António Bica
A CULTURA TRIBAL SOBREVIVENTE AO ALARGAMENTO HISTÓRICO DOS COLECTIVOS HUMANOS
O jornal “Público” de 24/1/2014 publicou na página 26 a notícia Anciãos ordenam violação colectiva. Nela é referido que na Índia, na noite de 20 para 21 de Janeiro de 2014, uma jovem de 20 anos foi violada sucessivamente por 13 homens de uma aldeia por decisão do conselho de anciãos dela.
A jovem, da aldeia de Serbalpur, filha de família pobre, manteria, segundo refere a notícia, relação com jovem de outra comunidade. No dia 21 de Janeiro de 2014 esse jovem foi à aldeia de Serbalpur para lhe propor casamento. Em consequência disso os dois foram detidos pelos habitantes e levados ao conselho local de anciãos que, por serem de comunidades diferentes, o que é proibido pelos valores de raiz tribal seguidos na aldeia, condenou cada um a pagar quantia equivalente a 300 euros. A família da jovem, por ser pobre, não pôde pagar a multa. Por isso o conselho de anciãos transformou a punição em imediata e sucessiva violação por 13 homens da aldeia da jovem transgressora dos valores tribais da aldeia. Na Índia, embora desde há milénios a cultura tribal apenas se mantenha em algumas comunidades rurais, ainda não desapareceu com consequências repugnantes como esta.
A humanidade até há cerca de 4.000 anos anteriores ao ano actual organizava-se em pequenos colectivos, que designamos tribos. Esses colectivos tinham religião, língua, costumes alimentares, de vestuário, ritos de entrada na idade adulta e outros distintos das demais tribos. Entre esses costumes estava a imposição de sempre casar dentro da tribo. E, em regra, cada tribo ou grupo de tribos afins considerava que os membros das outras tribos não tinham dignidade humana igual à sua. Depois da entrada da humanidade no modo de produção do período neolítico, isto é agrícola e pecuário, o que terá ocorrido há cerca de 12.000 anos antes do ano actual, as unidades políticas tribais foram sendo substituídas por outras de âmbito humano e geográfico cada vez mais alargado, o que começou a ocorrer no espaço actualmente designado Médio Oriente, no vale do rio Indo, e no rio Amarelo no nordeste da actual China.
Essa evolução resultou do desenvolvimento da produção agrícola e da consequente criação de núcleos populacionais urbanos. Actualmente as estruturas sociopolíticas tribais ainda se conservam nas populações pré-neolíticas, isto é que continuam ainda hoje (embora em casos muito reduzidos) a viver em economia recolectora (caça, pesca e colheita de frutos, raízes e plantas).
E no mundo, sobretudo nos países que se tornaram independentes depois da Segunda Guerra Mundial, há significativa sobrevivência de culturas tribais, nomeadamente na África ao sul do Sara onde se considerou que o respeito pelas antigas fronteiras coloniais contribuiria para a paz entre os novos Estados independentes. Porque as fronteiras desses novos estados não coincidem com as tribais, isso é frequentemente factor de conflitos e de desordem.
Em muitos países asiáticos também subsistem núcleos de cultura tribal sobretudo no interior rural montanhoso, incluindo na Índia e na China. Também nos países conquistados depois do século 7 pelas tribos árabes de organização tribal (que haviam acabado de adoptar então o islamismo) no norte de África e no Médio Oriente até ao rio Indo, a cultura tribal onde ainda subsistia nos territórios conquistados tendeu a ser respeitada e mesmo estimulada pela forte cultura tribal dos árabes então conquistadores.
Na Europa o império romano e depois do século 4 a religião cristã de vocação universalista tenderam a apagar a cultura tribal. Mas a desejável definitiva eliminação dos valores tribais do inconsciente colectivo com substituição por valores de racionalidade e de humanismo com base na igualdade de todos os humanos ainda não aconteceu.
Na aldeia em que nasci e fui criado, em Lafões, e pelo testemunho de outros em muitas outras aldeias do centro e norte do país, o namoro das moças da aldeia por rapazes de outras foi hostilizado até início da década de 1950. Tinha cerca de 7 anos e um desentendimento entre rapazes da minha aldeia e outro de fora acabou em agressão à facada. Desse inaceitável costume hoje nada resta senão na memória dos mais velhos.
Mas no inconsciente colectivo tribal por vezes reafloram valores do inconsciente colectivo de reminiscência tribal onde menos seria de esperar, como gente letrada ou em vias de o ser, com adopção de comportamentos sociais frequentemente inaceitáveis com ritos de tipo iniciático coacção quando não acatados. A praxe académica nas universidades portuguesas continua a ser um dos casos.
Recentemente, a propósito da recente trágica morte, na praia do Meco junto de Lisboa, de seis estudantes cultores de praxe académica, os grandes meios de comunicação social nacionais têm comentado as praxes académicas nas universidades portuguesas.
