Entrevista a Luís Esteves, presidente da Casa de Castro Daire

Casa do Concelho de Castro Daire em Lisboa comemora o 31º aniversário a 14 de Dezembro

Entrevista a Luís Esteves, presidente da Casa de Castro Daire

Embaixada da cultura popular castrense com muita “chieira”

Luís Esteves – Presidente da Casa de Castro Daire

Natural do concelho de Castro Daire, tal como todos os membros da Direção, Luís Esteves tem raízes na aldeia de Relva, um território banhado pelo rio Paivó, um dos afluentes do Paiva. Com 37 anos de idade, assumiu há cerca de 5 anos a presidência da Casa do Concelho de Castro Daire (CCDD). Fez os estudos superiores em Lisboa, onde vive e exerce a sua atividade profissional de professor.

A Sede da CCCD, em Marvila, na zona oriental da cidade de Lisboa, a poucos metros da avenida Infante D. Henrique, encontra-se num espaço rodeado por núcleos habitacionais onde é elevada a presença da comunidade castrense. Do outro lado da avenida destaca-se o Bairro da PRODAC, com origem na gente migrante de Castro Daire que se associou e lutou para conseguir uma habitação condigna.

Gazetada Beira (GB) – Que perspetivas animam para o futuro a Casa do Concelho de Castro Daire a que preside e que dentro de dias comemora 31 anos de existência?

Luís Esteves (LE) – A nossa principal preocupação é conseguir que a identidade de Castro Daire, como cultura popular, seja promovida, salvaguardada e divulgada o melhor possível. No plano das atividades, temos três grandes núcleos que queremos fortalecer: a Academia de Concertinas, em parceria com a Fundação INATEL, que inclui uma escola com, atualmente, cerca de 50 alunos, e o Grupo de Concertinas da CCCD; o Rancho Folclórico e Etnográfico que é a espinha dorsal da Casa, que vem desde a fundação; e mais recentemente a atividade desportiva que é um projeto de coesão e integração social, essencialmente o futsal.

Bairro da PRODAC visto da sede da Casa de Castro Daire

GB – Como é que a CCCD, uma entidade associativa que tem muito a ver com a tradição e com a saudade, se adapta e articula com a modernidade?

LE – As nossas tradições culturais são notáveis, com expressões várias e, ao longo do tempo, existe uma espécie de transmutação dessas expressões. É nesse quadro que nos encaixamos, continuamos a ter o nosso folclore, por exemplo, é castrense, mas os seus elementos vão-se rejuvenescendo e não têm de ser necessariamente naturais do concelho. Aliás, cada vez mais procuramos responder às solicitações geradas na própria freguesia de Marvila.

 

GB – Cada vez mais a CCCD é uma coletividade “alfacinha”?

LE – Vai ter de o ser, obrigatoriamente, e acontece com a CCCD como acontece com as outras casas regionais, que têm um propósito regionalista. Atualmente, matar saudades de Castro Daire ou ver familiares e amigos próximos já não obriga a uma viagem penosa e dispendiosa de muitas horas. Num fim de semana podemos ir “à terra”, até com alguma frequência, e podemos recorrer às redes sociais com grande facilidade ou a uma chamada áudio e vídeo pelo telemóvel.

 

GB – A cidade como que se aculturou, tornou-se mais plural nas suas origens?

LE – Lisboa recebeu muitos migrantes ao longo das épocas e já não é de lisboetas, mas está a tornar-se uma Lisboa pluricultural, uma “manta de retalhos” de muitas regiões e até de nações. É nesse meio que a CCCD quer desenvolver-se. Assumimos que as casas regionais, que foram como que uma proteção relativamente ao preconceito de quem era de origem rural, passaram a ter outro papel integradas na urbe. São lugares de cultura popular e têm de ser reconhecidas como tal.

 

GB – Sente-se embaixador de Castro Daire em Lisboa?

LE – Pergunta difícil… [risos]. Bem, a título pessoal, não, mas como equipa, sim! Aliás, é constatativo, a única estrutura representativa de Castro Daire fora dos limites do município é a CCCD. Sem dúvida que a Casa é uma embaixada identitária de Castro Daire além-fronteiras.

