EDITORIAL 841

Sangria emigratória de portugueses continua

Sangria emigratória de portugueses continua

As consequências do crescimento da emigração afetam a economia e a demografia do país no seu todo, mas tem um efeito dramático nas regiões do interior e nos concelhos onde a perda de músculo económico e demográfico se acentua ano após ano, como é o caso dos municípios de Lafões.

O recente Relatório da Emigração 2021, com dados recolhidos pelo Observatório da Emigração – um centro de investigação do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa em parceria com o Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, indica que cerca de 60 mil portugueses emigraram em 2021, mais 15 mil do que no ano anterior.

A quebra verificada em 2020 parece ter resultado principalmente dos condicionalismos colocados à circulação de pessoas pela pandemia de covid-19 e pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Esta quebra rondou os 44%, entre 2019 e 2020, e suscitou a hipótese de, pelo menos em parte, ser resultado de uma mudança estrutural na tendência migratória portuguesa.

Porém, esta hipótese começou a ser colocada em causa com os níveis de recuperação da emigração verificada já em 2021. Entre 2020 e 2021, o movimento de pessoas para fora do país à procura de trabalho cresceu 33% o que parece desenhar uma tendência que aproxima os valores desse movimento dos níveis pré-pandemia.

Os autores do relatório consideram que dado os efeitos prolongados do Brexit, que equivalem a uma barreira à emigração para o Reino Unido, um dos destinos preferidos dos portugueses (lembremo-nos da massiva emigração de enfermeiros para os hospitais britânicos), a recuperação dos níveis migratórios pré-pandémicos poderá ser mais lenta ou até estabilizar numa primeira fase.

Segundo dados das Nações Unidas em 2022, Portugal, apesar de ter uma população relativamente pequena, é o oitavo país do mundo com mais emigrantes, cerca de 2,6 milhões de emigrantes, mais de um quarto da população residente.

Os dados do Observatório referem que, no último ano, o Reino Unido liderou os destinos dos emigrantes portugueses (12 mil entradas), seguindo-se a Espanha (8 mil), Suíça (8 mil), França (6 mil) e Alemanha (6 mil), em geral pessoas jovens e em idade ativa.

O problema é claramente estrutural e de âmbito nacional. Sendo certo que cada vez formamos mais pessoas com qualificações médias e superiores, a verdade é que a nossa economia não consegue aproveitá-las. Um país de baixos salários, com um custo de vida que se aproxima do existente noutros países da Europa – por exemplo, estamos entre os países europeus em que o preço da habitação mais subiu na última década – e onde grassa a precariedade laboral, a emigração dos mais jovens é aliciante, apesar de significar afastamento das suas raízes sociais e familiares.

Precisamos de resolver este problema. A perda de poder de compra a que estamos a assistir, com atualizações salarias significativamente abaixo da inflação, não nos dá bons indicadores. O facto é que esta sangria migratória empobrece a todos os níveis os nossos territórios.

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