Com António Souto – A propósito de Abril…
Reflexões Partilhadas

• Paula Jorge
Dou continuidade a esta rubrica, confessando ao amigo leitor que, não só gosto de escrever, como também aprecio ler o que se vai escrevendo com alguma crítica e criatividade. Deste modo, vou percorrendo as redes sociais e a comunicação social, em geral, para tentar, também eu, aumentar as perspetivas e visões de vida, que nos permitem melhorar enquanto seres humanos. Viver focados no nosso umbigo não nos deixa perceber que existem opiniões à nossa volta tão válidas e importantes quanto as nossas. Espero que estas reflexões possam ser do vosso agrado e contribuam para o vosso engrandecimento. Aguardo feedback dos leitores.
Apresento o escritor António Souto de Castro Daire, que no passado dia 7 de abril de 2023, no Facebook, escrevia assim:
“ESTAVA UM DIA MUITO LINDO E HAVIA MUITA GENTE NAS VARANDAS
Este título faz por estes dias 50 anos. Podia muito bem ter sido escrito por um aluno da terceira classe (como então se dizia) para encabeçar a sua inspirada redacção sobre a Primavera. No entanto, não obstante a aparência tão inocente e infantil, este título, em grandes parangonas e caracteres grossos, encheu de lado a lado uma página do Diário de Notícias, em 1973. O texto que acompanhava este “ESTAVA UM DIA MUITO LINDO E HAVIA MUITA GENTE NAS VARANDAS” era um retrato idílico, quase poético, da linda manhã de Abril que o repórter testemunhara junto à ria de Aveiro (era Domingo, dia 8). Matéria suficiente para justificar uma notícia? O teor inócuo da descrição não fez soar os alarmes da censura prévia (ou “Exame Prévio”, como eufemisticamente a designava a primavera marcelista). Assim sendo, o texto saiu incólume no jornal, inatingido pelo lápis azul, porque os censores não primavam pela sagacidade e eram comprovadamente imunes às subtilezas da ironia.
Explique-se, então, o preâmbulo deste episódio. 8 de Abril de 1973, para além de ser a data do falecimento de Pablo Picasso, um dos mais importantes artistas plásticos do século XX, era também o último dia do III Congresso da Oposição Democrática, que decorria na cidade de Aveiro. Ao longo dos dias anteriores, as oposições ao Estado Novo (umas perseguidas, outras toleradas) tinham reunido, debatido, apresentado teses de mudança para o futuro e, sobretudo, exigido o fim de uma guerra colonial que sangrava o país e a emergência da conquista de uma efectiva liberdade democrática. O denominador comum das diferentes sensibilidades políticas presentes era o anti-fascismo: todos pretendiam o fim do regime opressor e brutal.
Voltando ao dia de encerramento do Congresso, 8 de Abril. O programa incluía uma romagem ao túmulo de Mário Sacramento, o grande obreiro dos anteriores Congressos Republicanos de 1957 e 1968 (em cuja organização este médico, escritor, militante comunista e incansável opositor ao regime se distinguira como figura de proa). Apesar de ter falecido quatro anos antes, a sua presença fazia-se sentir ainda naquela terceira edição do Congresso, em 1973. A anunciada romagem até ao túmulo foi prontamente proibida pelas autoridades locais, pelo risco de “alteração da ordem pública”. Ainda assim, num acto de grande coragem e que acabaria por representar uma das mais marcantes iniciativas da resistência anti-fascista, os seus organizadores não desmobilizaram e tentaram mesmo concretizá-la.
