Entrevista a Regina Maria Rocha

Escritora e Senhora da Cultura

“Gente Que Ousa Fazer”

 Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

“Adoro partilhar a minha vida entre a minha casa e as Termas de S. Pedro do Sul, mais propriamente o Grande Hotel Thermas, lugar onde muitas amizades tenho conquistado. Mais uma terra adotiva que faz parte da minha vida.”

Ficha Biográfica

Nome: Regina Maria de Carvalho do Vale Costa de Azevedo Rocha

Idade: A bater as sete décadas

Onde vive: Natural de Lisboa, residente no distrito de Viseu, concelho de Cinfães, freguesia de Souselo

Profissão: Inspetora do Ministério da Educação (aposentada)

Livro: INDEPENDENTE. DEMENTE de Miguel Esteves Cardoso, com prefácio de Paulo Portas. No entanto, os meus escritores de eleição são Eça de Queiroz e o poeta, Fernando Pessoa.

Música: “Como é Grande o Meu Amor por Você” de Roberto Carlos (para mim esta canção tem um sabor especial).

Destino de sonho: Ter saúde, amar e ser amada pela família, amigos e por quem me quer bem e como será evidente, ser feliz.

Personalidade que admira: Papa Francisco.

 

Muito obrigada, Regina Rocha, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Regina Maria de Carvalho do Vale Costa de Azevedo Rocha (RR) – O meu percurso académico foi bastante diversificado e carregado de emoções, experiências e muitas aprendizagens. Iniciei a minha vida académica quando contava os meus cinco ou seis anitos, no Colégio Esperança, na cidade de Lisboa, quando ainda o ensino pré-escolar não era obrigatório, mas que na verdade já existia para uma faixa social muito restrita. Em Paço d’ Arcos, vila situada na Linha de Cascais, completei os dois primeiros anos do ensino primário na escola pública, Dionísio Matias. Terminada a segunda classe, hoje segundo ano de escolaridade, quis o destino que eu rumasse até terras do Índico, para a cidade da Beira, Moçambique, onde completei o primeiro ciclo do ensino básico, a quarta classe de então. Seguiu-se mais uma mudança e na cidade de Quelimane, capital na província da Zambézia, iniciei a minha vida de liceu, completando aí o antigo quinto ano dos liceus, hoje nono ano. Mais uma mudança, de regresso à minha terra de origem e no Liceu de Oeiras na linha de Cascais completei o antigo sétimo ano dos liceus, hoje designado por ensino secundário, ou décimo segundo ano de escolaridade, na área de letras mais propriamente, área de História. Depois cursei na Escola do Magistério Primário do Porto (ESSE) – Formação superior na área de Metodologia para o ensino nas Escolas do Magistério Primário, “ESE ME”; Formação Superior na área de Ciências da Educação /História. ” ESE ME”; Formação na F C D E F na área de Desporto Escolar; Formação Superior Didático /Pedagógica e Jurídica para a integração na Inspeção Geral da Educação (IGE ME). Ao longo do percurso profissional, foram diversas as formações que frequentei com resultados satisfatórios, sempre com o objetivo de acompanhar a evolução dos tempos para o melhor cumprimento das minhas funções na área do ensino e outras.

Percurso profissional – Iniciei a minha atividade profissional no ano de mil novecentos e sessenta e nove /setenta, do século passado, como docente da Escola do Magistério Primário do Porto, na área da Metodologia e Didática. No ano de mil novecentos e setenta e seis, fui suspensa da minha atividade profissional da E M P do Porto, e depois de exercer funções de docência e de direção nas escolas no concelho de Santo Tirso e Maia, fui nomeada Coordenadora do Desporto Escolar, no concelho da Maia, função que exerci até ao ano de mil novecentos e oitenta e seis. Nesse ano (1986), um novo desafio se impunha na área profissional. A Integração e início de funções inspetivas no quadro profissional da Inspeção Geral da Educação do M E, até ao ano de dois mil e oito, data em que me aposentei como Inspetora Principal. Em paralelo ao meu percurso académico e profissional e pessoal, não poderei deixar de referir a minha entrega a causas de solidariedade e à política ao longo do meu percurso de vida, sempre com o objetivo de contribuir para um mundo melhor, reinando o amor, a paz e a esperança no futuro. Assim sendo, no decurso do ano de mil novecentos e noventa e seis um novo desafio me foi proposto.

A Política – Candidata independente, apoiada por um partido político, fui cabeça de lista como candidata a Presidente da Câmara do Concelho de Castelo de Paiva. O meu lema, (A força de ser Mulher). Foi uma experiência enriquecedora, de muitas aprendizagens que, por motivos pessoais e não só, foi um projeto que ficou pelo caminho quando abdiquei da sua concretização.

