A desigualdade como objetivo político
Mário Pereira
A crise e a TROIKA têm as costas largas e têm servido ao governo para esconder o seu grande objetivo que é alterar o modelo de sociedade, que foi sendo construído desde o 25 de Abril.
Há medidas que não têm impacto na dívida e no deficit público nem na competitividade das empresas mas são bandeiras do governo, porque asseguram e acentuam as desigualdade sociais.
A verdade é que o neoliberalismo acredita que a sociedade deve ser desigual e o governo quer impor-nos essa visão da sociedade.
A redução dos salários dos funcionários públicos e das pensões de reforma, têm estado no topo da discussão pública e, pese embora serem muito gravosas, têm desviado a atenção de outras medidas que vão deixando muitas pessoas na miséria e fazem crescer as desigualdades.
A redução do subsídio de desemprego, que só agora está a chegar em força às pessoas, vai deixar centenas de milhares de pessoas sem nenhum rendimento.
O que está a ser feito ao nível do RSI e do acessos aos apoios sociais pelos mais pobres raia a perseguição. O governo, usando como justificação o combate às fraudes o que, efetivamente, quer, e está afazer, é voltar a um tempo em que os pobres não têm direitos e são obrigados a recorrer à caridade.
É por isso que ao mesmo tempo que corta no apoio às pessoas cria as cantinas sociais e acarinha as organizações que fazem distribuição de alimentos.
A desigualdade nas relações de trabalho começa a mostrar-se em força e vai levar-nos a um tempo em que os trabalhadores deixam de ter direitos, restando-lhe apenas serem agradecidos aos patrões.
Na educação o ministro Nuno Crato tem levado a cabo uma verdadeira cruzada ideológica em que nem sequer há preocupação de poupar ou reorganizar.
O que há é uma cruzada para impor um modelo de escola ao serviço de uma sociedade, que ele quer desigual, como era há 60 anos atrás.
Algumas das medidas mais importantes deste ministro foram:
– Reintrodução dos exames da quarta classe e do sexto ano;
– Fim da atribuição de computadores aos alunos;
– Fim do programa Novas Oportunidades;
– Fim do inglês no primeiro ciclo;
– O reforço do apoio aos colégios;
– O ensino dual (vulgo modelo alemão);
– A destruição do sistema de bolsas de investigação e doutoramento.
A realização de exames custa dinheiro; o programa Novas Oportunidades era em boa parte financiado pelo Fundo Social Europeu; o fim das aulas de inglês obrigou a contratar professores de outras disciplinas para assegurar essas horas, por isso a poupança foi zero.
A questão dos computadores Magalhães e dos outros na prática visa apenas dificultar o acesso dos pobres à tecnologia de modo a garantir a mão de obra desqualificada e disponível para trabalhar por baixos salários.
O reforço do apoio aos colégios serve para garantir, aos mais ricos, escolas diferentes e melhores que as dos pobres. Se o objetivo fosse poupar não vinha com a ideia do cheque ensino.
A introdução de vias de ensino dual que, logo no segundo ciclo podem levar à segregação dos alunos mais pobres e com mais dificuldades, não vai poupar nada, mas garante que os pobres não vão chegar às universidades e esse é o objetivo escondido por detrás da retórica.
Há professores que dizem muito bem destes cursos, mas no dia em que alguém me apresentar o filho de um professor, de um médico ou de um qualquer licenciado que frequente essas turmas por opção eu pago o almoço.
O ministro Catro chegou ao governo por escrever em jornais e blogues e veio imbuído da missão de nos salvar do “eduquês”.
Assumindo-se como evangelizador, vem agora impor-nos o “ensinês”, que mais não é do que o regresso a uma escola onde o que importa é memorizar e obedecer.
Andamos a discutir se a saída da Troika será limpa, mas é uma evidência que, pelo o rasto de destruição que deixa, será sempre uma saída suja.
Como sujo será o nosso futuro se deixarmos que as discussões fiquem apenas na dívida, no deficit e no crescimento.
Se não arrepiarmos caminho esse crescimento, se houver, ser-nos-á indiferente pois vai beneficiar apenas uma pequena elite.
• Mário Pereira
Redação Gazeta da Beira
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