Da revolução socialista russa de 1917 ao colapso do socialismo do fim da década de 1980 para o princípio da de 1990

A UCRÂNIA É ÁREA DE TENSÃO POLÍTICA ENTRE OS EUA E A RÚSSIA (1)

À medida que o contínuo desenvolvimento científico conduz a avanço tecnológico e sequente progresso económico, que são cada vez mais acelerados, os Estados mais poderosos tecnológica e economicamente, com grande extensão territorial e população numerosa tendem a alargar o seu domínio sobre outros espaços geográficos para obter vantagens económicas por controlo político. Do desenvolvimento científico da Europa, sobretudo a partir do século 17, e do consequente desenvolvimento tecnológico, de que resultou acelerado desenvolvimento económico por produção de maquinaria (máquinas de fiar e de tecer, máquina a vapor para a accionar e puxar carruagens de transporte em linhas férreas e depois outras) veio a resultar a ocupação colonial, primeiro sobretudo a inglesa, pelos países da Europa, nomeadamente na África, na Ásia e no Pacífico, e pelos EUA (com a ocupação dos vales do Mississipi-Missouri, das Montanhas Rochosas, da Califórnia, da Florida, do Texas e do Novo México, mais tarde de Cuba e das Filipinas), e também pelo império russo (a ocupação da Sibéria e das regiões a sul da Rússia). Por razão semelhante na última metade do século 19 a Alemanha ensaiou o alargamento territorial para o ocidente da Europa, anexando a Alsácia e a Lorena (até então francesas) pela guerra de 1870. Na primeira metade do século 20 a expansão territorial pela Alemanha tendeu a intensificar-se, o que deu origem à Primeira Grande Guerra (1914/1918) e a seguir à Segunda Guerra Mundial (1939/1945). Por ambas a Alemanha quis alargar, embora sem sucesso, o seu espaço de domínio político e económico na Europa, a ocidente e a leste; e o Japão tentou apoderar-se da Coreia, da maior parte da China, do Sudeste Asiático e das numerosas ilhas do Pacífico e do Índico oriental na Segunda Guerra Mundial. Da Segunda Guerra Mundial emergiram dois países como grandes vencedores dela, os EUA e a União Soviética, ambos com grande território, numerosa população e avançada base científica e tecnológica. Os EUA beneficiaram da vantagem de essa guerra não ter devastado as infraestruturas económicas no seu território nem causado mortes numerosas dos seus nacionais. Pelo contrário na União Soviética foram destruídas as infraestruturas económicas até ao norte de Leninegrado (hoje São Petersburgo), Moscovo e, no sul, até ao rio Volga (Estalinegrado); da população soviética foram mortos entre 20 e 30 milhões de pessoas (militares e sobretudo civis), cerca de 10% da sua população. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial a União Soviética e os EUA, que tinham regimes políticos e económicos antagónicos, defrontaram-se pelo alargamento do seu espaço de influência política e económica. A União Soviética partiu com forte desvantagem em consequência da perda de significativa parte da sua população e de infraestruturas económicas. Pelo contrário os EUA beneficiaram das vantagens de não terem sofrido destruição de infraestruturas económicas, terem perdido pouca população na guerra e conseguido impor a sua moeda (o dólar) como meio de pagamento internacional, que continua a ser. O total do espaço geográfico da União Soviética e dos países de regime político e económico semelhante (sobretudo os países do Pacto de Varsóvia e a China) era de muito menor dimensão geográfica do que o dos restantes países (com organização económica liberal como a dos EUA e social em geral conservadora). E as suas unidades de produção, por dependerem burocraticamente do governo central, tendo muito reduzida flexibilidade de gestão, depois da mobilização política e social sequente à revolução de 1917, levaram, a prazo, à queda da eficiência económica e à consequente perda do apoio popular, tornando-se pouco eficientes. Por outro lado a divergência entre a União Soviética e a China sobre a manutenção desses países sob orientação política internacional unificada (unificação que se manteve até à morte de Estaline em 1953) levou a grave divergência política pela segunda metade da década de 1950 e início da década de 1960 entre esses dois grandes países (a União Soviética e a