PJ – É uma pessoa muito ligada ao mundo literário. Pode falar-nos do seu percurso literário, enunciando inclusivamente a publicação do seu livro?

RR – Bem… Eu sou uma mulher ligada às letras. Desde que me conheço, sempre gostei de registar acontecimentos, passagens da vida, viagens, etc. Quando era adolescente fazia o meu diário, e registava as palermices da idade. Entretanto, a vida é uma caixinha de surpresas e quis o destino que eu tivesse como partilha de vida um companheiro, um homem único, do Porto, que estava ligado às terras de Castelo de Paiva e Cinfães por laços familiares. Mais propriamente à Casa da Cardia e Quinta da Taipa, situadas na freguesia de Fornos no concelho de Castelo de Paiva. Uma casa senhorial que data do séc. XII. A partir do ano setenta do século passado, casada, foi neste espaço paradisíaco, Quinta da Taipa, que eu comecei a desfrutar as férias nos meses estivais e aprendi a gostar das terras do interior, as terras do rio Paiva. Os anos passaram e muitas histórias eu fui ouvindo e armazenando na minha mente. Um dia, quando soube que iria ser avó resolvi transpô-las para o papel, para o meu neto as conhecer e também um dia as poder contar. Nunca ninguém tinha registado nada sobre esta família ” Lobo Soares” e sobre as quintas, a não ser registos oficiais. Entretanto, meu marido ao se aperceber dos meus escritos sugeriu que fossem publicados apenas para a família. A verdade é que o livro foi editado e publicado depois da sua partida, tendo sido várias as apresentações realizadas no Grande Hotel Termas e noutros espaços, sendo a sua apresentação oficial no Salão Nobre da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, facto que não poderei deixar de referenciar e apresentar os meus agradecimentos ao senhor Presidente da Câmara à época, Dr. Gonçalo Rocha, pela autoria do prefácio, e por todo o apoio que disponibilizou para a concretização de um momento tão especial e emblemático da minha vida. Também aqui ficam os meus agradecimentos a todos os seus colaboradores, em especial a Sérgio Gouveia.

 

PJ – Dê-nos a sua opinião sobre como é lançar um livro em Portugal, atualmente, referindo-se às dificuldades com que um escritor se depara.

RR – Em relação à publicação de livros no nosso país, não será surpresa eu dizer que se estivermos à espera que seja fácil, a verdade é que as dificuldades são muitas. Eu publiquei o meu livro sem patrocínios, pago por mim. Tenho muitos amigos, cuja situação é exatamente a mesma. Não é fácil, porque nem sempre a venda poderá correr bem. Bem, eu não me posso queixar. Também para os editores são muitas as dificuldades, desde já, muito agradeço ao meu editor Dr. Jorge Castelo Branco, pelo seu empenho, bom gosto e profissionalismo na concretização deste meu projeto. E mais uma vez ao Dr. Gonçalo Rocha por todo o apoio e colaboração de um sonho que se tornou uma realidade. Escrever faz bem. Faz a nossa mente pensar, trabalhá-la e sobretudo não se perder algumas passagens da vida. Essa é a razão de eu também publicar algumas brochuras para um dia recordar momentos significativos da vida.

 

PJ – Acredita que a sociedade e as instituições que nos representam dão a devida importância ao setor da cultura?

RR – Ah!!! Muito haveria para dizer. Sabe, nós os portugueses somos reconhecidos em todos os cantos do mundo. No entanto, aqui é o que sabemos. Há poucos apoios na cultura, na ciência e no desporto, ao contrário de outros países. Estas áreas ainda são pouco reconhecidas. A riqueza de um povo está na sua cultura. A verdade é que por cá ainda se menospreza muito estas áreas. Basta ver nos orçamentos de estado a percentagem destinada à cultura. Lamento, mas esperemos que um dia tudo mude para melhor. Atenção, vai melhorando… Vai Melhorando…

PJ – Conte-nos como começou esta sua aproximação e paixão pelas Termas de São Pedro do Sul.

RR – Nem sei como começar… Eu e meu marido sempre fomos, e eu continuo a ser, amantes da música e da cultura. Meu marido tinha uma voz única, também compunha e tocava. A nossa casa sempre foi um centro de encontro de amigos e familiares, convívios, tertúlias e outros eventos. Entretanto, também era frequente o convite de amigos, autores de obras literárias solicitarem a nossa colaboração e participação na apresentação de seus livros. Assim, um dia de comum acordo com os proprietários do Grande Hotel Termas, Carlos Matos e a minha sobrinha, também diretora do hotel, Cristina Raposo, foi nosso propósito dar uma nova dinâmica na área da cultura e da música. Constituído o grupo músico-cultural, “Os Noutrotom”, o projeto resultou e os serões no hotel passaram a ter grande animação e muito valorizados pelos hóspedes.

