Manuel Silva
QUANDO A DIREITA ERA HUMANISTA, SOLIDÁRIA E POPULAR
Faleceu recentemente o general Soares Carneiro, fundador dos comandos, ex-chefe de Estado Maior General das Forças Armadas e candidato derrotado à Presidência da República, em 1980, apoiado pela Aliança Democrática (AD).
A AD não era uma frente de direita, mas uma união da direita democrática, do centro e do centro-esquerda. O principal partido que a constituía, o PSD, era – hoje não é – um partido social-democrata, central e reformista. O seu líder e então primeiro-ministro, Sá Carneiro, era social-democrata já antes do 25 de Abril.
A direita da altura, constituída pelo CDS e a ala direita do PSD, era humanista, solidária, popular e inter-classista. Defendia a libertação da sociedade civil, mas também a necessidade de um Estado regulador. Acreditava na iniciativa das empresas, das famílias e dos indivíduos, mas afirmava não estar a solução toda no mercado. Batia-se pelo direito de propriedade, devendo esta servir o bem comum. Para aquela direita, o capitalismo devia ser um meio, regrado, e não um fim, para criar um país rico, com uma distribuição mais justa de bens.
A AD surge na mesma altura das teses neo-liberais conservadoras de Reagan e Thatcher, as quais nunca lhe serviram de exemplo. Pelo contrário, a coligação do PSD, do CDS, do PPM e dos Reformadores, dissidentes do PS, baseava o seu modelo de desenvolvimento na economia social de mercado característica da Europa continental, especialmente na Alemanha e nos países nórdicos, ainda hoje os mais justos e equilibrados no tocante a distribuição de riqueza.
Sá Carneiro dizia ser Portugal um país onde os velhos não tinham presente e os jovens não tinham futuro, preocupando-se com estes dois sectores sociais e todos os desfavorecidos. Comparece-se esse discurso com o da apologia do empobrecimento, de Passos Coelho, e a sua tentativa vergonhosa de lançar jovens contra idosos, filhos e netos contra pais e avós (linda valorização da família para quem insere o seu pensamento no conservadorismo social)! É quanto basta para concluir não ser hoje o PSD um partido social-democrata, reformista e popular, mas uma agremiação dirigida pela direita mais retrógrada vista nos últimos 40 anos, mais parecendo a ala direita do Partido Republicano dos EUA (Tea Party), liderada por uma senhora chamada Sarah Palin, cuja beleza é proporcional à sua incultura, irracionalidade e hipocrisia moral.
Em 1980, o governo da AD melhorou e muito a situação dos portugueses, especialmente os mais pobres, que viram crescer significativamente o seu poder de compra.
No final desse ano, decorreram eleições para a Presidência da República. Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Teles não confiavam na continuidade do general Ramalho Eanes no cargo, acusando o mesmo de ter um projecto de poder pessoal. Para o derrotar, os líderes da AD escolheram um militar prestigiado e culto: o general Soares Carneiro.
Soares Carneiro não participou no 25 de Abril. Estava, nessa altura, em Angola . Foi um dos vencedores do 25 de Novembro, data em que os extremismos de direita e de esquerda foram neutralizados no nosso país. Posteriormente, regressou aos quarteis. Mais tarde foi nomeado pelo então presidente Mário Soares, sob proposta do primeiro-ministro Cavaco Silva, Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas.
Quando candidato a PR, mostrou estar pouco à vontade nos meios políticos. Outro problema foi ser pouco conhecido da população. Sá Carneiro afirmou que poderia não ser um bom candidato, mas daria um bom presidente.
Continua na próxima ediçãoRedação Gazeta da Beira
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