Estava, então, uma linda manhã de Primavera, naquele Domingo em que o cortejo pacífico começou a rumar ao cemitério de Aveiro. Centenas de pessoas, vindas de vários pontos do país (apesar do cordão policial, em torno da cidade, ter impedido o acesso a muitas mais) marchavam em silêncio, por entre uma multidão de simples transeuntes, famílias, crianças e velhinhos que por ali passeavam. Durou pouco a marcha, porque logo foi alvo de uma agressão brutal desencadeada pela polícia de choque. A manhã continuou soalheira, apesar da chuva de cacetadas que se abateu sobre a multidão. À força de espancamentos, o regime logrou impedir a romagem, mostrando ao país e ao mundo a sua face real e cruel. Muita tinta correu, a nível internacional, a propósito das agressões de que foram alvo alguns jornalistas estrangeiros que estavam em Aveiro a cobrir o Congresso. Uma senhora jornalista suíça, já sexagenária, que aterrara em Portugal com dúvidas sobre o carácter ditatorial de um governo que, afinal, até permitia congressos às oposições, regressou a terra helvéticas de cabeça enfaixada e braço ao peito, claramente mais bem esclarecida sobre como, por cá, se violavam os mais elementares princípios do direito à liberdade de imprensa, entre tantos e tantos outros.
E assim regressamos ao início, ao Diário de Notícias. Naquele tempo, para os jornalistas portugueses era muito difícil conseguir passar a mensagem daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos. A censura significava, para além dos textos severamente cortados, fotos aprendidas, telefones sob escuta e um clima permanente de pressão e ameaça. O jornalista do DN que esteve na rua, naquela manhã de Domingo, e foi testemunha ocular do evento, descreveu com grande emoção e realismo a gravidade da carga policial que tudo e todos tinha levado à frente. Contudo, apenas lhe concederam um cantinho de uma página do jornal e uma notícia tão diminuta e genérica, face ao sucedido, que até o título se resumiu a um discreto “Incidentes em Aveiro”. Como forma de manifestar o seu desagrado (e num acto de contida insubmissão), a redacção do jornal tentou a sua sorte e, num teste à censura, colocou na mesma página, logo em baixo, com um tamanho superior ao da verdadeira notícia, um texto quase poético que, nada dizendo, tanto dizia, afinal.
Intitulava-se “ESTAVA UM DIA MUITO LINDO E HAVIA MUITA GENTE NAS VARANDAS”.
Em “Também há Cores na Escuridão”, obra que retrata esses duros anos, um dos protagonistas refere-se deste modo, numa carta escrita na 1ª pessoa, ao “III Congresso da Oposição Democrática”, em Aveiro:
“Sabes aquela espécie de provérbio que agora se usa, “Se a vida só te dá limões…”? Pois bem, adequando àquela época, o meu pensamento foi: se a vida é tão madrasta que só te dá esse tipo de citrinos – única e exclusivamente limões – usa-os para fazeres pontaria à cabeça daqueles que, estando com os cestos a abarrotar de sumarentas laranjas, não se dignam a partilhá-las contigo. Entendes? Era preciso agir.
Esse congresso de 73, em Aveiro, foi uma etapa importante e a prova da movimentação democrática crescente no país: confluíram socialistas, comunistas, católicos progressistas, democratas independentes e até monárquicos. Todos irmanados na generosidade individual, no desinteresse pessoal, no espírito unitário. Houve uma mobilização sem precedentes em torno da organização dos trabalhos, da elaboração das duzentas teses e do debate dos problemas. Não esquecendo a coragem acérrima de todos: congressistas, jornalistas estrangeiros e até simples transeuntes foram selvaticamente atacados à bastonada pela polícia de choque, à entrada do Cine-Teatro. E as autoridades ainda conseguiram evitar a chegada de milhares de manifestantes, através de bloqueio de estradas, rusgas para identificação de passageiros em carreiras e comboios, até encerrando o Parque de Campismo de Aveiro, para impedir a juventude e a classe trabalhadora de terem onde ficar! Nesses cinco dias, a cidade foi cercada pelo exercício da violência das autoridades contra o povo pacífico e indefeso, mas este não virou a cara à luta, contra as forças da repressão.”
Uma Boa e Santa Páscoa para todos!”
13/04/2023

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