Bernardo Bica
• Bernardo Bica (Cozinheiro e Formador na Escola Profissional de Vouzela)
“Somos o que comemos”, é um velho ditado, mas, é, também, mais correcto do que seria de imaginar. Todo o país ou, por vezes, até toda a região tem um cunho individual a nível culinário, seja em ingredientes ou métodos de confeção.
Mas como podemos compreender um povo através da sua cozinha?
Para o fazer, devemos ter em conta alguns dos vários factores que influenciam a cozinha de uma determinada região, sejam eles factores geográficos, culturais ou influência externa. A cozinha portuguesa pode ser considerada um exemplo excelente, de uma tradição culinária de grande influência externa, curiosamente, tanto como, cozinha influenciada como influenciadora.
Um facto pouco conhecido é que a influência da cozinha portuguesa estende-se, não só por países de forte influência colonial, mas também, em áreas da Ásia que estabeleceram relações comerciais com Portugal. O prato japonês “tempura”, tem um nome familiar não tem? Isso, deve-se ao facto de o termo “tempura” derivar da palavra “tempero”. Na verdade, é um prato de origem portuguesa.
A localização geográfica é também de grande importância, como pedra basilar, aquando da formação de uma tradição culinária, todas as regiões têm os seus ingredientes típicos e, ainda que a evolução do comércio tenha em várias circunstâncias providenciado acesso a novos ingredientes, continuamos a encontrar uma forte presença dos productos autóctones dentro da base culinária de uma região. É claro que vamos encontrar excepções a essa regra, nomeadamente, no caso da batata, mas normalmente, é necessário um argumento muito forte, e, mesmo assim, acabamos por naturalizar o ingrediente invasor.
Mas, talvez, o elemento mais importante de todos é, simplesmente, a cultura de cada povo, seja religião ou as próprias tradições desse mesmo povo. Tabus alimentares, regras de consumo ou mesmo de confecção. Seja a proibição do consumo de porco, quer na tradição hebraica, quer na islâmica, ou mesmo, a obrigatoriedade de remover o sangue do animal. Aquilo que estamos dispostos a consumir depende, também, da ideia que temos do que é ou não comestível. Insectos, Tubarão, ou mesmo, algumas partes de animais mais comuns são vistas como iguarias por certas culturas, enquanto em outras são alvo de repulsa.
Podemos assim concluir que, de facto, é possível obter uma melhor compreensão da cultura e origem de um povo através da sua gastronomia, sejam os pratos ou o protocolo da refeição, tudo nos oferece detalhes sobre a vida dessa mesma cultura, a sua atitude em relação ao meio que a rodeia e a outras culturas. Agora, em jeitos de sugestão, não se limitem a visitar os restaurantes étnicos disponíveis, quando possivel, experimentem a comida feita por pessoas do país em questão, nada se compara à comida das mamãs e das avós, essa revela a verdadeira identidade culinária de cada região, nacional ou internacional. Experimentem, divirtam-se e deixem-se surpreender!
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