Praticantes de concertina numa sala da Academia

GB – Os poderes instituídos, nomeadamente autárquicos, reconhecem isso e têm uma atitude conducente com essa importância, a de a CCCD ser como que uma embaixada regional?

LE – No que diz respeito à freguesia onde nos situamos há um claro reconhecimento, até porque cerca de 40% da sua população é de origem beirã. As cumplicidades e sinergias são evidentes. Quanto a Castro Daire, poderia haver mais. Nada tem a ver com partidos, mas com uma certa cultura política um pouco “provinciana” que ainda não vê a casa regional como uma estrutura associativa própria que tem muito a dar à região, mas talvez como uma simples extensão. Temos contado com o apoio da Câmara Municipal de Castro Daire, mas temos uma visão mais alargada para esta estrutura que gostaríamos que fosse partilhada.

Luís Esteves, presidente da Casa de Castro Daire, na nova sala de exposições

GB – Qual a principal realização, o evento mais emblemático da CCCD em Lisboa?

LE – É o “Castro Daire abraça Lisboa”. É uma marca, composta por um festival que chegou a ocupar a avenida da Liberdade. Houve um interregno e esta Direção retomou o festival, agora com desfile pela Ribeira das Naus até ao Terreiro do Paço, no mês de Maio, com grupos etnográficos, bandas filarmónicas, mostra de produtos regionais.

 

GB – Está envolvido, como diretor, num filme a estrear em breve, um documentário sobre as casas regionais.

LE – Tem tudo a ver com esta nossa conversa. Surge na minha linha de investigação de doutoramento sobre as casas regionais em Lisboa. Pegar nas expressões rurais no espaço urbano e construir um documentário a partir dessas imagens. Chama-se “Chieira”, uma palavra que caiu em desuso, mas que significa vaidade. Na minha conceptualização, trata-se da vaidade, orgulhosa e honesta, que se vive nestas casas regionais pelas origens, como que uma sadia vaidade pela identidade.

 

Sobre o “castrense alfacinha”

Capela da Nossa Senhora da Ouvida

A emigração de famílias originárias de Castro Daire para a capital é antiga, presume-se que desde os finais do Séc. XIX. Em 1885, a Sociedade Musical 3 de Agosto, sediada no Palácio Marquês de Abrantes, tem castrenses na sua génese. Presume-se esteja ligada à romaria da Senhora da Ouvida, a mais importante e tradicional do concelho que se realiza anualmente a 3 de Agosto.

A migração intensifica-se nas décadas seguintes com o processo de êxodo rural, quando a agricultura começa a ceder mão de obra para a indústria nascente.  A zona oriental constituiu um dos polos da industrialização e da logística de então na capital (Fábrica Nacional de Sabões, Fábrica de Borracha, Fábrica dos Fósforos, Fábrica de Braço de Prata, armazéns Abel Pereira da Fonseca, estiva no Porto de Lisboa, entre tantas outras).

Começaram por construir os seus próprios bairros informais, autênticas aldeias beirãs na cidade, como era o caso do Bairro Chinês, um dos maiores, com uma população solidária e cooperante entre si, de raízes operárias e rurais, socialmente interligada e integrada. Posteriormente alcançaram alojamentos condignos, nalguns casos em bairros municipais que começaram a ser edificados nos anos 80/90, mas também por via da sua associação a cooperativas de habitação como a do bairro da PRODAC.

O “castrense alfacinha” que povoa Castro Daire é prova da preservação da identidade cultural local, conforme refere o historiador Daniel Bastos na sequência do evento “Da serra para a fábrica”, organizado pelo município de Castro Daire, através da Biblioteca Municipal, a Binaural Nodar e a Casa do Concelho de Castro Daire em Lisboa, que se dedicou, ao longo de 3 anos, ao resgate e difusão de memórias de milhares de pessoas originárias do concelho de Castro Daire.

10/11/2022


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