Crónicas do Olheirão de Mário Pereira
Saudáveis e rentáveis

Há dias, numa entrevista, o Dr. Vítor Bento, Presidente da Associação de Portuguesa de Bancos, dizia que “devia ser motivo de satisfação termos bancos saudáveis e rentáveis”.
Nada contra que sejam rentáveis e tudo a favor de que sejam saudáveis. Convém no entanto esclarecer o que entendemos por bancos saudáveis e rentáveis.
Supõe-se que os bancos rentáveis deem lucro para os seus acionistas, paguem os impostos devidos, mas também que assegurem rentabilidade a quem lhes empresta o seu dinheiro: os depositantes.
Infelizmente, os “grandes gestores” de que o Dr. Vítor Bento é um exemplo pensam apenas na rentabilidade dos acionistas, com o argumento de que quem lhes paga são os donos dos bancos.
Contudo, a experiência mostra que os bancos quando deixam de ter depositantes, embora continuem a ter donos, costumam deixar de pagar aos gestores, de onde podemos concluir que quem paga os salários dos gestores são, afinal, os depositantes e não os donos.
Não podemos falar de organizações saudáveis, pelo menos do ponto de vista moral, quando os bancos têm dois pesos e duas medidas conforme se trata de aumentar as taxas dos juros que cobram a quem lhe pede dinheiro ou de aumentar os juros que pagam aos depositantes.
Sempre ouvi dizer que o grande capital dos bancos é confiança dos depositantes e não propriamente o dinheiro dos investidores e eu gostaria muito de poder confiar nos bancos, mas isso depende das ações dos gestores e não das minhas.
O único poder que os depositantes têm é mudar o dinheiro de um banco para outro, mas a experiência popular responde a isso com o ditado “ muda de moleiro, mas ….”
Infelizmente os bancos continuam a ter práticas muito questionáveis. Um exemplo elucidativo dessas más práticas foi-me contado por pessoa amiga, que há dias recebeu um telefonema da agência da Caixa Geral de Depósitos de Oliveira de Frades a dizer-lhe que tinha um crédito de 20 000€, que não pediu, pré aprovado para gastar no que quisesse.
Com os níveis de literacia financeira que temos estas práticas soam a aliciamento e podem ter efeitos muito danosos para muitas famílias que assim se metem em despesas só porque o dinheiro está disponível, sem saberem que acima de tudo estão a contribui para os lucros da CGD e os prémios do funcionário e dos gestores.
Para termos ideia de como isto é perigoso, conto o que me disse um amigo, que negoceia em carros usados. Dizia-me ele que é frequente ser abordado por pessoas que procuram um carro de cerca de 5 000€, que poderiam pagar, mas que, quando sabem que podem ter um crédito, acabam por optar por um carro de 15 000€, sem fazerem contas às despesas futuras.
Meu caro Dr. Vitor Bento, cabe a si e aos seus colegas gestores darem-nos razões de satisfação com os bancos que operam em Portugal, mas não nos peça para nos sentirmos satisfeitos, com o BPN, o BES, o FANIF ou com os esquemas que aconteceram no BCP e na CGD, além de outros buracos por onde o nosso dinheiro se sumiu.
30/03/2023

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