si. Isto explica a estima e o respeito que sempre colheu de toda a gente, bem patente na homenagem que o Concelho, através do Município, lhe prestou em vida.

JOSÉ AGOSTINHO BARRETO DE FIGUEIREDO: É o jovem cuja participação de criança entre adultos se explica pela presença de seu tio Álvaro, que o levou consigo. José Agostinho veio a ser, mais tarde, um conceituado Chefe de Repartição de Finanças.

ANTÓNIO SANTOS BAPTISTA: Era conhecido por BAPTISTA DA VÁRZEA, porque ali residia, numa quinta de que era proprietário e para onde nós, rapazotes, íamos à caça dos pardais, armados de fisgas.

Lembro-me de que fez parte dos corpos gerentes dos Bombeiros Voluntários e tenho presente a sua imagem nas procissões, onde era assíduo, especialmente na procissão dos Santos ao cemitério, a que nunca faltava.

ÁLVARO DE FIGUEIREDO: Mais conhecido por ÁLVARO DA PONTE. Conheci-o mal. Era irmão do Barreto da Pensão. Sei que se dedicou ao negócio de antiguidades e era proprietário de uns moinhos antigos.

JOSÉ NETO (de RANHADINHOS): A bem dizer, mal o conheci. Sei que lhe chamavam o Zé das Cunhadas, presumo porque frequentemente vinha à Vila tratar dos assuntos das ditas.

DOMINGOS MARQUES: Era uma espécie de manda-chuva das Termas. Na sua mercearia debruçada sobre o Vouga, ao cabo da ponte, vendia-se de tudo, desde os fósforos ao bacalhau. O David, seu lugar-tenente, tudo manobrava com mestria, deixando-lhe tempo para se dedicar a outras actividades. Frequentemente, o Domingos vinha à Vila, na sua carripana, tratar de assuntos pessoais ou relativos à Comissão de Turismo das Termas, de que fazia parte.

Não sei a data nem as circunstâncias deste encontro retratado pela fotografia que motivou este escrito. Mas não há dúvidas de que foi um convívio de um grupo de amigos, uma gastropatuscada, como se vê pelo garrafão empunhado pelo Zé Neto. O garrafão era um símbolo português imprescindível para matar a sede à lusa gente, em comezainas, festas, romarias populares, magustos e outras farras em que houvesse trincadeira.

As personagens da fotografia já todos morreram. Que Deus as tenha junto de Si!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.