Rui Chã Madeira*
Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - Redação final
Mural de homenagem às mulheres do concelho de São Pedro do Sul e ao canto polifónico feminino, obra da artista plástica Margarida Fleming inaugurado no dia 3 de agosto de 2022.
A articulação de sons organizada de forma objetiva e formal ou delineada de forma subjetiva e despojada de propósito, acompanha os seres humanos desde a sua bípede existência. Antes da conceção da linguagem e consequente oralidade do pensamento, os sons avulsos, produzidos ou imitados, arcaicamente e contíguos ao movimento corporal, eram a única forma de comunicação. Este facto, expropriado da estéril retórica subsiste aos dias de hoje e de alguma forma, percetível ou obstrata, terá prosseguimento. A articulação coerente de sons, na contemporaneidade histórica e social, na emergência da pensante necessidade de classificar e significar, passou a designar-se como música, ou seja, uma coerente combinação sonora de ritmo, de harmonia e de melodia. A música, que com a incorporação de letras passou a designar-se como cantiga ou canção, indissociável ao construto cultura, foi destacada como forma primeira da expressão de um povo. Esse aglomerado de pessoas de um determinado território, utiliza a música e as cantigas como um transporte de transmissão da sua história, dos seus sentimentos, da sua identidade. Os cantares, veículo primordial de interpretação e transmissão de circunstâncias vitais, desde o nascimento à morte, do amor ao desgosto, da alegria à melancolia, serviram e ainda servem para unificar e identificar uma comunidade dando sentido ao seu folclore. Mais tarde, com o advento da massificação, as canções tornaram-se objeto mercantil de uma indústria altamente lucrativa. Não obstante, mesmo em ambientes aparentemente hostis, a essência dessas cantigas e dessas músicas, de forma resiliente ainda persiste. Durante vinte e nove publicações, que agora dou por concluído, o meu objetivo foi prestar o meu contributo para que a memória e a herança de uma região extremamente abastada em canto polifónico interpretado essencialmente por mulheres não desvaneça. Apesar do meu foco ter sido as cantigas de Manhouce e a sua principal protagonista, o concelho de São Pedro do Sul vai sucedendo essa herança por intermédio da egrégia persistência de muitas mulheres e muitos homens. Desde Figueiredo de Alva, atravessando Pindelo dos Milagres, descendo a Sobral de Pinho, transpondo Valadares e São Cristóvão de Lafões, subindo a Candal e depois seguindo para Manhouce, os elementos desses grupos, formais ou informais, vão mantendo acesa a esperança das tradições, do património que é imaterial, o qual, etimologicamente não é palpável, não tem forma, não se vê, só se ouve. Às portas da finalização do processo da deliberação do canto polifónico “Canto a vozes de mulheres” a património nacional imaterial e posteriormente da humanidade, importa referir que o processo, apesar de ser alargado ao território nacional, iniciou-se por gerência do pelouro da cultura da Câmara Municipal de São Pedro do Sul e da cantadeira Isabel Silvestre. Não obstante, no meu entendimento, a chancela da patrimonialização não deve ser entendida como o fim do processo, mas fundamentalmente como o início. Infelizmente, existem inúmeros patrimónios imateriais que após o desgaste natural da novidade simplesmente desaparecem, deixam de ter importância ou reconhecimento. Para que a herança do nosso canto polifónico subsista, urge definir medidas de salvaguarda as quais não devem ser consideradas suficientes através de efémeros apontamentos musicais ou culturais. Torna-se necessário desenvolver um plano concertado entre os protagonistas que ainda permanecem e os futuros que podem ser os portadores dessa herança. Partindo da premissa que tudo se transforma, os cantos polifónicos como agora são entendidos, sem castrar a sua essência, tal como no princípio, podem voltar a ser reinterpretados. Ao contrário do património material e natural que comporta uma forma, uma estrutura corpórea e indivisível, o património imaterial, dado a sua orgânica, não tem uma só aparência, pode ter várias configurações. Basta estar atento e ouvir.
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29/06/2023

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