Entrevista a Rogério Fernandes Duarte
Professor

“A cultura e a educação são pilares fundamentais para qualquer sociedade que se queira impor no Mundo em que vivemos. Uma sociedade que não aposta seriamente na educação é uma sociedade condenada ao fracasso!”
Ficha Biográfica
Nome: Rogério Fernandes Duarte
Idade: 61 anos
Onde vive: Cotães – São Pedro do Sul
Profissão: Professor
Livro: “O Meu Pé de Laranja Lima”
Música: “Meu Mundo é Hoje” – (eu sou assim) – Paulinho da Viola
Destino de sonho: Nova Zelândia
Personalidade que admira: Jerónimo de Sousa
• Paula Jorge
Muito obrigada, Rogério Duarte, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Rogério Duarte – Estudei música no Conservatório de Música do Porto, mais tarde licenciei-me em Professor do Ensino Básico – 2º Ciclo, na variante de Educação Musical, e, posteriormente, fiz mestrado em Ensino de Educação Musical. Ainda concluí a parte curricular de um doutoramento em Ciências da Educação, mas a “preguiça”, por enquanto, ainda não me deixou concluir e apresentar a tese! Provavelmente, já irá ficar para a próxima encarnação, para quem acredita nessas coisas, é claro… Agora, falando a sério, encontro-me bastante desmotivado para concluir esse projeto, até porque, neste momento, tenho delineado para a ocupação dos meus tempos livres, outros projetos que, para já, considero mais importantes para a minha realização pessoal!
Quanto ao percurso profissional, sou professor do atual Agrupamento de Escolas de São Pedro do Sul, desde o pretérito longínquo dia 28 de fevereiro de 1986. Interrompi, entre os anos de 2005 a 2013, a minha prática docente, passando ao exercício de cidadania – vereador, a tempo inteiro, na Câmara Municipal de São Pedro do Sul, a convite do então, excelentíssimo presidente da câmara municipal, Dr. António Carlos Figueiredo, com quem adorei trabalhar.
Regressei à minha querida escola em novembro de 2013, onde me tenho sentido muito bem a fazer aquilo que mais gosto e, modéstia à parte, sei fazer melhor. Procuro partilhar, com os meus queridos alunos, os meus parcos conhecimentos, e, acima de tudo, contribuir, de forma modesta, para o seu crescimento harmonioso, principalmente nas vertentes humana e cívica, em suma, torná-los cidadãos bem formados, enquanto “pessoa humana”!

PJ – É uma pessoa muito ligada ao mundo literário. Pode falar-nos do seu percurso ao nível dos livros, enunciando todas as suas publicações?
RD – Bem, a primeira publicação que fiz, fi-la com mais dois colegas e amigos, o professor José Meneses e o professor Fernando Coutinho. Foi um projeto didático-pedagógico, intitulado “As Minhas Expressões Musical e Dramática”, projeto esse, direcionado ao 1º e 2º anos de escolaridade, que teve continuidade para o 3º e 4º anos.
Pouco tempo depois, publiquei, conjuntamente com o professor José Meneses, um trabalho intitulado: “Sons do Mundo”, direcionado para a educação pré-escolar.
Aquando da primeira publicação, surgiu-me a oportunidade de publicar o projeto: “Histórias com Música”, composto por três livros, acompanhados de um CD áudio, cada exemplar. Paralelamente, publiquei, da coleção “Histórias na Aldeia”, o primeiro livro intitulado: “A Ovelha Malhada”.
Entretanto, embora tivesse algum material no prelo pronto a ser publicado, eis que me foi lançado o desafio para o exercício já atrás referido. Obviamente, não me era compatível o exercício político, com as publicações que foram preteridas em detrimento das novas funções!
Adormecidas que estiveram durante estes anos todos, e, sinceramente, já nem pensava voltar a reativar esta minha faceta, eis que me foi despertado, por alguns colegas e amigos, o voltar a escrever e a publicar os meus “rabiscos”, que escrevo com muito amor e carinho, para as crianças que tanto adoro!
Escrever para crianças é voltar a ser criança! É fazer viagens infindáveis que nos fascinam e nos transformam em seres genuínos e que nos levam ao fascinante muito do imaginário! É ser-se feliz, é entender a Natureza, é saber distinguir o bem do mal, é perceber que o outro também existe! Enfim, muita coisa boa, mas mesmo, muito boa!…
PJ – No passado dia 8 de dezembro fez o lançamento de dois livros infantis no Cineteatro Jaime Gralheiro, que estava repleto de amigos. Como foi preparar e viver este momento?
RD – Sinceramente, inicialmente, nunca tive a intenção de criar um evento associado a estas publicações, pelo simples facto de entender não se justificar, uma vez serem duas pequenas estórias infantis a serem registadas em formato de livro, mas talvez tenha sido a Sr.ª a ter-me incentivado, indiretamente, a pensar: “porque não fazer o lançamento dos pequenos livros?”, aquando da minha participação no seu programa” Palavras Soltas”, esta é a verdade!


