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A Educação em Pequenas Histórias - Nunca fui boa a matemática

Lá ia eu, naquela terça-feira de manhã, como de costume. Embora fosse outono, nada fazia prever que naquela manhã as nuvens se juntassem, de forma tão articulada e veloz para darem origem a uma bela chuvada. Chego à porta da tua escola. A chuva caía de forma calma, mas cerrada. Respirei fundo… vamos lá!!! Valha-me o casaco fino, mas com carapuço, pode ser que ao menos não molhe a cabeça, visto que o guarda-chuva deixou, já há uns anos, de ser um acessório elegível para quem tem de levar mochila, pasta e carteira.

Ao chegar a funcionária sorri e diz:

– “Bom dia! Já liguei o aquecedor na sua sala!”. Um doce de senhora, muito prestável, que todas as semanas arranjava, o melhor que podia, “a minha sala”, que não era mais do que uma mesa no hall, entre a entrada principal e a sala de aulas.

Agradeci com um bom dia e um sorriso rasgado! Sacudi o casaco, os ténis estavam irremediavelmente molhados, tal como os pés, mas havia aquecedor (graças à gentileza da simpática auxiliar).

Os ânimos dentro da sala estavam exaltados. Bati à porta. A professora autorizou-me a entrar. Estava visivelmente zangada.: – “Ainda bem que aí vem!” – disse ela, com aspereza. E eu pensei… O que terá sido desta vez?! E o desabafo começou, sobre tudo o que o aluno que acompanho tinha feito de errado naquela manhã…. Percebi que, devido ao mau comportamento, tinha ficado sem intervalo.

“Compreendo professora, falamos depois, pode ser?”, na esperança de acalmar os ânimos e poder conversar com ela depois, de forma mais privada.

Seguimos juntos para “a minha sala”. Perguntei-te se querias conversar. Acenaste com a cabeça em sinal de negação. Eu respeitei. Demos seguimento à sessão. Para terminar e depois de ter perdido o jogo naquele dia… tal como em outros dias já passados… confessei-te que, para além de não ter sorte ao jogo, também nunca fui muito boa aluna a matemática…

Depois desta revelação o teu comentário foi automático: “Já viste que não és boa em nada?! Perdes sempre os jogos e não percebes nada de matemática!” E as tuas palavras chegaram até mim em forma de reflexão…. Realmente as crianças são esponjas e espelhos… acabaste por fazer uma observação semelhante às que te fazem a ti…

Olhei-te nos olhos com carinho e a sorrir: “Isso é que era bom! Eu sou boa em muitas coisas… sou ótima a desenhar, tenho uma letra bonita e faço bolos deliciosos. Vou trazer-te uma fatia para provares!”. E lá seguiste tu até à sala… e eu voltei para o meu carro, pronta a iniciar mais uma viagem até nova paragem…

Faltou-me dizer-te que todos nós temos talentos, mesmo que ninguém os veja.

Que todos nós somos bons a fazer alguma coisa, mesmo que ninguém valorize.

Que todos nós estamos neste mundo para lhe acrescentar valor…

E que mesmo que haja muitas coisas em que não somos bons, essas coisas não apagam aquelas em que somos brilhantes…

E que ninguém é bom em tudo… e está tudo bem….

Senti que ficaram coisas por dizer… Talvez falemos disso enquanto provares a fatia de bolo que te vou trazer para a semana… e aí sim, possamos conversar sobre os teus talentos … até porque eu já te descobri uns quantos.

23/02/2023


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