Internacionalização das Termas

Machete Ed. 643

Vítor Leal

A Termalistur tem uma nova administração. Vítor Leal é o novo presidente, tendo como seus “braços direitos” os vogais, Fernando Varanda Aido e Duke Alberto Oliveira. Em entrevista à Gazeta da Beira, o novo presidente fala-nos dos principais desafios paras os próximos oito anos. Vítor Leal regressa à Termalistur e vai ter de dar a volta à crise e inverter os resultados negativos da empresa. A internacionalização das Termas e a aposta na investigação científica são as principais apostas para este mandato.

Gazeta da Beira (GB): Foi o escolhido para dirigir a Termalistur. Porque é que aceitou o convite?

Vítor Leal (VL): Aceitei o convite, antes de mais, porque muito me honra ter sido convidado para uma tarefa destas. Eu estive desde o início na gerência da Termalistur, portanto, fui o primeiro administrador delegado da Termalistur em 2004, digamos que quase que criei esta casa e, depois de estar afastado durante três anos, penso que é o momento adequado para pegar de novo neste projecto, relançá-lo e colocar as Termas de São Pedro do Sul no local que nos achamos que merece. Actualmente, de paramo-nos com diversos problemas, a situação económico-financeira da empresa não é a melhor, e nesse sentido, penso que é um desafio aliciante. Há muito a fazer, temos muitos projectos para as Termas de São Pedro do Sul e penso que é o momento.

GB: Concorda com os estatutos actuais que indicam que a administração da empresa é feita através de nomeação. Um concurso público não seria mais justo?

VL: Esta questão não se coloca. A nomeação é feita de acordo com a lei, os estatutos vêm na sequência da legislação em que se enquadram as empresas municipais. Eu não tenho qualquer problema, nem me sinto minimamente minorado, pelo facto de ter sido nomeado, poderia perfeitamente ir a um concurso público, se esse fosse o entendimento. Penso que não faz sentido, nós vemos como é que se processam os concursos públicos que existem, são concursos “para inglês ver”, nomeadamente, os da administração central. O meu currículo e a minha experiência falam por mim e não teria qualquer problema de ir a concurso com quem quer que seja. Não conheço colega que tenha mais experiência do que eu na área da gestão termal empresarial local.

GB: Enquanto Presidente da Administração, quais os principais projectos que se propõe a executar?

VL: Nós temos um projecto, mas, primeiro teremos que dialogar com todos os intervenientes. Já o começamos a fazer, com os funcionários, com a direcção clínica, vamos fazê-lo, agora, brevemente, com os hoteleiros. Vamos procurar recolher opiniões, procurar recorrer ideias, para que, no final de Janeiro, possamos ter um projecto definido a oito anos. O que nós temos que fazer é definir um projecto que nos diga onde é que nós queremos colocar as Termas de São Pedro do Sul daqui a oito anos. Depois desse projecto estar definido, cada um tem que se sentir identificado e fazer a parte que lhe diz respeito.

GB: Mas já poderá avançar com as linhas gerais desse projecto?

VL: As ideias passam, claramente, por começar com a internacionalização das Termas, procurar novos mercados, não só europeus, mas também, a nível dos PALOP.  Para isso, é preciso um posicionamento novo e  novas atitudes no que diz respeito à Termalistur.  Esta nova estratégica, assenta, basicamente, em três grande polos que se interligam entre eles. Primeiro, o posicionamento interno da Termalistur: a organização, qualidade de serviço, novos tratamentos, novas organizações de dinâmicas internas, mais a nível da gestão. Outro tem que ver com o território, e aí já estamos a falar de uma parte mais política, mais sobre a Câmara Municipal que tem que ver com as intervenções que têm que ser feitas para melhorar  a qualidade do território da estância termal e as ofertas aos termalistas. E o último ponto,  que será certamente uma das nossa grandes apostas que é a investigação cientifica. Nós temos que dar às termas uma credibilização científica e médica, com estudos, universidades, com o desenvolvimento do laboratório.

GB: Nesse sentido, já começaram a fazer contactos com algumas universidades?