Entretanto o meu marido partiu. Com o grande apoio e carinho da sobrinha, que desde o primeiro momento em que fiquei só, demonstrou o quanto me estima e o quanto a minha presença é necessária, e ainda com a amizade, apoio e colaboração dos amigos que também amam a música e que muito me têm ajudado e com o calor humano de todos os colaboradores e dos hóspedes que frequentam esta unidade hoteleira, e eu com a energia muito própria da minha forma de estar na vida aqui estou a dar continuidade ao projeto que nós dois iniciámos. Penso que também será uma homenagem a meu marido. Uma coisa é certa, adoro partilhar a minha vida entre a minha casa e as Termas de S. Pedro do Sul, mais propriamente o Grande Hotel Thermas, lugar onde muitas amizades tenho conquistado. Mais uma terra adotiva que faz parte da minha vida.

 

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?

RR – Uma estória minha!!! A minha vida já vai sendo longa e tenho tantas… Mas, vou contar uma história que tem a ver com esta quadra. Pois ainda estamos na quadra natalícia, estamos no mês de cantarmos as Janeiras, Os Reis. Tinha eu sete, oito anos. Partira com meus pais de Lisboa para terras de Moçambique. no mês de novembro. A viagem processava-se no navio Moçambique, em instalações de luxo, pois assim o estatuto de meu pai o permitia. O Natal aproximava-se. Eu habituada a colocar o sapatinho na chaminé na noite de Natal para o Menino Jesus me presentear com os deliciosos presentes, sentia-me um pouco apreensiva. E pensava… Que seria muito difícil nesse Natal ter presentes, pois o “Menino Jesus”, não sabia onde eu estava e também não teria chaminé para pôr o sapatinho. Então, pus a questão a meu pai. O meu pai com toda a sua pedagogia, recomendou-me que seria melhor eu escrever a cartinha enunciando os meus pedidos, pois o “Menino Jesus”, sabia sempre tudo e estava em todos os lugares. Então, eu fiz isso. Escrevi a carta, e a verdade é que na noite de Natal coloquei o sapatinho na cómoda do quarto do hotel, onde estávamos instalados, e eu recebi os presentes. Recordo… Recordo com muita saudade aquele dia, a minha alegria e em simultâneo reviver a idade da inocência, da ingenuidade e da beleza de ser criança.

 

PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvida e que ainda não tenhamos falado?

RR – Bem, eu penso que ter projetos é um sinal que estamos vivos. Neste momento, para além de alguns temas em carteira para a realização dos próximos serões no hotel, com o apoio dos meus amigos e colaboradores, também amantes da música, na construção dos nossos serões temáticos, tenho em mãos, em fase de conclusão, um novo projeto. Um livro. Mais um… titulado: “O GRANDE HOTEL THERMAS, Cem Anos de História”. O Grande Hotel Thermas, fez cem anos de vida, no ano de dois mil e dezanove e penso ser merecido haver um testemunho do percurso de vida e da história deste tão glamoroso hotel. Depois de uma minuciosa pesquisa e com o recurso a testemunhas locais, iniciei a minha escrita, narrando desde a sua origem, as diversas fases até aos dias de hoje e ainda com a perspetiva no futuro, pois, muito haverá para saber ao longo dos cem anos de história. A minha previsão aponta para o seu lançamento ser em abril, maio… Espero que seja um projeto com sucesso, uma mais-valia para o Grande Hotel Thermas e ainda que seja mais uma realização da minha vida. Fico feliz!!!

PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

RR – Bem… Amo a família, nomeadamente as filhas, genros e o meu ternurento e delicioso neto, o Francisco. Adoro ter amigos, verdadeiros, e como é evidente, conviver com eles. Adoro estar no hotel, com a sobrinha, familiares e todos os que fazem parte desta casa. Gosto muito de ler, estar atualizada do dia-a-dia e escrever, como já referi. Adoro nadar. A natação é uma paixão. Adoro a vida e vivê-la com a alegria possível.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

RR – Felicidade

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

RR – Amor, Amizade, Fé, Esperança no futuro e ter Saúde. Continuar a ser acarinhada e amada por quem me quer bem e também amar.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Regina Rocha! Desejo-lhe um excelente ano de 2023  e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve de final de ano a todos os nossos leitores.

RR – Aproveitem muito bem e vivam todos os momentos da vida, com Amor, Esperança, Fé e muita Paz. Vivam a felicidade a cada dia. Querida amiga, muito obrigada por me ter proporcionado a possibilidade de dar a conhecer um pouco melhor de mim a todos os que comigo convivem, que comigo partilham e continuarão a partilhar todos os momentos significativos da vida e ainda para os vindouros.

12/01/2023


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