Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Requentado

O Presidente da República, numa entrevista à RTP, disse, entre outras coisas, que a maioria de António Costa era uma maioria requentada, basicamente porque veio na continuidade de uma maioria anterior.

António Costa não me paga para o defender e o que vou tentar escrever não tem a ver com essa política, mas sim com uma irritação pessoal, porque não me parece que haja alguma diferença em termos de frescura entre a maioria do Costa e a do Marcelo.

Marcelo Rebelo de Sousa tem, sem dúvida, o dom de perceber o que sentem a maioria dos portugueses ou pelo menos o dom de apanhar o sentido das notícias que vão saindo na comunicação social ou não tenha sido ele jornalista do Expresso e depois comentador na televisão e, em ambos os papéis, especializado na análise da situação política e muitas vezes em criar “factos políticos” com as suas análises e notícias.

É uma evidência que Marcelo está, ativamente, empenhado em usar a sua maioria para criar problemas à maioria do Costa, e não propriamente para ajudar a resolver os nossos problemas e não me parece que esse seja o papel que lhe cabe.

Marcelo gosta de dar voz a várias causas, mas sinto que, regra geral, ele gosta de apoiar as causas que aparecem nos telejornais e que soam populares. Um exemplo disto é o apoio à luta dos professores, que de certeza não proclamaria na televisão se o governo fosse do PSD.

Admiro a preocupação do nosso Presidente com os salários dos professores que educam as nossas crianças e jovens, mas gostaria de lhe perguntar se ele faz alguma ideia de contam ganham as pessoas que cuidam dos nossos idosos. Terá ele alguma noção das tabelas salariais dos contratos coletivos de trabalho do setor social?

Acredito que não, porque se ele acha que deve aparecer na televisão a defender as carreiras salariais dos professores, se ele soubesse quanto ganham as pessoas com formação similar aos professores no setor social ou que há lares de idosos onde 80% das trabalhadoras ganham o salário mínimo a sua indignação, para ser proporcional, levá-lo-ia a desfilar nu do Marquês de Pombal ao Terreiro do Paço.

Só uma nota para os sindicatos dos professores, que também têm responsabilidade nesta situação, pois assinam os contratos coletivos de trabalho do setor social, mas fizeram questão de ter uma tabela especial para os professores e afins, que basicamente começa onde as carreiras dos outros técnicos com igual formação acabam.

Diga-se também que esta situação se deve também ao peso da igreja católica neste setor, onde vai impondo a ideia de que trabalhar no setor social implica uma opção pessoal por viver com um salário baixo, ideia que é muito conveniente ao orçamento de estado, que assim precisa de financiar menos este setor.

Eu gostava só de pedir aos professores, médicos, pilotos da TAP, maquinistas da CP e outros grupos profissionais, que se julgam mal pagos, que se lembrem de que as trabalhadoras (porque são mulheres numa maioria muito maior que a maioria requentada do Costa) que cuidam dos vossos pais ou avós nos lares ou no apoio domiciliário, ganham o salário mínimo, que neste momento é de 760€.

Reconheça-se que valor “fantástico” se deve aos aumentos decididos pelo governo da maioria requentada do António Costa

Como os trabalhadores das IPSS e Misericórdias não fazem greves, nem vão para a rua desfilar, o Presidente da República ainda não teve oportunidade de lhe expressar a sua preocupação com a sua situação salarial.

16/03/2023


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