Graça Barão

Mário Cláudio - Apoteose dos Mártires

Consequência de uma infinda capacidade de escrita e de uma insaciável sede de leitura, que resultam, reiteradamente, para nós leitores, em escritos que não cessam de nos maravilhar, revela-se árdua a tarefa de apresentar o escritor Mário Claúdio. Autor de dezenas de obras, abarcando vários estilos (romance, novela, crónica, ensaio, poesia, teatro, biografia, entre outros), tem igualmente alcançado prémios de forma quase ininterrupta, de entre os quais o famigerado Grande Prémio de Romance e Novela, da APE, já por três vezes. A sua formação inicial foi em Direito, mas seria a Biblioteconomia e as Ciências Documentais que o seduziriam. É, contudo, a produção literária que sentimos ser o seu amor maior. “Quando a tarde passa, abre-se outra porta / Se o morcego voa, a estrela desponta / Ser de hoje ou de sempre, nada disso importa / Todo o tempo corre só por nossa conta //” (letra de um fado de sua autoria, interpretado por Carlos do Carmo).

Com a leitura de “Apoteose dos Mártires”, somos impelidos à interrogação: De que matéria é feito um mártir? Quando se inicia o processo de transformação de um ser comum, na pessoa capaz da máxima entrega aos outros, ao amor, a Deus? Será intuído ou porventura resultado de um processo de problematização mais ou menos profunda sobre a espiritualidade que entendemos assumir? Tomás, que transitará de militar a carmelita descalço, já em criança seguia vontades, sentia motivações que não entendia (“Sempre misteriosos, os dedos de uma criança apontam, quando Deus quer, sentidos determinantes.”). Por seu lado, Pierre, ainda que ambicionando a tarefa de grumete e preso ao porto, era amiúde acometido pela “urgência de subir à Capela de Nossa Senhora da Graça”, “pela ânsia de rezar.” Para ambos um percurso ficcionado, mas um destino anunciado.

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