VL: Nestas três semanas, fizemos o levantamento de toda a situação, quer a situação económico-financeiro, quer a nível do que está protocolado, o que está a ser feito e já começámos a encetar alguns diálogos, nomeadamente com a Universidade da Beira Interior. Procuramos estabelecer uma parceria, que seja abrangente, que tenha uma componente clínica, portanto médica, mas que tenha também que ver com a parte hidrológica, geologia, markting e gestão, até porque, a área das Termas mexe com todas estas áreas de conhecimento, as quais, queremos canalizar para um centro de investigação. Basicamente, nós queremos chegar ao ponto em que São Pedro do Sul tenha um centro de investigação e conhecimento e que, também aí possamos ser líderes. O centro de investigação deve ser potenciador do conhecimento deste fenómeno de uma forma ímpar no país e na Europa.

GB: As Termas são um dos principais polos de desenvolvimento do concelho e da região. As potencialidades deste recurso natural estão a ser bem aproveitadas? Quais as principais lacunas actuais e o que mais pode ser feito para rentabilizar as termas, criar emprego e atrair turistas?

VL: Estamos a viver um momento muito complicado a nível do enquadramento económico do país, portanto, a crise afecta muito o sector. Nós continuamos, há cerca de uma década, com a mesma quota de mercado, na ordem dos 30%. No entanto, como o mercado encolheu muito, logicamente, o número de utentes que nos procura tem diminuído. Daí que, é necessário criar estas novas valências, para atingir e apostar em todo os nichos de mercado. Desde o termalismo clássico, mais massificado, para que as pessoas tenham todas condições de utilizar a preços acessíveis ao termalismo de topo, com uma oferta de serviços muito diferenciada e personalizada, pensada para uma classe média, alta. Nós temos que ter a capacidade de atingir todos os públicos. Depois, há ainda a parte do bem-estar termal, com tratamentos na área do relaxamento, massagens, SPA-termal…Outra aposta que vamos ter, vai ser na fisioterapia e reabilitação, queremos criar um centro de reabilitação, do melhor que pode existir no país, para situações mais agudas, ao mesmo tempo que, continuaremos a apostar na fisioterapia normal, como já existe. Portanto, se alcançarmos estes quatro patamares conseguiremos abranger um público muito mais diversificado.

GB: De 2003 até ao momento perderam-se cerca de 8 mil aquistas, ou seja cerca de 40%. Estes números são meramente justificados pela crise que estamos a viver?

VL: As Termas de São Pedro do Sul atingiram o seu pico, a nível estatístico, em 2003/2004, na ordem dos 24 mil aquistas, no ano passado fecharam com cerca de 16 mil, portanto, a quebra anda na ordem dos 8 mil aquistas. A quota  de mercado, contudo, mantém-se nos 30%. Isso não nos satisfaz, porque sendo nós líderes e tendo a capacidade instalada que temos, deveríamos ter resistido e aumentar a nossa quota de mercado por essa via. O que aconteceu é que nós acompanhámos a quebra, de igual modo, como acompanharam todos os nossos colegas. É por isso preciso avançar para outros mercados, para outras ofertas de posicionamento no mercado. Não podemos estar limitados ao mesmo tipo de termalismo, e ao mesmo tipo de oferta.

 

GB: Falou há pouco da importância de investir na investigação relativamente à Dermocosmética, há já projectos desenvolvidos?

VL: Em 2005/2006 foi lançado por mim, uma parceria com a Faculdade de Farmácia  da Universidade do Porto. Na altura, fizemos um candidatura a um centro de investigação, construiu-se o laboratório existente e começou-se a desenvolver toda esta parceria para desenvolver produtos cosméticos com  água termal. Quando saí, em final de 2010, o processo de formulação dos produtos, estava finalizado, portanto, a primeira gama, pelo menos, estava finalizada. No entanto, nunca foram fabricados, nunca existiram produtos. O que existiu foi uma apresentação de uma marca, do que se pretende, mas não existem produtos em termos palpáveis.

O que nós fizemos de imediato, foi recolher propostas de laboratórios, para o fabrico de produtos, portanto, estamos a analisar, neste momento, as propostas que temos e o que eu posso dizer é que, a primeira gama de produtos irá estar no mercado até à Primavera. Estamos na fase de fabricação dos produtos serão cinco/seis produtos que serão lançados no mercado e nesta fase estamos já a desenvolver mais três linhas dermocosméticas. Estamos ainda, na fase de investigação, de uma linha para homem, uma linha de cuidados de rosto e uma de cuidados anti-envelhecimento. Queremos procurar, até ao fim do ano, ter quatros linhas desenvolvidas prontas a ser fabricadas. Este processo deve ser tratado pelo centro de investigação que queremos tratar, com parceiros quer a nível da universidade quer, a nível de laboratório. Queremos construir em  São Pedro do Sul um ponto de investigação  sobre a água termal. Esperamos que durante o primeiro semestre do próximo ano, possamos ter essa incubadora de investigação a funcionar.

