CRI / ASSOL
“Vamos lá passear...”

Naquela manhã, tínhamos programado desenvolver competências num contexto natural. Preparámos a I. e ao aproximarmo-nos do portão da escola, voltámos a ouvir aquela questão: “Vão passear?”. Sorrimos e confirmámos, mas será que íamos “apenas” passear?
Seguimos o nosso caminho, procurando fazê-lo sempre nos passeios existentes e ao aproximarmo-nos das passadeiras, lembrávamos a I. dos cuidados que deve ter antes de atravessar a estrada. Assim, promovemos a segurança e a autonomia desta adolescente nas deslocações diárias.
Pelo caminho, íamos-lhe perguntando como tinha corrido o seu dia anterior na escola, como estava a sua família e os seus amigos, tendo em atenção o seu estado emocional. Desta forma, contribuímos para o fortalecimento da nossa relação e auscultámos as suas eventuais preocupações, através de uma conversa natural.
Chegadas ao café, sentámo-nos na mesa que ela escolheu e perguntámos-lhe o que desejava comer ou beber, preparando-a para ser ela a fazer o pedido, promovendo a autodeterminação e incentivando a sua autonomia, de forma a que se sentisse segura e capaz de aceder aos serviços da comunidade.
Durante o nosso lanche, apercebíamo-nos de alguns olhares e comentários das mesas ao nosso lado. Será que nunca tinham visto duas pessoas a lanchar? Com isto, favorecemos o sentimento de pertença da I., (situação comum que poderá replicar em conjunto com o seu grupo de pares) e ao mesmo tempo contribuímos para o enriquecimento daquela comunidade com a diversidade.
No fim, não podíamos ir embora sem pagar! Incentivámos a I. a pedir a conta e assim que soubemos o valor, dispusemos as moedas e as notas em cima da mesa, para que ela realizasse o pagamento. Pretendia-se reforçar a sua autonomia e estimular mais uma competência funcional: a gestão do dinheiro.
De regresso à escola, íamos felizes e de barriga cheia! Chegadas ao recinto escolar, ouvimos novamente a questão, “Então o passeio foi bom?”
Quais as vantagens de os apoios serem dados nos contextos naturais?
Lou Brown, já em 1989, dizia que a funcionalidade significa, nos anos terminais da escolaridade, uma preocupação acrescida com a preparação do aluno para que possa “atuar tanto independentemente quanto possível numa vasta gama de ambientes comunitários”, acrescentando que se trata de ensinar ao aluno coisas que se ele fizer, alguém deixa de fazer por ele.
Os apoios, no ensino funcional, procuram, por um lado aumentar o potencial de cada pessoa, mas por outro lado atuar nos contextos para facilitar a interação entre a pessoa e o contexto.
Para além das saídas à comunidade, (ilustradas no exemplo acima apresentado) a equipa do CRI da ASSOL procura prestar os seus apoios noutros contextos naturais, como os estágios em locais da comunidade e apoios fora da sala de aula, como por exemplo nos intervalos. É importante assim que a intervenção educativa favoreça a rede de relações de amizade do aluno, o sentimento de pertença e a capacidade de utilizar os serviços necessários para uma vida plena de cidadania.
Os apoios do CRI, são apoios para a vida e não apenas apoios à aprendizagem escolar.
16/03/2023

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