António Eloy
Fecharei a minha porta....
Fecharei a minha porta….
“O Desertor”*
Senhor Presidente/Escrevo-lhe esta carta/Que lereis talvez/Se tiverdes tempo.
Acabo de receber/Os meus documentos militares/Para ir para a guerra/Antes de quarta à noite.
Senhor Presidente/Não a quero fazer/Não estou na Terra/Para matar uns coitados.
Não é para o zangar/Mas tenho que lhe dizer/A minha decisão está tomada /Vou desertar.
Desde que nasci/Vi morrer o meu pai/Vi partirem os meus irmãos/E os meus filhos chorarem.
A minha mãe sofreu tanto/Que no seu túmulo/Despreza as bombas/E despreza os vermes.
Quando estive preso/Roubaram a minha mulher/Roubaram a minha alma/E todo o meu passado.
Amanhã bem cedo/Fecharei a minha porta /No nariz dos anos mortos/Irei pelos caminhos.
Mendigarei para viver/Pelas estradas de França/Da Bretanha à Provença/E gritarei às gentes:
“Recusai obedecer,/Recusai de a fazer,/Não ides à guerra,/Recusai partir”.
Se é preciso verter sangue/Ide dar o vosso/Já que sois bom apóstolo/Senhor Presidente.
E se me perseguires/Preveni os vossos guardas/Que não tenho armas/E que podem disparar”
*Boris Vian, tradução A.E.

Só com políticas se acaba com a guerra, que como dizia von Clausewitz é a continuação da política por outros meios…. Recordo a canção acima traduzida de Boris Vian, seja cantada pelo próprio seja por Regianni e como ficávamos com pele de galinha, antes do 25 de Abril, quando nos víamos, em breve, nessa situação.
Vivemos imerso nos discursos da guerra, de guerra. Não é possível defender a não violência, a recusa de combate, uma alternativa à guerra infinita em que estamos mergulhados sem qualquer bom senso, sem qualquer senso. Os jornais, e as televisões nem pensar, que até os locutores batem em que se atreva a sugerir que o caminho não é o de mais armas, mais armas, mais guerra (como foi o caso de Lula da Silva).
Mas tenho que vos dizer que não é, nunca foi, a guerra que irá pôr fim à guerra, e que só pela cabeça do ex-maoista e secretário geral da NATO ou do comediante alucinado (do outro lado está um agente do KGB, que não é, obviamente, senão pior!) passa pela cabeça que a Rússia irá perder a guerra.
Não, isso não é racional, nem sequer para eles mesmo. A Rússia tem um botão, e se não houver paz, ou seja diálogo, diálogo, diálogo e se não houver um cessar fogo e confrontos, mas verbais, e discussões, não se porá fim à guerra, eterna sem dúvida ou…E tal não é, de forma nenhuma uma cedência ao direito e à resistência, civil, desarmada, não violenta que essa sim pode evitar a destruição total (como se tem vindo a paulatinamente concretizar) da Ucrânia e um contributo fatal para as alterações climáticas e um maior poder do capitalismo financeiro articulado com as indústrias de guerra (e as da reconstrução, que são as mesmas!, depois de terem arrasado tudo).
Infelizmente vivemos tempos controlados pela Hegemonia, que temos caracterizado aqui, que domina os média, domina o poder, domina o discurso, constrói a realidade. Já aqui aconselhei o livro “1984” de G. Orwell, ao lê-lo parece que estamos a viver, com adaptações nesse mundo. A paz é a guerra, a liberdade é o pensamento único, e ser contra só merece prisão, tortura e silêncio, esquecimento. E temos medo, a sociedade tem medo de ser esconjurada, denunciada, apontada a dedo, a sociedade claro que não em geral, mas os indivíduos a compõem que desalinhem do padrão oficial imposto.
É notável que não se ouça (o caso do P.C.P. é um erro de “casting” ainda vive em meados do século passado, debaixo do “pensamento” de Brejnev) juntamente com a denúncia do imperialismo, estádio supremo do colonialismo e do capitalismo que esse enferma, com a denúncia do imperialismo russo, não se ouça uma defesa da não violência (tirando o Papa Francisco!, desseguido por todos os seus fieis e aduladores, que o ignoram no caso), e o enquadramento dessa na luta pelo clima (bem sei que andam para aí a mostrar os rabinhos em manobras de assédio, inúteis!), nem uma organização de ambiente ou de direitos civis se tenha levantado contra a guerra, pela paz e a não violência.
Dispersos os objectores de consciência e não violentos, também por cá, e resistentes à guerra vamos circulando mensagens, vamos procurando não ficar debaixo de terra, mas temos um circuito muito limitado. Mas vamos existindo. A hegemonia não gosta dos que não servem de carne para canhão, mas não, isso não, “dar o seu sangue… “
Voltemos ao “1984” com duas citações para meditarmos: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força” e “A massa mantém a marca, a marca mantém os média e os média controlam a massa.”
Um círculo vicioso, uma lógica de manipulação perfeita. Mas vamos metendo, por aqui e por ali pauzinhos na engrenagem. Em próximo artigo irei começar a contar alguns dos tantos, tantos que fomos metendo. E as “máquinas”, em muitos casos…. partiram-se! Em muitos.
11/05/2023

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