GB: Se as investigações já estão prontas há vários anos, porque é que os produtos ainda não estão no mercado, porque é que o processo é tão longo?

VL: Isto é uma área nova, ao contrário de muitas outras que já estão criadas, as chamadas linhas brancas a que dão, depois o nome, nós optámos por algo diferente. Optámos por investigar a própria água, saber quais eram as capacidades terapêuticas da água, como é que podemos fazer o aproveitamento da nossa água termal. É um processo complicado, que requer estudos de estabilidade, formulações, das quais, algumas, tiveram que ser alteradas ao longo do tempo. O processo para chegar à primeira formulação, até conseguirmos ter todas as formas possíveis, demorou cerca de quatro/cinco anos. Entretanto, durante este tempo, penso que não foi lançado o produto por falta de capacidade financeira.

GB: Ainda a nível da investigação, o que se pensa fazer a nível da Geotermia?

VL: A nível geotérmico o projecto é mais complexo, porque mexe com o aquífero, mexe com as capacidades que nós temos de utilizar o aquífero ou não. De momento temos um director técnico a fazer o levantamento exaustivo da situação, quer deste polo, aqui nas Termas, quer no polo do Vale, para procurar-mos saber qual é capacidade de instalar e qual é o aproveitamento que podemos ter. Depois, importa elaborarmos um projecto para candidatar a fundos europeus de desenvolvimento, na área da geotérmica e levar a geotermia a mais utilizadores do que se leva actualmente.

GB: Segundo o que foi noticiado esta semana, cerca de 111 empresas municipais podem fechar. Em causa estão, entre outros critérios, o facto de nos últimos três anos as empresas terem resultados operacionais negativos ou resultado líquido de exercício negativo. Tendo em conta que, no ano passado a Termalistur deu um prejuízo de 47 mil euros e que o ano de 2011, o qual não deu prejuízo, foi um ano excepcional, teme que a curto ou médio prazo esta empresa possa fechar? Quais as medidas previstas para evitar que a Termalistur dê prejuízo?

 

VL: A situação da Termalistur, em termos económico-financeiros, como é de conhecimento público, não é a melhor. Em 2013, possivelmente, iremos encerrar com os piores resultados líquidos de sempre. Os resultados que advêm de todo o enquadramento económico do país, mas também de algumas opções que foram tomadas. Eu deparei-me com uma receita de menos 6,5%, em relação a 2012 e um aumento de despesa na ordem dos 5%. Portanto o “mix” destas duas situações, certamente, vai dar um resultado negativo muito expressivo. Daí que é necessário estruturar toda a organização e todo o funcionamento interno. É isso que temos a fazer, estamos a criar condições para reestruturar todo o modo de funcionamento a nível de quadro pessoal, das chefias, das despesas, verificar quais os custos mais elevados, em que podemos poupar. Isto do lado da despesa, do lado da receita, temos que ir à procura de novos mercados, novos aquistas, tratamento novos para oferecer… tudo o que possa trazer mais receita. Com uma gestão eficaz, atenta que acompanhe o dia-a-dia, iremos conseguir voltar a resultados positivos a breve prazo.

GB: Já em 2014?

VL: A minha aposta, a minha vontade e todo o meu trabalho será para que 2014 seja já um ano com resultados líquidos positivos.

GB: Um dos problemas centrais das Termas é a sazonalidade. A uma época alta, no verão, sucede-se uma longa época com pouco movimento, o que prejudica toda a economia local. Como é que se pode contrariar esta sazonalidade?

VL: Nós temos um problema a nível nacional, o turismo é claramente sazonal e o termalismo, ainda muito mais. No Inverno, com o frio que se faz sentir, não é propício às pessoas virem as Termas. Neste sentido, é necessário procurar novos mercados, nomeadamente, o mercado nórdico e o mercado escandinavo, em que o clima do nosso Inverno, para eles é aprazível. Para isso, para que eles nos possam visitar, temos que ter condições de oferta de qualidade e importa apostar numa prestação de serviço diferenciada de outros locais da Europa. Ao mesmo tempo, teremos que  fazer algumas adaptações nos nossos balneários. Enquanto, na maior parte das estâncias termais europeias existem hotéis-balneário, São Pedro do Sul tem a particularidade de ter dois balneários, mas não ter hotéis. Isto é sempre um “handicap”, na medida em que obriga as pessoas a deslocar-se do hotel para o balneário. Assim, temos que encontrar soluções em pareceria com os hotéis, para conseguir fazer disto um desafio e conseguir resolver esse problema. Temos que encontrar soluções físicas para que as pessoas saiam do hotel e consigam entrar no balneário, directamente para as áreas dos tratamentos, sem haver contacto com o ar, com o frio e com o clima.  É esta  interligação que temos que fazer a breve prazo.

