Crónicas de Olheirão por Mário Pereira

O azar dela foi ir para a política

O ano de 2022 terminou com a história da demissão da Dra. Alexandra Reis de Secretária de Estado do Tesouro, porque se soube que tinha recebido uma indemnização de meio milhão de euros para deixar a administração da TAP, arrastando consigo o Ministro Pedro Nuno Santos.

A legalidade da indemnização é secundária face aos problemas morais e éticos e o facto de não ser claramente ilegal só mostra como a leis são mal feitas.

A indemnização é imoral, mas é também um símbolo das desigualdades e dos privilégios a que um grupo de pessoas acha que tem direito.

A situação é tão habitual que foi o escritório de advogados de que é sócio um tal Dr. Pedro Rebelo de Sousa a negociar com TAP em nome da Dra. Alexandra.

Estes comportamentos são tão normais que as pessoas nem pensam nos riscos que correm ou aventurarem-se na política, esquecendo que há muita gente, por inveja ou vingança, pronta a contar as histórias.

A situação da Dra. Alexandra Reis só mereceu atenção quando foi nomeada Secretária de Estado, mas ao que parece toda a gente em Lisboa já sabia da história. O que antes era aceite tornou-se um problema quando entrou na política, o que evidencia que estamos a aplicar aos políticos códigos morais e éticos que não exigimos a nós próprios nem a qualquer cidadão que não se meta na política.

Devemos ser exigentes, mas não devemos deitar demasiadas achas nesta fogueira, porque a manter-se o padrão de exigência não tenho a certeza que o PSD um dia consiga formar governo, se calhar os problemas começariam logo com o possível candidato a primeiro-ministro, sobre quem não faltariam notícias a lembrar pecados que tenha cometido ou não.

Não podemos voltar ao tempo em que ninguém falava mal do Sr. Ministro, mas também não podemos caminhar para um tempo em que as exigências para ser ministro ou político são tais que nem um anjinho as satisfaz.

Este ambiente é muito perigoso e interessa aos populistas, pois fará com que venham para política apenas pessoas como Trump ou Bolsonaro, que não se preocupam com detalhes morais nem com a verdade e são bons a manipular as emoções das pessoas.

Este seria o ambiente ideal para os grandes beneficiários das desigualdades sociais em que vivemos e que aos poucos tem vindo a conseguir inculcar na opinião pública a ideia de que os políticos é que são culpados das desgraças todas, enquanto vão tratando da sua vidinha e financiando os partidos populistas, por serem mais amigos dos negócios e das negociatas.

Quando se diz que os políticos ganham muito, o Expresso, do dia 5, conta que a TAP tem 63 diretores (tantos como o governo) cujos salários vão dos 5000€ até aos 14 500€.

Em suma, qualquer diretor da TAP ganha mais do que um Ministro, Secretário de Estado ou deputado e a maioria mesmo mais do que o Primeiro-ministro ou o Presidente da República. Poderia dizer-se que são mais competentes, mas ao que vemos a TAP está pior que o país. Se alguém acha que isto está certo…

Neste clima, a proposta do Bloco de Esquerda para que haja uma relação entre os salários dos trabalhadores e dos administradores das empresas, só peca por tardia.

12/01/2023


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