China). A divergência tornou-se insanável e chegou a confronto militar (embora limitado) junto ao rio Amur (no sul da Sibéria oriental), e à aproximação política da China aos EUA com posterior abandono do modelo de organização económica do tipo da União Soviética em 1978, embora sem ter copiado o modelo económico americano. Estes principais factos, isto é a perda de eficiência económica da URSS com consequente falta de apoio popular e a hostilidade entre ela e a China, determinaram o colapso do regime político e económico da União Soviética e dos restantes países do Pacto de Varsóvia (entre 1989 e 1991) com desmembramento das repúblicas que integravam a URSS. O colapso da União Soviética liquidou a ligação política entre os territórios culturalmente distintos que haviam integrado o império russo a que, pela lei das nacionalidades decorrente da revolução russa de 1917, foi reconhecido em 19922 o direito a autonomia política em quadro político federado. Assim nasceu a União Soviética. Os único territórios integrantes do império russo que não aderiram à União Soviética foram a Finlândia e os Estados bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). Estes últimos só passaram a integrar a União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1991 da dissolução da União Soviética, que tinha 22 milhões de km2, tornaram-se Estados separados: a Rússia, a Ucrânia, a Bielorrússia, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Geórgia, a Arménia, o Azerbaijão, o Usbequistão, o Tajiquistão, a Quirguízia, a Moldávia, o Cazaquistão e o Turquemenistão (15 Estados). Todas as repúblicas que haviam integrado a União Soviética até 1991 e os demais países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia, República Democrática Alemã (que foi integrada na República Federal Alemã), Polónia, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e Hungria, passaram a adoptar o modelo de organização económica liberal dos EUA. A dissolução da União Soviética foi fomentada por Ieltsin, ex-membro da Comissão Política do Comité Central da União Soviética, então (1991) presidente da Rússia ainda integrada na URSS, e apadrinhada pelos EUA que garantiram apoiar a transferência para a Rússia do estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e reconhecê-lo como presidente legítimo da Rússia. Na sequência da separação das repúblicas que integravam a União Soviética, que assim deixou de existir politicamente, os EUA procuraram ganhar influência junto delas, todos médios ou pequenos Estados, em grande parte com êxito. Relativamente à China, os EUA esperaram que as manifestações da praça de Tiananmen, em Pequim, em 1989, levassem o país a entrar em agitação política e as diversas províncias dessem origem a Estados independentes, o que facilitaria o avanço do seu controle político e económico. Mas isso não aconteceu por pronta acção do governo chinês. Depois da revolução russa de 1917, do posterior alargamento da influência política soviética aos países da Europa oriental em 1945, da revolução chinesa em 1949 e das revoluções vietnamita e cubana resultou larga área geográfica de cerca de 33 milhões de km2 e população de cerca de 1.800 milhões de habitantes com estrutura económica distinta e rival da dos EUA e do resto do mundo e diferente organização política. Constituíam área geográfica e massa humana suficientes para competir económica e socialmente com os EUA e os países a eles subordinados se a URSS tivesse mantido eficiência económica e suficiente mobilização popular e não tivesse acontecido o grave desentendimento político com a China. Mas as contradições políticas não sanadas entre a China e a União Soviética e a gestão burocrática centralizada, que levaram à ineficiência económica, determinaram o colapso da União Soviética e dos restantes países do Pacto de Varsóvia, a sequente captação de quase todos os países da Europa oriental e outros para a influência política e económica (directa ou indirecta) dos EUA e conduziram os restantes países à opção por economia controlada pelo grande capital, ou a caminho disso, com a excepção de Cuba e pouco mais. Nota: O texto terá seguimento em próxima edição da Gazeta.Redação Gazeta da Beira

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