Manuel Silva
Quantas Divisões tem o Vaticano?
Alertado pelos que o rodeavam para o “perigo” da actividade da Igreja contra o comunismo, o ditador soviético Estaline perguntou “quantas divisões tem o Vaticano?”
O “pai dos povos” só acreditava na força das armas. Foi dessa forma que os bolcheviques tomaram o poder na Rússia em 1917. Também pelas armas a URSS, as democracias ocidentais e as guerrilhas dos paises ocupados pelas tropas de Hitler derrotaram o nazismo e o fascismo. Mais tarde, outro destacado marxista, Mao Tsé Tung, afirmou “o poder está na ponta da espingarda”.
Como é habitual nos ditadores ou a tal candidatos, também aqueles não acreditavam na força da palavra e muito menos do voto popular. No entanto, na década de 80 e no princípio dos anos 90 do século XX, a Igreja Católica e especialmente o Papa João Paulo II tiveram, pela via pacífica, um papel importantíssimo no fim dos regimes herdeiros de Estaline, bem como de várias ditaduras militares de direita na América Latina.
Se o marxismo, apesar de alguns aspectos positivos, principalmente na denúncia de acções perversas do capitalismo nos últimos dois séculos, falhou na prática, melhor resultado não está a ter a ideologia neo-liberal, vencedora após a queda dos regimes comunistas. A herança de Reagan e Thatcher, influenciados por Hayek, Schumpeter, Milton Friedman, entre outros, está na origem da crise vivida desde o sub-prime e a falência de bancos e companhias de seguros nos anos de 2007 e 2008, por sua vez consequências da economia de casino, da desregulamentação, da crença cega no mercado e da globalização injusta e sem regras, ao serviço apenas das grandes multinacionais, como disse oportunamente Vitor Cunha Rego, já falecido.
Ao caminho prosseguido pelo capitalismo selvagem hoje dominante no mundo, o qual tem como base ideológica o neo-liberalismo, chamou o Papa Francisco “a economia que mata”, mais criticando a “fé” apenas nos mecanismos da chamada mão invisível do mercado a que se referia no século XVIII o “pai” do liberalismo económico, Adam Smith.
A nova direita liberal-conservadora – mais conservadora, do ponto de vista social, que liberal – engasgou e não comenta ou passa como gato por brasas sobre a “Alegria do Evangelho”, publicada por Sua Santidade. Fique sabendo essa direita e os empresários sem alma por ela servidos que as palavras do Papa Francisco terão efeitos idênticos, relativamente ao economicismo neo-liberal, aos que tiveram as anteriores acções da Igreja Católica quanto aos herdeiros de Estaline e aos ditadores corruptos latino-americanos.
PS: Paulo Portas, dentro da verticalidade e ética irrevogáveis que lhe são conhecidas, afirmou ser do Tribunal Constitucional a culpa de os impostos serem muito elevados. Que bom seria se o poder deste governo não tivesse controlo de outros poderes consignados na lei fundamental e típicos de qualquer verdadeira democracia!…
Uma pergunta se coloca, no entanto. Esteve alguma decisão daquele Tribunal na origem do grande aumento da carga fiscal efectuado após a posse do actual governo em 2011, contrariando o prometido pelo PSD e pelo CDS em campanha eleitoral?
Comentários recentes