Graça Barão
João Aguiar - A Encomendação das almas

Graça Barão
Natural de Lisboa, João Aguiar viveu, no entanto, parte da sua infância em Moçambique. Jornalista e guionista – trabalhou em jornais diários e semanários, fez adaptações para a RTP e a rádio, foi coautor do guião do filme “Inês de Portugal”. Em 1981 foi nomeado assessor de imprensa de Augusto Ferreira do Amaral, Ministro da Qualidade de Vida. Escritor – o seu trabalho reparte-se pelo romance, teatro (radiofónico), contos e ainda três séries juvenis: “O Bando dos Quatro”, “Pedro & Companhia” e “Sebastião e Os Mundos Secretos”. Partiu em 2010, aos 66 anos. Deixou uma marca indelével nas letras portuguesas.
O que poderá ligar um homem de setenta anos a um jovem de dezassete, que não se conhecem, para além da circunstância de algumas ações-decisões os colocar no mesmo lugar, em Poiais da Santa Cruz? Em “A Encomendação das Almas” (1995), as personagens centrais, Gonçalo Nuno e José Eduardo Pintado (Zé da Pinta), respetivamente (o primeiro autoexclui-se da vivência com a família e amigos, o segundo é excluído pela família e colegas por reagir com silêncio ao mundo que o rodeia), enfrentam um mundo em transformação no fim do século: mentalmente empobrecido por novelas e reality shows e publicidade mesmerizante, pela compra de eletrodomésticos a suaves prestações, pelo sucesso fulgurante de carreiras vazias, pela modernice da “água de Vidago” (na taberna de Poiais). Incapaz de os compreender, este novo mundo favorece a aproximação e a convivência que se instala entre eles, assente no silêncio que ambos privilegiam, nas leituras do septuagenário e na construção de engenhos rotativos sem propósito claro do adolescente.
Em estilo tido como fácil, mas singularmente caricaturado, o leitor é forçado a abrandar a leitura para aclarar a crítica apurada e pouco indulgente.
15/12/2022

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