Entrevista com João Carlos Matos do Vale
Escritor e Assistente Técnico na Câmara Municipal de Tondela

• Paula Jorge
Para um neófito escritor as portas das editoras não se abrem assim com facilidade, o que leva a que quem queira lançar um livro o tenha de fazer por sua conta e risco, tantas vezes sem ter quem o oriente.
“Gente Que Ousa Fazer”
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: João Carlos Matos do Vale
Idade: 57 anos (7 de abril de 2022)
Onde vive: Valverde, freguesia de Canas de Santa Maria, concelho de Tondela
Profissão: Assistente Técnico na Câmara Municipal de Tondela e Escritor
Livro: São vários, mas cito dois: “O Anjo Branco” de José Rodrigues dos Santos, por falar em Moçambique e “Paula” de Paula Jorge pela viagem que nos leva a fazer pela região lafonense.
Música: Fado Tropical de Chico Buarque
Destino de sonho: Moçambique
Personalidade que admira: S.S. Papa Francisco

Muito obrigada, João Carlos Vale, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
João Carlos Vale (JCV)– Em termos académicos, tenho apenas o 11º ano do curso de Cientifico-Naturais. Ingressei via ad-hoc em 1999 no curso de Engenharia Civil, na Escola Superior de Tecnologia – Instituto Politécnico de Viseu, curso que frequentei durante 4 anos, tendo apenas concluído 4 cadeiras. Em 2020, ingressei na Universidade Aberta, onde me encontro a frequentar a Licenciatura em Ciências Sociais no minor de Ciência Política da Administração.
Em termos profissionais já fiz um pouco de muita coisa. Em 1982 fui balconista de 3ª classe numa papelaria/livraria em Tondela; em 1985, fui realizador/locutor na Rádio Clube do Centro/Emissora das Beiras (à data uma das cinco rádios oficiais em Portugal); em 1988 ingresso como programador/operador de computadores na firma S.I.A.F./M.D.F. (Grupo Sonae) em Mangualde; em 1989/90 fui professor do ensino secundário, na Escola C+S de Canas de Senhorim lecionando as disciplinas de Linguagens de Programação e Introdução à Informática ao 10º Ano, Bases Lógicas de Computação, Estrutura e Organização de Dados e Técnicas de Tratamento de Dados ao 11º Ano e Sistemas Operativos e Arquitetura de Computadores ao 12º Ano; de novembro de 1990 a fevereiro de 1993, escriturário com responsabilidades no sector informático na firma Indagra -Indústria de Granitos, SA., em Caparrosa – Tondela e desde março de 1993, funcionário administrativo da Câmara Municipal de Tondela, com uma breve passagem por mobilidade (de Maio a Outubro de 2017), no Departamento de Proteção Contra os Riscos Profissionais, no Serviço Médico do Porto do Instituto de Segurança Social, IP.
PJ – É uma pessoa muito ligada ao mundo literário. Pode falar-nos do seu percurso ao nível dos livros, enunciando todas as suas publicações?
JCV – Sempre tive a paixão pela leitura (atualmente leio muito pouco) e pela escrita, pese embora nunca tenha sido um bom aluno a português, muito até pelo contrário. O sonho de escrever um livro sempre esteve na minha mente e em 2015, esse sonho tornou-se realidade com a saída de “Doação”, o meu primeiro livro. Este livro contém vários poemas que eu já tinha escritos, alguns datando de 1983. A opção pela poesia aconteceu, por me sentir mais à vontade neste tipo de escrita. No ano seguinte sai o meu 2º livro, também de poesia, intitulado “Palavras ditas pelo coração”. Em 2017, o 3º livro (igualmente de poesia) a que dei o título “Eterno Romântico”. Em 2018, saí da minha zona de conforto e apresentei o Tomo I do projeto Divagações (Divagações – Tomo I) que conjuga artigos de opinião com um conjunto de 5 quadras relativas ao tema em causa. No ano seguinte apresentei “Divagações – Tomo II”, dentro do mesmo estilo. Em 2019, voltei a sair da minha zona de conforto e, respondendo ao desafio de uma familiar, escrevi o meu primeiro romance com o título “Ao sabor das armas”. É de salientar que este era o título que eu tinha em mente para o meu 1º livro de poesia, mas esta familiar insistiu em dizer que o título se adequava mais a um romance e assim, a partir de um simples título, começou a ser germinado um romance. No ano seguinte saiu “Sobrevivi”, um 2º romance, abordando o tema da violência doméstica contra mulheres, onde tive a honra de ter um prefácio assinado por ti. Já este ano apresentei mais dois livros: “Divagações – Tomo III” e “A minha margarida e outras flores” este último de poesia, perfazendo assim 9 livros até agora, além da participação em algumas coletâneas e almanaques.
Em termos de prémios, tive a honra de obter vários prémios nos únicos jogos florais em que participei (Jogos Florais de Tondela), onde se incluem 1ºs, 2ºs e 3ºs lugares, além de menções honrosas.