Entretanto, falei com o gerente da editora, Acento Tónico, com quem estou a trabalhar e este, respondeu-me que “se se conseguisse juntar cem pessoas, poder-se-ia pensar nisso a sério!” E foi então que comecei a “magicar” no assunto e desenhei aquele formato que acabou por acontecer de forma surpreendente, quer para mim, quer para quem esteve presente! Felizmente fiquei muito satisfeito pelo facto de os meus alunos se terem empenhado em participar e aos quais estou muito grato pela colaboração e, também, por me terem alimentado a minha “teimosia” de lhes proporcionar a agradável sensação de pisar um palco, com uma plateia a assistir!
Vale o que vale! Mas, não tenho qualquer tipo de dúvida que para aqueles jovens que ali estiveram presentes, nunca mais na vida se irão esquecer daquele momento, que para alguns, eventualmente, espero que não, tenha sido a primeira e a última vez, e que para outros tenha sido a primeira de muitas vezes!
É. A vida também é feita destes momentos e destas pequenas coisas!…
Em suma, foi muito bom.
PJ – Dê-nos a sua opinião sobre como é lançar um livro em Portugal, atualmente, referindo-se às dificuldades com que um escritor se depara.
RD – Começando pelo princípio, que é assim que se deve começar! Eu não me considero um escritor, mas sim um simples obreiro que tenta organizar um “amontoado” de palavras de modo a que os mais pequenos consigam viajar no seu imaginário!
Sabe, o termo escritor é de uma grande responsabilidade e eu já não tenho idade para me andar por aí a “armar em carapau de corrida”! Se me perguntar, gosta de escrever? Respondo-lhe de imediato, sim, adoro! Mas daí até me assumir como escritor, ainda vai uma distância muito grande! A verdade é que sou eu quem escreve as estórias, mas são simples estórias para crianças. Reconheço que possam ter algum interesse e servir de estímulo para elas, na vertente da educação literária, mas prefiro assumir-me como autor de pequenos textos.
As dificuldades, na minha modesta opinião, são sempre relativas às expectativas de quem as cria!