GB: A nível dos Recurso Humanos, vai ser possível manter os níveis de empregabilidade que a Termalistur tem hoje?

VL: Neste momento, a Termalistur encontra-se com 220 funcionários, deparamo-nos com algumas situações complicadas ao nível da contratação, porque tínhamos diversos funcionários, cerca de três dezenas, que não tinham completado os 130 dias necessários para recorrer o subsídio social de desemprego. Uma das nossas preocupações fundamentais, logo no início, foi encontrar condições e  um enquadramento legal para fazer renovações ou novos contratos a essas pessoas, que lhes permitisse ter a capacidade de recorrer ao subsídio social de desemprego.  Nós temos que entender que isto é uma empresa, que tem objectivos económico- financeiros, mas também tem uma responsabilidade social no concelho. Não seria minimamente aceitável que pessoas por seis/sete dias não pudessem ter este subsídio, pelo que vamos proceder à renovação desse contratos. É um custo assumido que certamente trará retorno para o concelho, assim as pessoas têm dinheiro que lhes permita investir no concelho. Nos próximos anos,  vamos ter que fazer algum ajustamento,  temos que tentar ao máximo criar condições, para que os concursos públicos  de recrutamento do pessoal sejam o mais aberto possíveis, e que se procure escolher as melhores pessoas, com as melhores capacidades, que possam prestar o melhor serviço possível a São Pedro do Sul.  Não  vai ser fácil conseguir manter níveis de empregabilidade que temos hoje, necessitamos urgentemente de voltar a resultados líquidos positivos e esse nosso objectivo também tem que passar por toda uma reestruturação interna.

GB: Estão previstos eventos paralelos que consigam chamar turistas às termas?

VL: Em finais de Janeiro, queremos apresentar todo o plano de desenvolvimento das Termas. Esse plano englobará também vários eventos. O importante é que todos os eventos tenham um fio condutor. Não se pode criar eventos só para criar eventos. Os eventos têm que ter objectivos. Ao mesmo tempo, em parceira com a Câmara Municipal, temos que procurar uma nova utilização do Campo de Gerós, tornando-o, mais aprazível mais dinâmico, com mais actividadades na área desportiva, na área do lazer, que permitam ter um tempo de funcionamento mais alargado. Importa que o Campo do Gerós seja interligado com o rio e com os percursos pedonais.

GB: O Festival da Água vai continuar? Em que moldes? Qual a importância deste evento para a promoção das termas e a atracão de novos públicos?

VL: O Festival da Água pode e deve ser um evento que pode acontecer nas Termas de São Pedro do Sul, mas não pode ser só um festival de artistas a tocar. O festival da água tem que ser algo mais, tem que envolver toda a parte da investigação, da apresentação do que são as Termas, da credibilização científica. Tem que ser um evento que coloque as Termas de São Pedro do Sul, enquanto ponto de referência a nível nacional e a nível europeu. A Termas de São Pedro do Sul têm que ser algo mais do que aquilo que têm sido.

ORGANIGRAMA

Notas Curriculares

* Victor Jorge Paiva Leal

Victor Leal é o novo Presidente do Conselho de Administração da Termalistur – a empresa municipal que gere as Termas de São Pedro do Sul – desde o passado dia 1 de Novembro.

Licenciado em Direito e Pós-Graduado em Direito do Emprego Público, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, e a terminar o Mestrado em Administração Pública Empresarial, pela mesma Faculdade, possui ainda Curso de Especialização sobre o Setor Empresarial Municipal; Programa Avançado para Gestores Municipais, pela Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa; Técnico Superior de Segurança e Higiene no Trabalho.

Durante 7 anos (de Janeiro de 2004 a Fevereiro de 2011), foi Administrador Delegado da Termalistur. Desde então, tem vindo a desenvolver a sua atividade profissional na Consultoria da área do Bem-estar, Termalismo e Saúde, assim como formação nas áreas do Direito, Recursos Humanos, Segurança e Higiene no Trabalho, Gestão e Finanças.

• Patrícia Fernandes

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 Na edição anterior (edição 642)

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