EDITORIAL 850

Marega, Clóvis, Pepe, Vinícius Júnior…

Marega, Clóvis, Pepe, Vinícius Júnior…

O ataque racista ocorrido no passado domingo a Vinícius Júnior, avançado brasileiro do Real Madrid, insultado pelo público no Estádio Mestalla, em Valência, com sons e gestos a imitar macacos, transformou-se num caso político de âmbito internacional. O ódio racista expressou-se igualmente quando alguns adeptos penduraram pelo pescoço numa ponte um boneco com a camisola de Vinícius.

Os ministérios da Igualdade espanhol e brasileiro emitiram um comunicado conjunto em que, para além de manifestar solidariedade com Vinícius, refere que “o racismo é estrutural” em ambas as sociedades e que os acontecimentos de domingo “não são eventos isolados”. O El País, periódico espanhol de referência, dedicou na passada terça-feira quatro páginas ao assunto, referindo que todos os partidos condenaram o caso e, no Brasil, já é matéria de Estado, na sequência de uma declaração condenatória do ato pelo presidente Lula da Silva.

O impacto social que está a ter, demonstra que não se trata de um episódio circunstancial e limitado ao futebol espanhol. No nosso país têm acontecido com alguma frequência casos idênticos. Os mais mediatizados foram os de Marega, jogador do Porto, alvo de insultos racistas num jogo em Guimarães e que levou à punição por via judicial de alguns adeptos e do próprio clube vimaranense.

Recentemente, foi noticiada uma denúncia de Pepe acerca de um insulto racista vindo de um jogador da equipa adversária. Também o avançado brasileiro do Académico de Viseu, André Clóvis, denunciou ter sido alvo de insultos racistas por parte de adeptos no final de um jogo da II Liga no Estádio S. Luís, em Faro, no ano passado.

A Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD) regista uma média anual de 20 queixas por atos de racismo e xenofobia em recintos desportivos. Nos últimos quatro anos, foram condenadas 19 pessoas. Há uma lista demasiadamente vasta de ocorrências por ataques racistas e xenófobos, não apenas no futebol e nas competições entre adultos.

Estes números são importantes porque dão uma imagem aproximada destes comportamentos no desporto, mas desde que haja uma vítima há racismo e xenofobia, não podendo haver qualquer tolerância ou contemporização. Uma das críticas que está a circular em Espanha é sobre a falta de atuação e de medidas concretas das autoridades e da Federação de Futebol.

É evidente que estes fenómenos encontram-se para além do futebol, acontecem na sociedade e são estruturais, como é referido no comunicado conjunto dos governos de Espanha e do Brasil, e o que se passa nos recintos desportivos acaba por ser a expressão concentrada de uma abjeta discriminação de seres humanos pela cor da pele, raízes culturais ou origem geográfica.

Como ambicionamos por uma sociedade que respeite os Direitos Humanos, mais justa e sadia, mais igualitária e sem discriminações, estes fenómenos têm de ser combatidos, sem condescendência, no seio das famílias, na Escola e nos espaços de sociabilidade. Vinícius Júnior deu ao Mundo um exemplo de coragem neste combate. Como titulava um jornal desportivo de Madrid, “não basta não ser racista, é preciso ser-se antirracista.”

25/05/2023


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