PJ – Acredita que a sociedade e as instituições que nos representam dão a devida importância ao setor da cultura?
RD – Não, não, e mais uma vez, não. Infelizmente, a grande maioria dos nossos políticos, pois são eles os principais responsáveis pelas instituições com competências na área, não têm a menor sensibilidade para a cultura, nas suas mais diversificadas manifestações. Mais uma vez, infelizmente, a grande maioria desses senhores/as, apenas fazem alguns números de ilusionismo para, como se dizia antigamente, “prá fotografia”, hoje, mais evoluída que está a tecnologia, para as redes sociais: Facebook, Instagram, Twitter and so one.
“A Cultura Não Dá Votos”, uma verdade de la palisse! (na cabeça de alguns deles, claro!)
Como bem sabe, e não só a Sr.ª, nós, os comuns mortais, também sabemos que uma percentagem significativa de pessoas, com grandes responsabilidades políticas, mal sabem escrever o nome delas, (uma força de expressão, claro!), quanto mais interessarem-se pela oferta e vida cultural das suas gentes!
Desde o poder central ao poder local, esta infeliz realidade encontra-se em muitos locais do nosso país!
É lamentável que Portugal seja o penúltimo país do continente europeu com pior índice de leitores, segundo a Associação Portuguesa de Livreiros.
Todos nós, enquanto portugueses, temos responsabilidades nesta matéria!
Eu pergunto: quantos são os adultos, em Portugal, que têm o bom hábito de, diariamente, lerem uma pequena estória ao seu filho, ao deitar? Dá muito trabalho e é muito aborrecido, não é? É preferível dar-lhe para as mãos o telemóvel ou então ligar-lhe o seu moderno televisor, é verdade, ou não? Acha que estou a exagerar? Talvez não, digo eu, não sei…
Conhece o provérbio: “de pequenino é que se torce o pepino “, não conhece?
Pois é. Não há milagres! O Homem, indubitavelmente, é fruto do ambiente onde vive e cresce e é um “animal de hábitos”! Se for crescendo com bons hábitos será um cidadão bastante diferente daquele que cresceu com hábitos menos bons e o resultado final será bem visível!
O resultado estatístico que há pouco referi e outros tão ou mais importantes deixam-me um pouco entristecido e com vontade de gritar bem alto: acordem, ou melhor, acordemos todos!
A cultura e a educação são pilares fundamentais para qualquer sociedade que se queira impor no Mundo em que vivemos.
Uma sociedade que não aposta seriamente na educação é uma sociedade condenada ao fracasso!
PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
RD – Uma das histórias que mais me marcou na minha vida, e da qual falo muitas vezes, foi uma bofetada que levei quando tinha 17 anos de idade, dada por uma senhora que, na altura, deveria ter aproximadamente os seus 55/56 anos de idade, por eu ter dito uma verdade, que a deixou bastante embaraçada, à frente dos meus colegas e amigos: Albino Martins, Marcelo Ribeiro, Carlos Marques (mais conhecido por Peninha) e outros…
Essa bofetada foi dos maiores contributos para o vínculo da minha personalidade no que toca à minha forma de ser e estar.
Com ela aprendi a enfrentar, com a verdade, situações agradáveis e menos agradáveis, com que me tenho deparado ao longo da minha vida! Caricato, não é?
PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?
RD – Sim, falo-lhe do meu canal na plataforma digital YouTube: Histórias com Música de Rogério Duarte, que desde fevereiro último já lá publiquei, entre estórias e músicas, tudo da minha autoria, 21 vídeos.
Se me permite, aconselho todos os leitores a visitarem o meu canal e a darem-no a conhecer aos mais jovens.
Ah, as estórias infantis também devem ser lidas ou visualizadas pelas pessoas adultas, não lhes faz mal nenhum, pelo contrário! Não nos devemos esquecer que dentro de cada um de nós, adultos, existe sempre uma criança!…
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outra paixão nutre, que o completam enquanto pessoa?
RD – O contacto com a Natureza, a prática da agricultura biológica, no meu quintal, claro. A relação de amizade sincera que cultivo com muitas, mas muitas pessoas mesmo.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
RD – Lutador.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
RD – Sinto, com grande tristeza, o drama de todas as pessoas que, atualmente, vivem num clima de guerra e de desgraça total, motivado pela enorme estupidez e malvadez de alguns Homens que para eles, neste Mundo, apenas interessam os bens materiais, e nada mais…
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Rogério Duarte! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve de final de ano a todos os nossos leitores.
RD – Desejo a todos os leitores do Gazeta da Beira um excelente ano de 2023, principalmente com muita saúde e alguns euritos na algibeira!
29/12/2022

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