Em Coimbra, na década de 1960, muitos estudantes não aceitavam a praxe académica nem ser submetidos a ela. Os muitos que então estudavam em Coimbra entendiam ser contrária aos valores do humanismo e da liberdade pessoal e por isso condenada a desaparecer. Quando aconteceu o 25 de Abril e a democratização em Portugal esperava-se que em definitivo desaparecesse.
Mas não desapareceu. Porque a esquerda reivindicava então o fim da praxe, as organizações juvenis dos partidos da direita conservadora fomentaram-na. Assim a praxe académica, então quase confinada a Coimbra e em vias de se extinguir, certamente porque do inconsciente colectivo ainda não haviam sido definitivamente varridos os inconscientes valores tribais, alargou-se às outras universidades públicas e depois às particulares nascidas nas décadas de 1980 e 1990 com o cavaquismo.
A praxe académica é regresso a comportamentos de reminiscência tribal correspondentes ao poder dos mais velhos da tribo e aos ritos de integração nela (no caso a academia) dos que nela vão entrar, os caloiros (novos alunos).
Como é conhecido a generalidade das tribos submetiam os jovens delas, depois da puberdade, a ritos de entrada no colectivo tribal quase sempre muito duros, como os judeus ao corte físico do prepúcio dos rapazes e alguns povos negros islamizados ao do clitóris das raparigas. O rito sangrento de entrada no colectivo (de origem tribal) de corte do prepúcio foi, no cristianismo, substituído pelo não sangrento do baptismo, banho na água com origem religiosa na Índia.
Outros casos de forte sobrevivência de cultura tribal são os grupos humanos que, por razões históricas, foram deslocados dos territórios onde se fixavam e se dispersaram, sobretudo pelas margens mediterrânicas e depois pelo mundo, sem perder a identidade tribal: os ciganos e os judeus.
Todavia os judeus e os ciganos têm entre si grande diferença:
Uns (os judeus) baseiam a sua cultura em um livro (a Bíblia), que lêem, ensinam uns aos outros, comentam e interpretam, o que lhes dá a vantagem de, por isso, serem em grande número letrados e cultos e, em consequência, terem conhecimentos que dão capacidade a grande percentagem deles para enriquecer. O filósofo judeu Maimónides que nasceu em Córdova e viveu no século 12, recomendava que cada judeu dedicasse metade do seu tempo activo ao estudo. Como exemplo dos seus valores tribais refere-se que, embora a religião seguida pelos judeus proíba cobrar juros, consideram, à luz dos seus valores de base tribal, que essa norma, como várias outras, é de aplicar apenas entre eles e não aos que designam gentios, os exteriores à sua comunidade. Sendo os judeus em grande percentagem letrados e cultos, não deixam de cultivar estes e outros valores de carácter tribal como o de casar obrigatoriamente entre judeus, que alguns, mais racionais, abandonam por os considerarem sem razão; entre eles, recentemente, está o conhecido músico de jazz, Gilad Atzmon, nascido em 1963 em Tel Aviv, de nacionalidade israelita, que participou como militar do exército de Israel na desumana invasão de 1982 do Líbano contra os libaneses e os palestinianos aí refugiados, que foram vítimas dos massacres de Sabra e Chatila. Declarou esse músico, hoje com nacionalidade britânica e a viver na Inglaterra: Abandonei o conceito (que tinha) de pertencer a povo eleito (por Deus) e transformei-me num ser humano comum. Sinto-me feliz por isso.
Outros (os ciganos), pelo contrário, não se interessam por saber ler, escrever e estudar, vivendo pobremente de esmolas que mandam os filhos pequenos pedir aos não ciganos; de pequenos negócios (sem se sentirem obrigados a cumprir normas éticas) com estranhos à sua comunidade; e excessivo número em relação aos demais cidadãos também de pequenos furtos e outras actividades ilícitas de que são em regra vítimas estranhos à comunidade.
Os ciganos e os judeus, por constituírem sociedades de valores culturais de tipo tribal, têm os traços comuns de considerarem os exteriores ao respectivo grupo como outra gente, não tendo que seguir, em relação a eles, as regras de solidariedade e de respeito que consideram dever observar entre os membros do seu grupo, e de proibirem o casamento fora do grupo correspondente, o que o tende a perpetuar os valores tribais. E em regra não recorrem á justiça dos Estados em que vivem para solucionar conflitos entre eles.
É necessário combater racionalmente e de acordo com os valores do humanismo, isto é no campo das ideias na base do princípio que todos os humanos são iguais e não por meios repressivos, as remanescentes práticas sociais de raiz tribal, quaisquer que sejam, incluindo a praxe académica e outras, porque, na medida em que geram forças contrárias a cultura de tolerância e de plena igualdade entre todos os humanos, são fomentadoras de desordem social com consequências por vezes trágicas.Redação Gazeta da Beira
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