EDITORIAL 840

Que 2023 nos traga mais justiça social, capacidade crítica e determinação propositiva

Que 2023 nos traga mais justiça social, capacidade crítica e determinação propositiva

Foi o tema que ocupou os noticiários nacionais da nossa semana natalícia. A indignação popular com o caso do prémio milionário da TAP a Alexandra Leitão era percetível nas ruas. Num país de baixos salários que está confrontado com um novo ciclo de empobrecimento por via de atualizações salariais e de pensões abaixo da inflação, uma forte perceção de injustiça era inevitável.

A polémica rebentou quando se tornou público que Alexandra Leitão tinha recebido uma indemnização de 500 mil euros para sair da TAP e que, passados quatro meses, tinha ido presidir a uma empresa também da esfera pública, a NAV, tendo posteriormente transitado para o Governo.

Só depois deste último movimento é que o caso ganhou expressão pública e relevância política. Agora que o ano termina, a sua demissão a pedido do ministro que a tinha indicado para secretária de Estado do Tesouro foi o desfecho que já se adivinhava inevitável.

Sendo certo que a situação é indecorosa há quem se esteja a aproveitar para insistir na política dos casos e dos casinhos que atingem o Governo, não conseguindo ir para além da espuma dos dias. Ou seja, o problema não está apenas em que se conheçam as responsabilidades políticas desta história ainda mal contada, mas em se perceber como é que este sistema permite e até promove situações destas, até em empresas públicas. É preciso ir mais fundoi.

Repare-se que Alexandra Reis tinha estado envolvida nos cortes salariais aos trabalhadores da TAP que persistem em vigor e que motivaram greves ainda há poucos dias. Numa empresa da esfera pública que deve ter critérios de gestão ancorados na transparência, no interesse público e na justiça social, paga aos seus administradores salários muito acima do auferido pelo presidente da República, concede prémios verdadeiramente esdrúxulos, para além de benesses incompreensíveis (lembremo-nos do recente caso da compra de BMW), é a mesma empresa que corta nos salários apesar de haver dinheiro para indemnizações escandalosas.

Ora, a questão é que estas empresas públicas recorrem ao argumento das sacrossantas regras do mercado para comportamentos que colocam em causa o objetivo para que são constituídas: servir o interesse público nomeadamente no fornecimento de bens e serviços considerados essenciais ou estratégicos, garantir regras que ponham alguma ordem no liberalismo económico, impor elementos de regulação nos respetivos setores.

Para lá da artilharia partidária que se cruza à volta deste caso, o que deve estar incluído na nossa indignação é o facto de empresas públicas estarem a ser geridas com uma orientação política que as coloca ao nível das menos recomendáveis do setor privado. Alexandra Leitão é a ponta do iceberg de um sistema que cada vez mais se rege pelo liberalismo selvático: permite-se pagar meio milhão à administradora que sai depois de cortar drasticamente salários aos trabalhadores.

Que 2023 nos traga exigência de mais justiça social, capacidade crítica e determinação propositiva, como aconteceu há dias com pessoas de Murça aquando da visita do presidente da República ao concelho. Toda a equipa da Gazeta da Beira deseja um bom Ano Novo aos seus leitores e amigos.

29/12/2022


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