Manuel Silva

A Grécia de pé

Não me identifico ideologicamente com o Syriza, não me situo tão à esquerda, sou social-democrata. No entanto, se fosse grego, teria votado no partido liderado por Alexis Tsipras nas recentes eleições ocorridas no berço da democracia.

Os tradicionais partidos moderados gregos, Nova Democracia e PASOK (socialista), além da corrupção em que mergulharam o seu país, puseram em prática políticas de “ajustamento” que destruíram o mesmo económica e socialmente.

Em consequência da austeridade imposta pela troika, as instituições comunitárias e especialmente o imperialismo alemão à Grécia, a economia e o poder de compra caíram à volta de 30%, um quarto da população activa encontra-se no desemprego, a pobreza e a miséria aumentaram drasticamente. Há muitos milhares de pessoas sem acesso a bens como a electricidade ou a água por não terem dinheiro para os pagar. As pessoas desempregadas há mais de 3 meses não têm direito a assistência médica. Belo exemplo da solidariedade e espírito de coesão da União Europeia!

Apesar de todos aqueles sacrifícios, o défice grego encontra-se longe dos 3% e a dívida pública atingiu cerca de 170% do PIB. Como no nosso país, também na Grécia a política austeritária falhou. No passado dia 25 de Janeiro, os “grécios”, como diria o presidente americano de má memória, George Bush, disseram “basta!”, concedendo uma quase maioria absoluta ao Syrisa, infligindo uma pesada derrota à Nova Democracia e essencialmente ao PASOK, que há poucos anos governava em maioria e quase desapareceu do parlamento. Farta de sofrer, a Grécia pôs-se de pé.

Contrariamente ao socialista francês Hollande, que após ser eleito renegou o que havia dito na campanha eleitoral e foi ao beija-mão de Merkel, o novo governo, constituído pelo Syrisa e os conservadores anti-austeridade do “Gregos Independentes”, repôs o valor do salário mínimo, readmitiu os funcionários públicos despedidos nos últimos anos e atribuiu um subsídio aos pobres que não podem pagar a água e a eletricidade, assim cumprindo o prometido. Quanto à dívida, aqueles partidos  não deram o dito por não dito como afirmam alguns analistas e articulistas ao serviço dos poderes comunitários e nacionais. O reclamado perdão da dívida foi sempre parcial. O maior partido da nova coligação é favorável ao euro. O novo governo está a tentar renegociar a dívida, indexando o seu pagamento ao crescimento da economia.

As políticas austeritárias ruiram. O BCE, comprando dívida e a Comissão Europeia, apostando no investimento público e privado, já o perceberam. Barak Obama afirmou ser o crescimento económico a única forma de a Grécia sair da crise.

O resultado das eleições gregas está a fazer soprar novos ventos na Europa. O primeiro-ministro português reagiu àquele de forma autista e arrogante, considerando, numa atitude deselegante, o programa do governo grego “um conto de crianças”. Como qualificar o seu programa governamental destruidor de largos sectores da economia e empobrecedor, incapaz de cumprir o memorando relativamente ao défice e à dívida pública, contrariando tudo o que disse na campanha eleitoral que o conduziu à vitória? Um conto orwelliano, no qual as palavras significam o seu inverso?

Se as instituições da União Europeia e os governos nacionais não mudarem de agulha, passando a apostar no crescimento, na criação de emprego de qualidade e na suavização do pagamento das dívidas, os partidos moderados continuarão a perder terreno e a averbar derrotas, avançando forças extremistas de direita e de esquerda, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 20 e 30 do século XX, podendo levar à destruição da democracia e da liberdade.Redação Gazeta da Beira

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