PJ – Será possível perguntar a um escritor qual o livro que mais o marcou ao escrever? Se sim, qual e porquê?
JCV – Não é fácil responder a esta questão, uma vez que cada livro nos marca de forma intensa, tal é a labuta em que estamos envolvidos, até que ele possa ser apresentado. No entanto, não querendo fugir à questão colocada, direi que o primeiro teve um impacto forte em mim, acima de tudo por ser o primeiro, mas foram os romances que até agora mais me marcaram. Se em “Ao sabor das armas” fiz uma viagem de saudade à terra que me viu nascer e onde vivi 9 maravilhosos anos (Moçambique) e onde aproveitei para falar de algumas vivências, tive em “Sobrevivi” um impacto forte, pois tenho sentido que este grito de alerta que tentei dar sobre o tema da violência doméstica contra as mulheres, acolheu a aceitação de muita gente. Tenho confidências de leitoras que me disseram que a leitura deste romance, serviu de pedra de toque para que elas se pudessem ver livres dos grilhões do horror a que estavam presas. Já o disse publicamente e aqui o reitero. Cada mulher que eu consiga ajudar a livrar-se de monstros maquiavélicos (termo usado por uma das pessoas que me confidenciou as sevícias a que esteve sujeita) é para mim um prémio mais valioso do que qualquer prémio literário. Infelizmente têm sido imensas as mulheres que me têm dito que se reveem em algumas das personagens do livro.
PJ – Dê-nos a sua opinião sobre como é lançar um livro em Portugal, atualmente, referindo-se às dificuldades com que um escritor se depara.
JCV – Há para mim uma enorme dificuldade em lançar um livro em Portugal e tal deve-se a vários fatores. O investimento é avultado e além disso, as editoras preferem autores consagrados, pois sabem de antemão que o retorno do investimento está à partida garantido. Para um neófito escritor as portas das editoras não se abrem assim com facilidade, o que leva a que quem queira lançar um livro o tenha de fazer por sua conta e risco, tantas vezes sem ter quem o oriente. Nesse espeto eu tive a felicidade de ter alguém que me deu sábios conselhos e me orientou na minha primeira aventura. Optei por uma editora pouco conhecida, mas a partir do romance “Ao sabor das armas”, decidi trabalhar diretamente com uma gráfica, uma vez que não vi da parte da editora nenhuma mais valia. Neste momento todo o trabalho de edição dos meus livros passa em exclusivo por mim, com a ajuda obviamente de um grupo de amigos que me apoiam em todas as tarefas que eu não consigo fazer e garanto que é bem mais rentável para mim.
PJ – Acredita que a sociedade e as instituições que nos representam dão a devida importância ao setor da cultura?
JCV – Não dão, na minha opinião, ou melhor, dão a uma determinada cultura em detrimento de outra. Passo a explicar. Veja-se no caso da música por exemplo em que há belíssimos cantores que não têm hipótese de serem convidados para atuar nos melhores palcos nacionais, porque não estão alinhados com as ideologias de quem promove eventos culturais. De igual forma poderei questionar qual a defesa que se faz dos grandes vultos da literatura em Portugal nos dias de hoje? Recordo-me de no meu tempo de estudante, ter lido obras de Eça de Queirós, Alves Redol, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Gil Vicente, Vergílio Ferreira, Agustina e Sophia de Melo Andresen, além de poetas como Fernando Pessoa, Camões, Bocage, Cesário Verde, etc. Hoje vejo que muitos destes vultos da literatura são quase desconhecidos da maioria dos nossos jovens. Podemos evidenciar um artista, sem necessidade de ostracizar os outros. Há imensos talentos nas diferentes áreas da cultura em Portugal e muitos deles apenas precisam de uma oportunidade para se mostrarem. Esse papel de divulgação está nas mãos do poder central, mas também nas autarquias locais na promoção de eventos que ajudem a divulgar o que de melhor se faz na sua região. Um povo sem cultura é um povo imbecilizado.

