Mário Pereira

Crónicas do Olheirão

Os pilotos deverão saber porque a querem

Os pilotos da TAP fizeram uma greve de dez dias, porque no tempo em que o Eng Guterres foi primeiro-ministro, provavelmente para terminar com alguma das suas greves, lhe prometeram uma participação de entre dez a vinte por cento numa futura privatização

Esta promessa, que veio a ser declarada ilegal, é um exemplo acabado de como as coisas podem correr mal quando em vez de se resolverem os problemas de forma transparente se arranjam soluções manhosas.

Esta promessa, se não fosse ilegal, teria problemas interessantes. Valeria só para quem era piloto na época em que foi feita ou incluiria todos os que viessem a ser pilotos da TAP até à privatização?

Se a privatização vier a arrastar-se por mais alguns anos poderá dar-se o caso de alguns pilotos não serem nascidos quando a promessa foi feita e para complicar a situação poderá dar-se o caso de algum dos pilotos  a quem foi feita a promessa já ter  falecido, ficando a dúvida se os seus herdeiros teriam direito.

Esta situação constitui um bom exemplo de uma prática muito portuguesa que consiste em tapar um buraco com a terra que se tira de outro que se abre ao lado ou mais à frente.

Todas as notícias que se têm ouvido sobre a TAP dizem que se trata de uma empresa falida e a precisar urgentemente de muito capital para se manter a funcionar.

Sendo isto verdade não percebo para que querem os pilotos 20% de uma empresa, que vale menos que zero. Contudo, há um velho ditado que diz que quem sabe o que se passa no convento é quem está lá dentro.

A greve dos pilotos da TAP só faz sentido se eles souberem que ela vale muito mais do que nos tem sido, insistentemente, dito.

Independentemente da necessidade e da oportunidade da privatização da TAP, o que me tem custado ver é o esforço do governo, dos dirigentes da TAP e de muitos comentadores economistas do regime em insistirem  que a TAP está falida e não vale nada e que constitui um problema de que o estado tem de se desfazer.

Neste sentido a greve dos pilotos deverá, ao contrário das críticas, valorizar a empresa e não prejudicá-la. Se eu fosse um potencial comprador ficaria satisfeito por ver os pilotos fazerem uma greve de dez dias para reivindicarem uma participação no capital da empresa.

A ser verdadeiro o valor que o governo diz ter a TAP e a existir alguma base na reivindicação dos pilotos, parece-me a que a melhor solução seria entregar a TAP aos pilotos, pois pelo menos eles acreditam na empresa.

O capitalismo e o mercado livre não são conhecidos pelas suas preocupações morais ou pelo coerência das suas posições, o que se compreende pois para eles a única coisa em que a coerência conta são os interesses.

Vem isto a propósito de se dizer que a União Europeia impõe que a TAP não pode continuar a ser detida pelo estado e tem de funcionar numa lógica de abertura ao mercado, mas dá-se o estanho caso desta, tão louvável, intenção esbarrar numa norma da própria União Europeia que diz que as companhias aéreas europeias têm de ter uma participação superior a 50% de capital europeu.

Tudo isto soa a uma enorme hipocrisia.

Não se pode proteger um pequeno país em nome da concorrência mas logo a seguir podem proteger-se os grandes capitalistas da União Europeia contra a concorrência.

Parece que a concorrência faz bem aos pequenos países mas constipa os capitalistas.

Nota

Não vale a pena justificar o acidente com os peregrinos de Mortágua com a irresponsabilidade de um condutor, porque irresponsabilidade séria é obrigar os peregrinos a caminhar pela estradas.Redação Gazeta da Beira

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