Nazaré Oliveira

A PRAÇA (II)

A PRAÇA (II)

O EDGARD

No número anterior, dissemos que a Igreja e o Edgard eram os dois pólos de atracção da Praça. Eram os dois “templos” onde se veneravam valores diferentes, mas ambos respeitáveis. Cada coisa no seu lugar e a seu tempo.

O EDGARD era o coração da Praça. Ali pulsava a vida sampedrense. As minhas recordações remontam ao princípio dos anos 40, tempos da Guerra, em que o rádio do Edgard, através de um altifalante instalado sobre a porta, transmitia, às nove e meia da noite, na voz timbrada do Fernando Peça, as notícias da BBC, escutadas no Adro por aqueles que não iam ao Café. Eu lá ia também com o meu avô, que era um anglófilo ferrenho. Discutiam-se as façanhas de Rommel e de Montgomery, comentavam-se os discursos de Churchill (“sangue, suor e lágrimas”) e as tiradas furiosas de Hitler. Ali se futurava o desfecho da Guerra. Os germanófilos, embora poucos, nos primeiros tempos cantavam de galo, mas, à medida que a coisa virava, baixavam a crista.

O Edgard era o centro de convívio, o barómetro social da Terra. Ali se reuniam variadas gentes, desde o comerciante mais ou menos aburguesado ao modesto funcionário cujo magro vencimento não dava para ir muito além da bica, passando pelas profissões liberais, reformados, caixeiros viajantes, o africanista ou o brasileiro de vista à terra… Nos tempos da Guerra, abundavam por lá os garimpeiros do volfrâmio, alguns a exibirem-se puxando por notas de conto, numa manifestação de novo-riquismo que pouco tempo durou. Foram poucos os que conseguiram “morder” o dinheiro, facilmente ganho e facilmente gasto. O volfrâmio traz-me sempre à lembrança o avantajado Canja. Mas esse fiava mais fino. Até tinha uma separadora de minério, para evitar a candonga.

Tudo o que dizia respeito à vida sampedrense passava pela mesa do Café. Ali nasciam e morriam ideias, se faziam e desfaziam projectos e negócios, se discutia a política local (que a nacional pouco tinha que discutir), se sabiam as novidades, se fazia um pouco de má-língua moderada. No frio Inverno ou no calmoso Verão, ali se passavam horas de ócio, a cavaquear, a jogar as damas, o xadrez, o dominó, o bilhar de buracos (négus) e o poker de dados, uma modernice que o Gamaliel introduziu. E o Zeca e o António, sempre solícitos, familiares, atendendo ao balcão ou de mesa em mesa, onde cada cliente era um amigo.

Durante a manhã, com excepção de domingo, o Café era menos frequentado. Era a hora preferida pelo Marquês de Reriz, solitário, numa mesa do fundo, a tomar a sua bica, com a boquilha entre os dentes, a fumar o seu cigarro, com o seu livro, os seus lápis e os seus desenhos, dando ao Café um toque aristocrático e artístico. Mas a arte tinha ainda ali o seu lugar através do talento fotográfico de Mestre Edgard, que nos ia oferecendo a exposição dos seus trabalhos.

Algumas figuras típicas ali paravam também. Entre outros, recordo o Carlos Bandeira, burilador da madeira que, de quando em quando, dava descanso às goivas para vir ao Café conversar com os amigos, enquanto entulhava as narinas com umas pitadas de rapé; o Quinato, a fazer horas para ir dar corda ao relógio da torre de Santo António; o velho Bernardino Vasconcelos, pai do Edgard, a cuspilhar e a torcer os bigodes, à conversa com o velho Diamantino Rebelo, de sorriso maroto, que ainda arregalava o olho e cochichava com o Vasconcelos, quando via passar uma moça jeitosa; e, enquanto isto, no Adro, a voz roufenha do Calombro pregava o seu ininteligível e eterno sermão.

Havia uma personagem que despertava em mim um especial interesse. Chamava-se Alfredo de Sousa. Vivia em Sul, mas descia frequentemente à Vila e parava pelo Café, ponto de encontro com os seus velhos amigos Adelino Pereira e Dionísio Vila Maior, duas figuras típicas de conceituados comerciantes locais. Eu sentia que aquele encontro era para ele uma necessidade e razão bastante para baixar das abas de S. Macário à Vila. Conheci-o por volta dos anos cinquenta, já septuagenário. Era um homem bem apessoado, distinto mesmo, cabelos “à poeta”, lúcido e bem falante, a demonstrar cultura. Falava de muitas coisas do seu passado, principalmente da Rainha D. Amélia, cuja visita a São Pedro do Sul acompanhara de perto e em que ele fora um elemento participante. Pelo brilho dos olhos e pelo entusiasmo, julguei ver naquele sedutor de fim de século reminiscências de um arroubo juvenil. Sem duvidar de um fundo de verdade, cheguei a pensar que ali poderia haver um pouco de fantasia. Mais tarde — já ele era morto — tive a prova de que tudo era verdade. Quando tive de me documentar para o meu livro A Rainha D. Amélia em São Pedro do Sul, publicado em 1996, encontrei, em jornais de fins do século XIX, abundantes referências: “O nosso académico Alfredo de Sousa, bohemio sempre incorrigível, também n’esta occasião offereceu o seu retrato à rainha” (A Liberdade, 28/5/1885). E, dias depois, a rainha recebeu uma comissão de estudantes do Liceu de Viseu “encabeçada pelo bohemio Alfredo de Sousa que veio offerecer-lhe um grupo fotografico dos tunos, que dias antes, tinham estado no Paço”. E, no ano seguinte, “a academia sempre liderada por Alfredo de Sousa que offereceu à rainha uma saudação impressa a ouro e uma poesia que promettera em S. Pedro do Sul”. Outras referências aparecem. Era este jovem académico boémio, que fazia e declamava versos à Rainha, o simpático ancião que, mais de meio século depois, no Café Edgard, deixava adivinhar, pelo brilho dos olhos e pelo entusiasmo, que o seu coração ainda dava cambalhotas quando falava da “sua” Rainha.

O domingo do Café era um dia diferente. Na parte da manhã, era para muitos ponto de passagem obrigatório, a fazer horas para a Missa, enquanto o João Manco e outros graxas davam lustro aos sapatos. Do Café se ia para a Igreja e da Igreja se voltava ao Café, para mais dois dedos de conversa. Depois do almoço, o Café aburguesava-se. Era a hora da society, em que algumas senhoras (não muitas) acompanhavam os seus maridos e tomavam o seu carioca. Por volta das três horas, o ambiente mudava. A society começava a debandar. Era a hora do relato. Só ficavam os “doentes da bola”. No Verão, o ciclismo substituía o futebol nas discussões: recordava-se ainda a rivalidade Nicolau / Trindade, mas agora os ídolos eram outros.

Em tempo de férias escolares, o panorama também se alterava. A juventude académica por ali se reunia, a fazer tertúlia, com as suas fumaças de intelectualidade de quem vinha trazer à “parvónia” umas pitadas de cultura.

Era assim o Edgard de outros tempos. E nem algumas inovações que lhe forma sendo introduzidas, como a caixa de música, a máquina eléctrica de jogos e a televisão, lhe fizeram perder as suas características de centro de convívio social. Mas hoje tudo está distante. Desapareceram pessoas, morreram hábitos, mudou a vida. A Praça deixou de ser o coração da Vila. Morreu o Edgard-Homem. Morreu o EDGARD-CAFÉ, que foi LEGENDA da vida sampedrense. Dele resta apenas o nome e a lembrança. MORREU A VILA. NASCEU A CIDADE!

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