Crónicas do Olheirão de Mario Pereira
Respeito, mas não me diz respeito

Mariana Mortágua, deputada e candidata a líder do Bloco de Esquerda, decidiu assumir publicamente que é homossexual. Não tenho nada contra nem a favor, essa orientação sexual. Contudo, se sua orientação sexual é um assunto que não me diz respeito nem me interessa, causa-me tristeza, que ela tenha sentido necessidade de a assumir publicamente no momento em que se candidata a líder do Bloco de Esquerda
Além do mais, porque pensando eu que dentro do Bloco de Esquerda a orientação sexual, há muito tempo, teria deixado de ser uma questão, não vejo a necessidade de Mariana Mortágua fazer uma cena igual à que fez Paulo Rangel, quando se candidatou à liderança do PSD.
No caso de Paulo Rangel eu entendo, porque durante toda a sua vida tinha tentado fazer-se passar por alinhado com os valores mais conservadores, e com essa declaração pública tentava que os seus adversários não usassem contra si esse aspeto da sua vida pessoal e, por acréscimo, mostrava coragem ao assumir-se perante eleitores potencialmente críticos da homossexualidade.
Esta declaração da Mariana Mortágua deixa-me na dúvida se para o Bloco de Esquerda as causas fraturantes foram apenas uma forma de ter palco mediático ou se correspondiam a convicções profundas.
As histórias da Mariana Mortágua e do Paulo Rangel talvez tenham mais semelhanças do que possa parecer, sugerindo que ao nível dos valores morais e crenças profundas haverá militantes e dirigentes do Bloco de Esquerda tão conservadores como os militantes de direita ou como os dirigentes do Partido Comunista, que, sistematicamente, alinham com os conservadores quando estão em causa valores morais.
Seria interessante discutir a relação da nossa esquerda com os valores morais, pois há pessoas que por serem alinhadas no ponto de vista da política e da economia com os partidos, tradicionalmente designados, de esquerda tendem a achar que, por consequência, são modernas do ponto de vista dos valores morais.
Isto resulta em boa parte de em Portugal o debate estar muito centrado na espuma da política e existirem poucos estudos sobre as nossas crenças profundas ou os valores morais em que acreditamos, por exemplo: o que pensamos das pessoas com outras orientações sexuais, outras raças, dos estrangeiros em geral, das formas legítimas ou não de enriquecer.
Esse debate seria muito benéfico para a política e a sociedade em geral pois ao tornar-nos mais conscientes dos nossos valores e crenças mais profundas ajudar-nos-ia a agir com coerência nas situações e momentos em que somos desafiados ou nos sentimos ameaçados e, por acréscimo, seria uma forma de combatermos o populismo político assente na exploração das emoções mais primárias.
11/05/2023

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