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
JCV – Sem dúvida que a história que mais me marcou foi a chamada descolonização que na realidade não passou de um abandono dos portugueses que viviam nas antigas Províncias Ultramarinas. Quantos destes portugueses conseguiram fugir apenas com o que traziam no corpo, abandonados por aqueles a quem competia a sua defesa e não me estou a referir aos nossos militares, pois esses também foram (na sua grande maioria) abandonados à sua sorte, mas sim a quem, sentado na cadeira do poder, não deu importância a esse quase meio milhão de vidas. No meu caso particular, posso dizer que até fui um privilegiado, mas tal facto não me impede de ter um princípio de alteridade e de imaginar o que esses portugueses passaram. Eu tive o privilégio de ter vindo num avião que foi fretado pela Polícia de Segurança Pública (da qual o meu falecido pai era membro), o que me permitiu uma fuga em segurança. Ao chegar a Portugal no dia 9 de novembro de 1974, tive um choque brutal com uma realidade totalmente antagónica daquela de onde vinha, ainda para mais tendo vindo para uma aldeia (aquela aonde vivo) no interior rural de Portugal. Vim viver para uma casa onde já havia eletricidade, mas não tinha rede de água e nem sequer uma simples casa de banho, algo que era para mim algo natural em Moçambique. A juntar a esta situação, o clima mais frio e por vezes gélido; o olhar de desconfiança de muitos vizinhos e colegas, incluindo até alguns familiares e o tom depreciativo com que era usada a palavra “retornado”, abalaram-me imenso, mas também me ajudaram a fortalecer para enfrentar as dificuldades. Em relação ao termo “retornado”, recordo-me de ter tido uma acesa discussão com um familiar que era emigrante, pois quando lhe disse que ele quando retornava a Portugal é que era retornado. Para ele aquela palavra era uma ofensa, pois entendia que quem era retornado era eu, ao que eu retorquia em vão como poderia eu ser retornado se nunca tinha estado em Portugal. Esse “trauma” levou anos a passar, mas foi muito complicado na altura, devo confessar. Na minha vertente de socorrista, também me marcou e marca as vidas que ajudei a salvar enquanto reanimador, algumas delas de pessoas bem próximas de mim.
PJ – Quer falar-nos de alguns projetos em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?
JCV – Neste momento o meu maior projeto (e quase único) é tentar terminar a minha licenciatura. Estou de igual forma envolvido na apresentação dos meus próximos livros e por causa do impacto do romance “Sobrevivi”, estou a estudar algumas abordagens que tenho para falar sobre a violência doméstica contra mulheres, em alguns municípios da área metropolitana de Lisboa e não só, estando aberto a ir a outros locais. Há outros projetos que tenho em mente, mas para os quais só irei avançar após o términus da licenciatura (isto se o conseguir). Há algo que tenho em mim desde sempre. Raramente viro a cara a um desafio que me façam, desde que sinta que possa ser uma mais valia nesse projeto. Mas como referi, não gosto de me envolver em projetos se sentir que não vou poder dar a ajuda que quero e por isso tenho declinado alguns convites para integrar direções de algumas coletividades.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
JCV – A família, obviamente, mas também e sobretudo os meus amigos que é aquela família que o nosso coração escolhe. Tenho igualmente uma enorme paixão pela área da saúde e dos primeiros socorros e acalento a esperança de que se concretize um convite que em tempos me endereçaram para regressar a Moçambique numa missão de solidariedade, usando os meus conhecimentos nesta área para apoiar quem deste tipo de cuidados necessite. Como tenho o gosto pela escrita, tenho também uma paixão por canetas de aparo (canetas de tinta permanente), tenho algumas no meu espólio.

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
JCV – Escolho a palavra Solidário. Poderia escolher também a palavra amigo ou uma palavra que gosto muito: Cavalheiro.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
JCV – Diz-me que quase a chegar aos 60 anos, estou orgulhoso no que consegui até aqui e que mesmo podendo ter conseguido muito mais, foi um percurso feito com honestidade, verdade e sem necessidade de prejudicar ou pisar quem quer que fosse. Sei que errei muitas vezes, mas isso aconteceu porque tentei. Se eventualmente prejudiquei alguém, isso aconteceu de forma involuntária e disso aqui me penitencio. Um dia quando partir não gostaria que me recordassem com lágrimas, mas sim com o bom humor que sempre tento incutir em quase tudo o que faço e sobretudo que me recordem como um amigo.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, João Carlos Vale! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
JCV – Quero começar por agradecer o convite que me foi endereçado para esta entrevista, esperando ter estado à altura dos ilustríssimos convidados que por esta rúbrica passaram. É sempre uma honra ser reconhecido fora do meu concelho (sendo que por vezes sou mais reconhecido fora do que intra-portas) e um raro privilégio poder falar para um jornal para o qual já escrevi num passado recente. O meu eterno bem-haja a toda a equipa da Gazeta da Beira, em especial a ti, Paula Jorge, com os votos de ter contribuído com algo de positivo para os leitores.
10/11/2022

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